Śrī Jayadeva Gosvāmī e o caminho para o amor divino
- Vana Madhuryam Brasil
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Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja
8 de janeiro de 2018, Brasil
Jayadeva Gosvāmīpāda nasceu na Bengala, em uma vila chamada Kendubilva. Ele escreveu o nosso rasa-mādhurya-grantha mais sublime, o Gīta-govinda. Até mesmo o Senhor Jagannātha quis ouvir a doce melodia e o canto do Gīta-govinda. Trata-se de uma poesia de alta classe.
rādhe kṛṣṇa govinda gopāla
nanda dulālā yaśodā dulālā
jaya jaya deva hare
jaya jaya deva hare
Refrão da canção Śrī Maṅgala-gītam, de Śrī Jayadeva Gosvāmī
Foi Jayadeva Gosvāmīpāda quem compôs esse poema belíssimo presente no incomparável Gīta-govinda. Os granthas, ou livros, de Jayadeva Gosvāmī são muito proeminentes na literatura dos Vaiṣṇavas, e todos os rasika-vaiṣṇavas elevados sempre discutiram a seu respeito. À noite, antes de dormir, as devī-dāsīs (jovens garotas) compareciam diante do Senhor Jagannātha e cantavam as doces e agradáveis melodias do Gīta-govinda. Isso deixava o Senhor Jagannātha muito satisfeito. Com os olhos fechados, Ele ouvia aquele som suave e harmonioso.
Qual é a essência do Gīta-govinda? Essa escritura versa sobre como os companheiros eternos de Kṛṣṇa, como Śrīmatī Rādhikā — a potência interna de Kṛṣṇa, svarūpa-śakti — e Suas amigas, glorificam Kṛṣṇa. Se vocês têm algum conhecimento sobre rasa-tattva, as doçuras transcendentais, então poderão entender seu conteúdo. Do contrário, é muito difícil entender esse grantha tão elevado.
Śrī Svarūpa Dāmodara recitava o Gīta-govinda para o Senhor Caitanya Mahāprabhu, o qual se absorvia em ouvir esse kathā. As almas condicionadas não têm nenhum conhecimento a respeito do amor transcendental, aprākṛta-prema. Elas só sabem a respeito do jaḍa-prema, o amor material deste mundo. Tal amor material gera muitos tipos de sofrimentos e infelicidades.
Os infortúnios do mundo material
Um dos nomes para esse mundo material é dunya. A raiz verbal “du” significa duḥkha, infelicidade, sofrimento. Todos nós estamos sofrendo neste mundo material com as misérias causadas pelos três modos de māyā, a potência ilusória do Senhor. Às vezes, um pouco de alegria até pode surgir aqui. No entanto, 99% da vida é marcada por infelicidade. Todos nós almejamos a felicidade, mas onde iremos consegui-la? Vocês desejam a felicidade permanente, não a temporária, pois após sentir a felicidade temporária, mais sofrimentos surgem.
Por exemplo, imaginem que vocês estão caminhando numa noite muito escura e densa, onde não é possível nem mesmo ver onde seus pés estão pisando. Então, subitamente surge um relâmpago no céu, dissipando a escuridão. Entretanto, essa mesma luz que ilumina o ambiente também incomoda os seus olhos. Vocês querem luz, mas quando a claridade do relâmpago dissipa a escuridão, isso incomoda os seus olhos, fazendo com que também seja muito difícil continuar caminhando. Talvez vocês até consigam caminhar na noite escura, mas quando duas nuvens se cruzam e cai um relâmpago do céu, seguir se torna algo muito difícil. Isso exemplifica como as almas condicionadas, ou baddha-jīvas, estão sofrendo com as tríplices misérias de māyā neste mundo material.
