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Rendição: o início do caminho da devoção

  • Foto do escritor: Vana Madhuryam Brasil
    Vana Madhuryam Brasil
  • há 5 horas
  • 11 min de leitura

Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja

20 de janeiro de 2026, Alto Paraíso de Goiás (GO)


Ontem realizamos um programa belíssimo na Embaixada da Índia, em Brasília, e hoje viemos para Alto Paraíso de Goiás, no templo Bhakti Cakora Āśrama. Todos vocês expressaram os sentimentos de seus corações de forma muito bela. Aqueles que não tiveram a oportunidade de falar talvez possam fazê-lo hoje ou amanhã. Quero ouvir todos vocês.


O melhor orador é aquele que escuta com atenção. Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Prabhupāda deu uma aula enfatizando exatamente isso: “o melhor orador é o melhor ouvinte.” Se vocês não escutam apropriadamente, como poderão falar? Por isso, devem ouvir diferentes oradores; assim, poderão extrair a essência de bhakti (devoção). 


Nos śāstras (textos sagrados), é dito:


aṇubhyaś ca bṛhadbhyaś ca śāstrebhyaḥ kuśalo naraḥ

sarvataḥ sāramādadyāt puṣpebhya iva śaṭpadaḥ


Śrīmad-Bhāgavatam (11.8.10)


[“Assim como uma abelha coleta a essência de todas as flores, uma pessoa inteligente deve extrair a essência de todos os śāstras, sejam eles grandes ou pequenos.”]


Esse verso descreve como uma abelha vai de flor em flor, coletando o pólen de diferentes tipos de flores, desde as menores até as maiores. De modo semelhante, os oradores experientes escutam atentamente os demais. Vocês não devem agir de forma descuidada, pensando: “agora é a minha vez de falar”, discursar e ir embora em seguida — isso é uma ofensa. Vocês devem ouvir todos os oradores, desde os menos experientes até os mais experientes. Assim, serão capazes de coletar toda a essência de bhakti.


Os nossos śāstras explicam que, mesmo que vocês não compreendam o que está sendo dito, devem se sentar e ouvir a palestra, pois esses tópicos são transcendentais. Aquilo que é transcendental possui essa natureza: entra automaticamente pelos ouvidos, alcança o coração e elimina tudo o que é desnecessário.


Isso é muito importante. Todos vocês devem se sentar e ouvir todos os oradores, pois isso faz parte do sādhana, a prática espiritual. Contudo, apenas ouvir não lhes trará frutos. Após ouvir, devem se lembrar desse hari-kathā. Vocês devem ouvir até mesmo exposições da filosofia impersonalista dos māyāvādīs, para compreendê-las e poder refutá-las.


Jīva Gosvāmīpāda realizou o parikramā (peregrinação) de Navadvīpa-dhāma sob a orientação do Senhor Nityānanda Prabhu, que lhe revelou e glorificou todos os locais de passatempos ali presentes. Depois disso, Nityānanda Prabhu instruiu Jīva Gosvāmīpāda a ir a Vṛndāvana para encontrar seus tios, Rūpa e Sanātana Gosvāmī.


Seguindo a instrução de Nityānanda Prabhu, Jīva Gosvāmīpāda dirigiu-se a Vṛndāvana. No caminho, porém, permaneceu por um ou dois meses em Kāśī, local onde o Senhor Caitanya Mahāprabhu refutou a filosofia māyāvādī. Lá, vivia Madhusūdana Vācaspati, o discípulo de Sārvabhauma Bhaṭṭācārya. Com ele, Jīva Gosvāmīpāda pôde compreender como o Senhor Caitanya Mahāprabhu havia refutado toda a filosofia impersonalista. Isso demonstra que, ao escutar atentamente tudo o que é dito, é possível observar os exemplos apresentados, compreender o conteúdo e, então, falar de maneira adequada.


Śrīla Jīva Gosvāmīpāda compôs os seis Sandarbhas com base em tudo o que ouviu de Madhusūdana Vācaspati, que, por sua vez, transmitia os ensinamentos que o Senhor Caitanya Mahāprabhu deu a Sarvabhauma Bhaṭṭācārya. Estou destacando, assim, a importância de escutar e, então, lembrar. Apenas por meio da escuta atenta, vocês serão capazes de falar adequadamente.


Vocês falaram de forma muito bela e expressaram os sentimentos de seus corações. O desejo do Senhor Caitanya Mahāprabhu é que a pregação se espalhe por todo o mundo. Ele não escreveu nenhum grantha (livro sagrado); apenas recitou oito versos em glorificação ao canto dos santos nomes, conhecidos como Śikṣāṣṭakam. Esses oito versos glorificam o harināma-saṅkīrtana.


O Senhor Caitanya Mahāprabhu enfatiza que, nesta era de Kali, não há outro meio de alcançar a perfeição além do canto dos santos nomes. Por meio de karma (prática de atividades fruitivas), jñāna (cultivo de conhecimento), yoga (busca por poderes místicos) ou tapasya (austeridades), não é possível atingir esse objetivo. Mesmo que vocês controlem a raiva, a luxúria e a inveja, ainda assim não será suficiente. A única maneira de alcançar essa perfeição é por meio do canto dos santos nomes.


na sādhayati māṁ yogo na 

sāṅkhyaṁ dharma uddhava 

na svādhyāyas tapas tyāgo 

yathā bhaktir mamorjitā 


Śrīmad-Bhāgavatam (11.14.20)


[“Meu querido Uddhava, o serviço devocional puro que Me é prestado por Meus devotos coloca-Me sob o controle deles. Não posso ser controlado dessa maneira por aqueles que se ocupam com yoga místico, filosofia Sāṅkhya, atividades piedosas, estudo védico, austeridades ou renúncia.”]


Kṛṣṇa proferiu esse verso ao Seu melhor amigo Uddhava. Nele, Ele explica que, por meio de karma, yoga, jñāna ou tapasya, não é possível alcançar a perfeição. Isso só é possível por meio de bhakti-yoga. E, em Kali-yuga, bhakti-yoga significa cantar os santos nomes.


Mas como se engajar em bhakti-yoga?


śrī-prahrāda uvāca

śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ

smaraṇaṁ pāda-sevanam

arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ

sakhyam ātma-nivedanam


iti puṁsārpitā viṣṇau

bhaktiś cen nava-lakṣaṇā

kriyeta bhagavaty addhā

tan manye ’dhītam uttamam


Śrīmad-Bhāgavatam (7.5.23-24)


[“Prahlāda Mahārāja disse: ‘Ouvir e cantar a respeito do santo nome, da forma, das qualidades, da parafernália e dos passatempos do Senhor Viṣṇu, que são todos transcendentais, lembrar-se deles, servir aos pés de lótus do Senhor, oferecer ao Senhor respeitosa adoração com dezesseis classes de artigos, oferecer orações ao Senhor, tornar-se Seu servo, considerar o Senhor o melhor amigo de todos e Lhe entregar tudo (em outras palavras, servi-lo com corpo, mente, palavras) estes nove processos são aceitos como serviço devocional puro. Alguém que dedicou sua vida a servir a Kṛṣṇa por meio desses nove métodos deve ser considerado a pessoa mais erudita, pois adquiriu o conhecimento completo.’”]


Esses são os nove membros de śuddha-bhakti bhaktiś cen nava-lakṣaṇā. Contudo, neste verso, Prahlāda Mahārāja diz “iti puṁsārpitā”. A palavra “arpitā” indica que, primeiramente, vocês devem oferecer a si mesmos ao Senhor — ātma-samarpaṇa. Somente após isso, ouvir e falar sobre o Senhor será considerado bhakti.


Quando um pedaço de ouro é entregue a um ourives para a confecção de joias, primeiro ele o aquece a altas temperaturas para remover as impurezas. Somente depois desse processo é possível moldá-lo em diferentes formas, pois então estará completamente puro.


Da mesma forma, bhakti é comparada a esse ouro purificado, que pode ser moldado em diversos ornamentos. Para que isso aconteça, é necessário primeiro entregá-la àquele que sabe trabalhá-la. Assim, o primeiro passo no caminho da devoção é a rendição. Vocês precisam se entregar por completo.


Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Prabhupāda ensina que o praticante deve ser como um animal vendido — completamente entregue. Se vocês comprarem uma vaca em uma feira agropecuária, por exemplo, a partir daquele momento ela será sua propriedade; portanto, quando tirarem o leite dessa vaca, ele pertencerá a vocês, e não ao antigo dono.


sarvopaniṣado gāvo 

dogdhā gopāla-nandanaḥ 

pārtho vatsaḥ sudhīr bhoktā 

dugdhaṁ gītāmṛtaṁ mahat 


Gītā-māhātmya (6)


[“Este Gītopaniṣad, a Bhagavad-gītā, a essência de todos os Upaniṣads, é tal qual uma vaca, e o Senhor Kṛṣṇa, que é famoso como vaqueirinho, está ordenhando essa vaca. Arjuna é como um bezerro, e aos estudiosos eruditos e devotos puros se recomenda beber o leite nectáreo da Bhagavad-gītā.”]


Kṛṣṇa está “ordenhando a vaca” dos Vedas, mas quem está bebendo o “leite”? Todos os devotos. Por esse motivo, o mais importante é se render. E Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Prabhupāda explica o termo “vikrīta-paśu”, que significa que vocês devem se render como um animal vendido.


Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura disse em sua canção: 


mārôbi rākhôbi—ĵô icchā tohārā

nitya-dāsa-prati tuwā adhikārā


Canção Mānasa, Deha, Geha (3)


[“Mate-me ou proteja-me como desejar, pois Você tem posse de Seu servo eterno.”]


Bhakti significa justamente isso: render-se por completo. Isso é ātma-samarpaṇa. Vocês devem se render desde o início, pois, quando a pessoa já está idosa, torna-se muito mais difícil fazê-lo. O exemplo dado é o do bambu: quando ainda está novo e verde, pode ser facilmente curvado; mas, quando está velho e seco, se alguém tentar curvá-lo, ele se quebra.


Em bengali, há um ditado: “kā̃cāya nā noyāle bā̃śa pākale kare ṭyā̃śa ṭyā̃śa”, que significa: “o bambu verde dobra, enquanto o bambu velho quebra”. Aqui há muitos bambus, e vocês podem testar. Tentem dobrar um bambu verde e vejam como ele se curva facilmente, ao passo que o bambu velho e seco se quebra com facilidade. Bhakti é assim: deve-se render logo no início. Então, será possível praticar os nove membros da devoção — śravaṇaṁ, kīrtanaṁ, viṣṇoḥ smaraṇaṁ, pāda-sevanam, arcanaṁ, vandanaṁ, dāsyaṁ, sakhyam e ātma-nivedanam.


Façam bhajana e sādhana, cantem os santos nomes e ouçam hari-kathā; assim, vocês poderão desenvolver sua vida espiritual. Contudo, três práticas são especialmente importantes: śravaṇam, kīrtanam e smaraṇam — ouvir, cantar e lembrar.


Śrīla Vallabhācārya, em um de seus comentários das escrituras, explica que smaraṇa significa ler os granthas, os livros sagrados. Ao lê-los, vocês concentram a mente. Após a leitura, sentem-se com os olhos fechados e recordem o que leram; assim, tudo se revelará internamente. Lembrem-se sempre que, no reino de bhakti, três práticas são essenciais: śravaṇam, kīrtanam e smaraṇam.


No que diz respeito a ouvir, devemos fazê-lo como Mahāprabhu: com atenção plena. Kṛṣṇa também nos ensina isso. Quando a mãe Yaśodā fala com Ele, Ele escuta com muita atenção. Śrīla Rūpa Gosvāmīpāda escreveu um grantha chamado Padyāvalī, que consiste em uma compilação de inúmeros versos de diferentes ācāryas predecessores de Śrī Caitanya Mahāprabhu, que glorificam os diversos passatempos de Kṛṣṇa. Lembrem-se do nome deste livro.