Talvez agora vocês não tenham nenhuma posse ou riqueza, mas um dia, se vierem a adquirir alguma riqueza, ficarão ainda mais infelizes quando a perderem. Isso é um fato, não é? Vocês pensarão: “Onde estão aquelas coisas preciosas? Onde irei consegui-las agora?” Nesse mundo material, tudo isso acaba apenas trazendo mais e mais tristeza. Todos nós estamos nos questionando sobre como alcançar a felicidade, mas é muito difícil encontrá-la. Māyā-devī é muito trapaceira. Ela nos dá um pouco de alegria e depois a pega de volta.
Uma moça com dificuldade para ter filhos, por exemplo, pode vir a orar ao Senhor ou aos semideuses: “Dê-me um filho! Apenas um filho!” Dia e noite ela chora e realiza várias austeridades com o propósito de conseguir um filho. Depois de estar casada por dez ou quinze anos, ela finalmente tem um filho, o que a deixa muito feliz. Mas, passados alguns anos, seu filho acaba morrendo, tornando extremamente difícil para ela continuar vivendo. Antes, ela não tinha um filho, e não havia problema em seguir com a vida. Entretanto, após a morte do filho, viver se torna muito doloroso. Até o fim de sua vida, essa mãe chorará dia e noite por causa da perda de seu filho.
Por essa razão, o Śrīmad-Bhāgavatam apresenta evidências de que tudo neste mundo material é prāpte vinaṣṭe — relacionado ao ganho e à perda —, e quando vocês conquistam algo e depois o perdem, isso gera grande insatisfação e tristeza. Isso ocorre devido a um aspecto do mundo material, que faz com que tudo o que se adquire, um dia, seja destruído. Essa é a lei natural do mundo material. Não é possível negar essa filosofia. Desde tempos imemoriais, as coisas sempre foram assim.
Contudo, no mundo transcendental, Goloka Vṛndāvana, não há possibilidade de se perder nada. Trata-se de um local pleno da mais completa felicidade — ānanda-mayī-jagat. Se vocês forem para ānanda-mayī-jagat, verão que ele é absolutamente repleto de felicidade. O alcançando, não restaram dúvidas nos seus corações e vocês não experimentarão nenhum tipo de infelicidade. Por causa disso, todos os nossos ācāryas Vaiṣṇavas e o nosso guru-varga afirmam: “Vocês devem vir para o mundo transcendental, Goloka Vṛndāvana, ānanda-mayī-jagat, ānanda-dhāma, pois assim alcançarão a felicidade eterna.”
Quando se compara este mundo material com o mundo transcendental, percebe-se que o mundo material é repleto de misérias. Às vezes, nós até sentimos um pouquinho de felicidade aqui, mas de repente ela desaparece. Por isso, os nossos śāstras dizem: “Venham para o mundo transcendental, Goloka Vṛndāvana.” Por essa razão é que Jayadeva Gosvāmī glorificou de forma muito bela o amor transcendental de Rādhā e Kṛṣṇa no seu livro inigualável, o Gīta-govinda.
Vocês devem compreender o que é o amor transcendental. No mundo material, não existe amor verdadeiro. Aqui, todos desejamos amor e felicidade, mas eles não são reais, pois māyā apenas cria ilusões. Ilusão é aquilo que não é verdadeiro, mas que vocês acreditam ser. Por causa disso, vocês estão correndo atrás do que é irreal ou ilusório. Vocês até se aproximam do que desejam, mas nunca conseguem alcançar essas coisas. Por exemplo, em relação à própria sombra: quando andam ou ficam de pé, a sombra aparece bem próxima. Mas, se tentarem agarrá-la, não conseguirão, pois, quando correm, a sombra também corre.
Da mesma forma, neste mundo material, vocês desejam encontrar a felicidade e agarrá-la, mas isso não é possível. Aqui, tudo o que fazem é em busca de felicidade, mas o resultado acaba sendo infelicidade. Por essa razão, nossas escrituras explicam que o mundo material é repleto de sofrimentos, angústias e ilusões, duḥkha-mayī-jagat.