[Neste grantha, conta-se o seguinte passatempo:] Certa vez, o bebê Kṛṣṇa disse à mãe Yaśodā: “Mãe, não consigo dormir! O sono não vem. Você poderia me contar alguma história para que eu adormeça?” Ele tinha no máximo três anos e meio de idade e, deitando-Se no colo da mãe Yaśodā, ouviu quando ela Lhe perguntou: “Ó meu filho, que história você deseja ouvir?”


Assim que o bebê Kṛṣṇa respondeu: “Eu quero ouvir a história de Rāma!”, ela começou: “Kṛṣṇa, há muitos e muitos anos, na Tretā-yuga, havia um rei muito poderoso chamado Daśaratha Mahārāja. Ele era o rei de Ayodhyā e tinha muitas rainhas, mas três delas eram proeminentes: Kauśalyā, Sumitrā e Kaikeyī.” Kṛṣṇa, muito atento, interagia: “Sim, sim, mãe, continue!”


“O filho de Kauśalyā é Rāmacandra. O filho de Kaikeyī é Bharata. E Sumitrā tem dois filhos, Lakṣmaṇa e Śatrughna. Esses quatro filhos cresciam a cada dia, assim como a lua passa por diferentes fases até se tornar cheia. Eles estavam aprendendo todos os śāstras com seu guru, Vasiṣṭha Ṛṣi”, continuou ela.


“Após alguns anos, Rāma, Bharata, Lakṣmaṇa e Śatrughna se casaram. Rāmacandra casou-se com Sītā-devī…”, contava a mãe Yaśodā, quando Kṛṣṇa, ao ouvir que Rāmacandra se casara com Sītā-devī, exclamou: “Ó minha mãe, quando eu vou me casar? Eu já estou ficando velho, já tenho três anos e meio! Preciso me casar logo! Quando será a minha vez?”


Ao ouvir isso, a mãe Yaśodā respondeu: “Calma, meu filho. Agora você é um bebê; depois se tornará uma criança, depois um adolescente, e só então pensará em casamento.” Mas Kṛṣṇa insistiu: “Mãe, diga-me uma coisa: se Rāmacandra se casou com Sītā-devī, então quem será a minha esposa?”


A mãe Yaśodā respondeu: “Meu filho, você é apenas um bebê. Você tem só três anos e meio, não é velho. Rāmacandra casou-se quando tinha dezesseis ou dezessete anos.” Finalmente, Kṛṣṇa se acalmou e perguntou: “Tudo bem, mãe… E o que aconteceu depois do casamento?”


Ela continuou: “Eles se casaram e foram morar em Ayodhyā. Contudo, por algum motivo, Rāma, Sītā e Lakṣmaṇa foram exilados e passaram a viver na floresta, permanecendo lá por quatorze anos. Então, Rāvaṇa, o rei dos demônios e soberano de Laṅkā, raptou Sītā.”


Assim que Kṛṣṇa ouviu que “Rāvaṇa raptou Sītā”, imediatamente pulou do colo da mãe Yaśodā e, completamente absorto no humor de Rāmacandra, ficou irado e gritou: “Ei, Lakṣmaṇa, traga Meu arco e Minhas flechas, pois agora Eu matarei Rāvaṇa!” Diante daquela cena, a mãe Yaśodā pensou: “O que está acontecendo com o meu filho?” Naquele momento, Kṛṣṇa pensava: “Eu sou Rāma, e Rāvaṇa acabou de raptar Minha esposa, Sītā.”


Em seu livro Padyāvalī, Śrīla Rūpa Gosvāmī explica como devemos nos absorver ao ouvir os passatempos do Senhor, assim como Kṛṣṇa estava completamente imerso em ouvir as histórias da mãe Yaśodā. Essa é a nossa meta — ouvir o hari-kathā com atenção plena.


Da mesma forma, também devemos cantar os santos nomes e realizar as demais práticas espirituais com profunda atenção. Śrīla Rūpa Gosvāmīpāda proferiu o seguinte verso:


tan-nāma-rūpa-caritādi-sukīrtanānu- 

smṛtyoḥ krameṇa rasanā-manasī niyojya 

tiṣṭhan vraje tad-anurāgi-janānugāmī 

kālaṁ nayed akhilam ity upadeśa-sāram


Śrī Upadeśāmṛta (8)


[“Enquanto vive em Vraja como um seguidor dos residentes eternos de Vraja, que possuem amor espontâneo e inerente por Śrī Kṛṣṇa, deve-se utilizar todo o tempo, ocupando gradualmente a língua e a mente em um canto cuidadoso e na lembrança dos nomes, forma, qualidades e passatempos de Kṛṣṇa. Essa é a essência de todas as instruções.”]


É preciso cantar os santos nomes sempre lembrando dos doces passatempos de Kṛṣṇa em Vraja, vraja-līlā-kathāmṛta. Sempre deem ênfase em cantar mādhurya-nāma, os doces nomes de Kṛṣṇa, que estão sempre ligados a essas doces līlās.


jay jay rādhe kṛṣṇa govinda

rādhe govinda, rādhe govinda (1)


[“Todas as glórias a Rādhā e Kṛṣṇa, que dão prazer às vacas, aos gopas e às gopīs.”]


jay jay śyāmasundara, madana-mohana, vṛndāvana-candra

jay jay rādhā-ramaṇa, rāsa-bihārī, śrī gokulānanda (2)


[“Todas as glórias a Kṛṣṇa, de bela tez escura, que encanta até mesmo Cupido e é a lua de Vṛndāvana. Todas as glórias Àquele que desfruta com Rādhā, que saboreia a rasa-līlā e que é a alegria da terra de Gokula.”]


jay jay rāseśvarī, vinodinī, bhānu-kūla-candra

jay jay lalitā-viśākhā ādi ĵatô sakhī-vṛnda (3)


[“Todas as glórias a Rādhā, que é a mestra da dança da rasa, a personificação do prazer de Kṛṣṇa e a lua da dinastia de Vṛṣabhānu Mahārāja. Todas as glórias a todas as sakhīs, lideradas por Lalitā e Viśākhā.”]


jay jay śrī rūpa-mañjarī, rati-mañjarī, anaṅga

jay jay paurṇamāsī yogamāyā, jaya vīrā-vṛnda (4)


[“Todas as glórias a Śrī Rūpa Mañjarī, Rati Mañjarī e Anaṅga Mañjarī. Todas as glórias a Paurṇamāsī Yogamāyā e todas as glórias ao grupo de Vīrā-devī (e de Vṛndā-devī, as mensageiras do Casal Divino).”]


sabe mili’ karô kṛpā āmi ati manda

(tomrā) kṛpā kôri’ dehô’ ĵugala-caraṇāravinda (5)


[“Que todos vocês derramem sua compaixão sobre mim, pois sou extremamente desprovido. Misericordiosamente, concedam-me o serviço aos pés de lótus do Casal Divino.”]


A essência dessa canção é explicada por Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura: Rādhā e Kṛṣṇa estão em um kuñja (bosque) muito confidencial, e apenas as mañjarīs estão ali dentro, como Rūpa Mañjarī, Rati Mañjarī e Anaṅga Mañjarī, enquanto do lado de fora estão Lalitā e Viśākhā.


Śrīmatī Rādhikā é conhecida como Rāseśvarī, a Suprema Controladora da dança da rasa. Ela também é chamada de Vinodinī, aquela que satisfaz plenamente todos os desejos de Kṛṣṇa. E Bhānukula-candra significa que Ela é a lua da dinastia de Vṛṣabhānu Mahārāja. 


Rūpa Mañjarī e Rati Mañjarī estão servindo Rādhā e Kṛṣṇa. No livro Vilāpa-kusumāñjali, Śrīla Raghunātha dāsa Gosvāmī diz:


śrī-rūpa-mañjari-karārcita-pāda-padma-

goṣṭhendra-nandana-bhujārpita-mastakāyāḥ

hā modataḥ kanaka-gauri padāravinda-

samvāhanāni śanakais tava kiṁ kariṣye


Vilāpa-kusumāñjali (72), de Śrīla Raghunātha dāsa Gosvāmī


[“Ó Devī de tez dourada, Seus pés de lótus são adorados pelas mãos de Śrī Rūpa Mañjarī, enquanto a Senhora repousa a cabeça no braço de Kṛṣṇa. Quando receberei os remanescentes do serviço de Rūpa Mañjarī e, com alegria e suavidade, massagearei Seus pés de lótus?”]