Quando vocês estão dirigindo o carro ao meio-dia e está muito quente, por exemplo, parecem se formar ondas de água à frente. Na verdade, não há água alguma na estrada, mas o calor faz com que pareça existir. Mesmo que dirijam a 100 km/h, jamais alcançarão essas ondas, pois são os raios do sol que criam essa ilusão na estrada. Māyā-devī gera este mundo material e todas essas ilusões para nos manter presos. Contudo, se forem para o mundo transcendental, Goloka Vṛndāvana, alcançarão a felicidade plena e absoluta, pois lá não existe nenhuma ilusão.
O que é o verdadeiro amor
No reino transcendental, não existem atividades de māyā. Não há māyā-adhikāra ali. “Harir hi nirguṇaḥ sākṣāt” — é a morada do Senhor, o mundo transcendental, que está além de māyā. Neste mundo material, vocês buscam prīti, o amor, mas não sabem onde ele realmente se encontra. As pessoas dizem: “Eu te amo, eu te amo, eu te amo.” Contudo, são poucas as que compreendem o verdadeiro significado do amor.
A palavra "amor" é extremamente doce e toca profundamente os corações. Quando alguém diz "eu te amo", seus corações se derretem e se enchem de alegria. Mas será que essa pessoa realmente ama vocês? Não. São apenas palavras superficiais. Isso não é amor verdadeiro. Pode ser um amor passageiro ou apenas luxúria. Se vocês desejam encontrar o amor verdadeiro e duradouro, vão para Goloka Vṛndāvana. Assim, suas vidas serão bem-sucedidas. Neste mundo material, o amor é passageiro e só traz mais angústia e infelicidade.
Se vocês têm um cachorro e o amam, em dez ou vinte anos ele eventualmente morrerá, certo? O que farão nessa situação? Vocês ficarão tristes — isso é inevitável. Não é possível evitar a morte do seu cachorro. Um dia ele partirá. Isso causará uma dor no coração e será difícil continuar a vida. Também será complicado esquecer o amor que sentem pelo seu cachorro. No entanto, não há nada que possamos fazer, pois essa é a lei da natureza: quem nasce neste mundo material há de morrer.
Por isso, nossas escrituras afirmam que, no mundo transcendental, não há qualquer termo associado à morte. No mundo material, a palavra para morte é mṛtyu. Este mundo também é conhecido como "o lugar da morte", mṛtyu-jagat ou mara-jagat. Por outro lado, o reino transcendental é denominado ānanda-mayī-jagat, o lugar da felicidade e da bem-aventurança.
Quem deseja ir para esse lugar? Se vocês forem, estarão sempre felizes. Em Goloka Vṛndāvana, não existe sequer uma palavra para infelicidade, duḥkha. Lá, o amor é eterno e transcendental, vocês nunca poderão enganar ou serem enganados. No mundo material, quando vocês amam, acabam traindo ou sendo traídos. Talvez já tenham experimentado amor por um garoto ou garota que, após alguns meses ou anos, não os ama mais. Essa é a natureza deste mundo material. Por isso, devemos amar a Deus. A Bíblia também afirma isso. Eu sempre menciono: amor é Deus e Deus é amor. Deus é a personificação do amor divino.
O corpo de Deus é transcendental, e vocês podem abraçá-lo e beijá-lo. O corpo d’Ele é extremamente doce. Compreendam que, neste mundo material, vocês amam, abraçam e beijam este corpo que é como um "saco plástico". O corpo material é decorado com belos olhos, orelhas, um nariz e uma boca bonita... O corpo inteiro parece lindo, mas dentro dele, dentro desse "saco plástico", há coisas desagradáveis como fezes, urina e muco. Quão tolos vocês são, pois ficam lambendo esse "saco plástico"! Essa é a ilusão de māyā. Vocês acreditam que isso é amor verdadeiro, mas esse amor não é real. É apenas uma ilusão de māyā, uma completa tolice. No entanto, se vocês forem para o mundo transcendental, Goloka Vṛndāvana, seus corpos serão transcendentais, muito bonitos e atraentes, sat-cit-ānanda-vigrahaḥ.
īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ
anādir ādir govindaḥ sarva-kāraṇa-kāraṇam
Brahma-saṁhitā (5.1)
[“Kṛṣṇa, que é conhecido como Govinda, a Suprema Divindade, tem um corpo espiritual eterno e cheio de bem-aventurança. Ele é a fonte de tudo, não tem origem e é a causa primordial de todas as causas.”]
A verdadeira identidade da alma
Em Goloka Vṛndāvana, não há "sacos plásticos". Lá, os corpos são transcendentais, aprākṛta, e ānanda-vigraha, plenos de bem-aventurança. É por isso que os nossos ācāryas nos dizem: “Venham para Goloka Vṛndāvana, assim os seus corpos transcendentais se manifestarão.” E parte do processo dessa manifestação é ouvir hari-kathā. Vocês já têm tudo dentro de si, mas ainda não conhecem a bela forma transcendental que possuem. Vocês possuem tudo, mas não percebem que essa coisa extremamente valiosa e preciosa está nos seus corações. Por essa razão, o sādhu puro, o guru, está transmitindo a seguinte mensagem: vocês não são este corpo material, vocês não são um "saco plástico", vocês são servos eternos de Kṛṣṇa, kṛṣṇa-dāsa — "jīvera svarūpa haya kṛṣṇera nitya-dāsa". Vocês possuem um corpo muito belo e transcendental, além de realizarem atividades transcendentais — vocês têm tudo!
nitya-siddha kṛṣṇa-prema ‘sādhya’ kabhu naya
śravaṇādi-śuddha-citte karaye udaya
Śrī Caitanya-caritāmṛta (Madhya-līlā 22.107)
[“O amor puro por Kṛṣṇa é eternamente estabelecido nos corações dos seres vivos. Não é algo que se pode obter de outra fonte. Quando o coração é purificado por ouvir e cantar, esse amor naturalmente desperta.”]
O amor por Kṛṣṇa, kṛṣṇa-prema, é eterno e transcendental. Basta ouvirem hari-kathā e, gradualmente, esse prema se manifestará. Por isso, estou sempre dizendo, assim como nossos ācāryas: “Dêem ênfase a ouvir hari-kathā.”
śṛṇvatāṁ sva-kathāḥ kṛṣṇaḥ
puṇya-śravaṇa-kīrtanaḥ
hṛdy antaḥ stho hy abhadrāṇi
vidhunoti suhṛt satām
Śrīmad-Bhāgavatam (1.2.17-18)
[“Śrī Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus, que é Paramātmā (Superalma) no coração de todos e o benfeitor do devoto sincero, limpa o desejo por desfrute material do coração do devoto que desenvolveu o desejo intenso de ouvir Suas mensagens, que são por si próprias virtuosas quando ouvidas e cantadas apropriadamente. Por participar regularmente das aulas sobre o Bhāgavatam e por oferecer serviço ao devoto puro, tudo que causa perturbações no coração é quase completamente destruído, e o serviço amoroso à Personalidade de Deus, que é louvado com cânticos transcendentais, é estabelecido como um fato irrevogável.”]
Se vocês ouvirem kṛṣṇa-kathā, os passatempos de Kṛṣṇa, todos os anarthas — as coisas indesejáveis — serão removidos dos seus corações. Assim, aos poucos, vocês compreenderão a bela forma constitucional transcendental presente em seus corações. Por essa razão, o sādhu, o guru e os Vaiṣṇavas estão percorrendo o mundo, visitando residências e levando essa mensagem às pessoas.
mahad-vicalanaṁ nṝṇāṁ
gṛhiṇāṁ dīna-cetasām
niḥśreyasāya bhagavan
kalpate nānyathā kvacit
Śrīmad-Bhāgavatam (10.8.4)
[“Ó meu senhor, ó grande devoto, pessoas como você vão de um lugar a outro não movidos por interesses próprios, mas visando o bem dos gṛhasthas (chefes de família) de coração humilde. Não há outra coisa que os motive a vagar de um lugar a outro.”]