Em Seu kuñja muito belo e confidencial, Śrīmatī Rādhikā está deitada no colo de Kṛṣṇa, enquanto Rūpa Mañjarī massageia Seus pés de lótus com muita gentileza e delicadeza. “Śrī-rūpa-mañjari-karārcita-pāda-padma” — Śrīmatī Rādhikā repousa a cabeça no colo de Kṛṣṇa, pois está muito cansada após dançar e cantar.


Śrī Rūpa Mañjarī compreende o cansaço de Śrīmatī Rādhikā e percebe que Ela sente dores nos pés; por isso, massageia Seus pés de lótus. Assim, Śrīla Raghunātha dāsa Gosvāmī, completamente absorto no humor de sua verdadeira identidade espiritual, Rati Mañjarī, ora: “Ó Rūpa Mañjarī, por favor, conceda-me a oportunidade de servir os pés de lótus de Śrīmatī Rādhikā assim como você.”


Enquanto isso, Lalitā e Viśākhā estão do lado de fora do kuñja. Elas não podem entrar nesses bosques confidenciais e, se desejarem entrar, precisam da permissão de Rūpa Mañjarī. Por isso, Śrīla Raghunātha dāsa Gosvāmī escreveu esse verso:


tāmbūlārpaṇa-pāda-mardana payodānābhisārādibhir 

vṛndāraṇya-maheśvarīṁ priyatayā yās toṣayanti priyāḥ 

prāṇa-preṣṭha-sakhī-kulād api kila asaṅkocitā bhūmikāḥ 

kelī-bhūmiṣu rūpa-mañjarī-mukhās tā dāsikāḥ saṁśraye


Vraja-vilāsa-stava (38), de Śrīla Raghunātha dāsa Gosvāmīpada


[“Eu me abrigo nas servas de Śrīmatī Rādhikā, lideradas por Śrī Rūpa Mañjarī. Elas atuam como Suas queridas acompanhantes e satisfazem Śrīmatī Rādhikā com afeição, por meio de suas qualidades encantadoras, enquanto prestam diversos serviços, como oferecer tāmbūla, massagear Seus pés, trazer-Lhe água e conduzi-La ao Seu encontro com Kṛṣṇa. De fato, ao contrário das prāṇa-preṣṭha-sakhīs, elas podem, sem hesitação, realizar qualquer serviço nos bosques de prazer.”]


Existem diferentes categorias de amigas de Śrīmatī Rādhikā: as sakhīs, as nitya-sakhīs, as prāṇa-sakhīs, as preṣṭha-sakhīs e as prāṇa-preṣṭha-sakhīs. Nesse verso, fica claramente explicado que até mesmo Lalitā e Viśākhā, as prāṇa-preṣṭha-sakhīs — as mais queridas amigas de Śrīmatī Rādhikā, da mais elevada categoria — devem pedir a permissão de Rūpa Mañjarī para entrar nesses kuñjas confidenciais.


O serviço das mañjarīs possui esse humor. Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura está expressando esse belo passatempo, que se manifesta pelos arranjos de Yogamāyā. Como seria possível que esses doces passatempos se revelassem sem a ajuda dela? Esse é o processo. Portanto, todos os dias, cantem os santos nomes e se aprofundem nesses passatempos.


Gaura Premānande! 

Hari Haribol!




Transcrição: Indu-mohinī devī dāsī (AL)

Verificação de integridade: Induprabhā devī dāsī (SP)

Edição e diacríticos: Taruṇī-gopī dāsī (SP)

Revisão: Rādhā-kṛṣṇa dāsa (SC)

Colaboração: Premānanda dāsa (Espanha)


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