O sādhu viaja para lhes transmitir esta mensagem: vocês são servos eternos de Kṛṣṇa, kṛṣṇera nitya-dāsa; não são servos de māyā. Ouvir essa mensagem significa praticar, pois primeiro vocês escutam e depois colocam em prática. Neste momento, vocês não estão ouvindo, mas eu os lembro repetidamente, não importa o quanto esqueçam. Essa é a natureza de māyā: fazer com que vocês se esqueçam. Porém, durante vinte e quatro horas por dia, vocês devem se lembrar de Kṛṣṇa e ouvir Seus doces passatempos.
Māyā-devī é extremamente poderosa e não deseja que vocês ouçam kṛṣṇa-kathā. Ela fará com que vocês virem a face para a outra direção. Apenas ocasionalmente vocês pensam: “Vou ouvir kṛṣṇa-kathā, vou me sentar diante do sādhu.” Este mundo é conhecido como a prisão de māyā, māyā-kārāgāra. Māyā-devī nos causa grande sofrimento e nos impõe muitas punições. Por isso, na Bhagavad-gītā, Kṛṣṇa diz a Arjuna:
daivī hy eṣā guṇa-mayī
mama māyā duratyayā
mām eva ye prapadyante
māyām etāṁ taranti te
Bhagavad-gītā (7.14)
[“Esta Minha energia divina que consiste nos três modos da natureza material é muito difícil de superar. Mas aqueles que se renderam a Mim podem atravessá-la facilmente.”]
Os cinco obstáculos de māyā
Às vezes, vocês desejam ouvir kṛṣṇa-kathā, mas os cinco obstáculos de māyā surgem para tentar impedi-los. O primeiro obstáculo é laya, a sonolência. Todos vocês vieram para ouvir kathā, mas “yoga-nidrā”, o “sono”, aparece, e vocês se tornam “dormindo-dāsa”, os “servos do sono”. A palavra dāsa significa “servo”. No entanto, vocês devem ser kṛṣṇa-dāsa ou kṛṣṇa-dāsī, servos e servas de Kṛṣṇa. Quando alguém se torna um servo do Senhor, Māyā-devī nem sequer pode tocá-lo. Sempre pensem: “Eu sou um servo eterno de Kṛṣṇa, kṛṣṇa-dāsa”, pois assim vocês afastarão Māyā-devī de seus caminhos.
Retomando aos cinco obstáculos de māyā, quando vocês ouvem hari-kathā, laya se faz presente e torna muito difícil permanecer sentado diante do sādhu. Vocês podem acabar se encostando em uma parede e adormecendo, não ouvindo assim nenhum hari-kathā.
O segundo obstáculo é vikṣepa, a distração, que deixa suas mentes muito inquietas, mesmo sem uma razão aparente. O terceiro obstáculo é apratipatti, a incapacidade de focar a mente no hari-kathā. Nessas ocasiões, é muito difícil entender o que o orador está dizendo. Se não estiverem ouvindo atentamente, vocês esquecerão ou não compreenderão o que está sendo dito.
O quarto obstáculo é kaṣāya, as más impressões passadas, como luxúria e raiva, que surgem e perturbam a mente. Sem motivo, suas mentes ficam irritadas e a luxúria e a estupidez aparecem. Por fim, o quinto e ultimo obstáculo é rasāsvāda, quando, durante o hari-kathā, suas mentes começam a contemplar o prazer e a gratificação dos sentidos materiais.
Māyā-devī é poderosa, não é tão fácil ouvir hari-kathā atentamente ou adentrar śuddha-bhakti. Assim, repetidas vezes, nós oramos a Kṛṣṇa, para que Ele nos abrigue aos Seus pés de lótus, fazendo Māyā-devī finalmente desaparecer.
Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa
Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare
Hare Rāma Hare Rāma
Rāma Rāma Hare Hare
Todas as escrituras mencionam que, através dos processos de karma, jñāna, tapasya e yoga, não é possível controlar a mente nem se libertar deste oceano da existência material. Para alcançar esse objetivo, é necessário "sat-saṅgena". Kṛṣṇa disse esse kathā a Uddhava: “Sem a companhia do Meu devoto, você não consegue Me alcançar.”
satāṁ prasaṅgān mama vīrya-saṁvido
bhavanti hṛt-karṇa-rasāyanāḥ kathāḥ
taj-joṣaṇād āśv apavarga-vartmani
śraddhā ratir bhaktir anukramiṣyati
Śrīmad-Bhāgavatam (3.25.25)
[“Na companhia dos devotos puros, as discussões sobre os passatempos e as atividades da Suprema Personalidade de Deus se mostram muito agradáveis e satisfazem os ouvidos e o coração. Por cultivar tal conhecimento, é possível gradualmente avançar no caminho da libertação. E uma vez liberto, a atração se torna fixa. Assim é que a devoção genuína e o anseio pelo serviço devocional surgem no coração do devoto.”]
A importância de sādhu-saṅga
Estejam sempre na companhia de pessoas santas (sādhu-saṅga) e ouçam os doces passatempos de Kṛṣṇa (hari-kathā). Entendam que essas práticas são extremamente poderosas e capazes de transformar suas vidas. Se em uma vida vocês cultivarem a companhia do sādhu e ouvirem seu hari-kathā, suas vidas serão bem-sucedidas. Enquanto asat-saṅga, a má companhia, os derruba, sat-saṅga, estar com pessoas santas, os eleva a Goloka Vṛndāvana. Por isso, estamos sempre dizendo:
bhavāpavargo bhramato yadā bhavej
janasya tarhy acyuta sat-samāgamaḥ
sat-saṅgamo yarhi tadaiva sad-gatau
parāvareśe tvayi jāyate matiḥ
Śrīmad-Bhāgavatam (10.51.53)
[“Quando a vida material da alma errante chega ao fim, ó Acyuta, ela pode obter a companhia de Seus devotos. E, ao alcançar essa companhia, desperta nela a devoção por Você, que é a meta dos devotos e o Senhor de todas as causas e de seus efeitos.”]
Vagando pelo ciclo de repetidos nascimentos e mortes, os seres vivos extremamente afortunados obtêm sādhu-saṅga, a companhia de um sādhu. Se vocês se relacionarem com um sādhu, ele os levará a Goloka Vṛndāvana. Já māyā-saṅga, a companhia de māyā, é o que os derruba. Asat-saṅga, a má companhia, os conduz a māyā, enquanto sat-saṅga os eleva por meio do hari-kathā, que é muito poderoso. Cabe a vocês decidir para onde irão. Portanto, apenas cantem os santos nomes e permaneçam na companhia do sādhu. Isso é muito importante. Nesta vida, vocês devem ter isso como meta.
A história de vida de Jayadeva Gosvāmī
Agora gostaria de compartilhar mais algumas palavras com vocês sobre Jayadeva Gosvāmīpāda. Ele nasceu em Kendubilva, no distrito de Birbhum, na Bengala. Seus pais faleceram quando ele ainda era pequeno. Então ele foi para Navadvīpa-dhāma e ficou hospedado em Campahati. Com o tempo, ele veio a compor seu grantha inigualável, o Gīta-govinda, que descreve o tema mais elevado: o amor divino entre Rādhā e Kṛṣṇa.
Como eu mencionei antes, até mesmo Jagannātha-deva ouviu esse grantha. Jayadeva Gosvāmī partiu da Bengala e foi até Jagannātha Purī. Enquanto estava lá, ele ofereceu seu grantha a Jagannātha, que o guardou em Seu coração. Até mesmo o rei de Navadvīpa-dhāma, Lakṣmaṇa Sena, às vezes ouvia as doces e belas melodias do Gīta-govinda e ficava muito impressionado.
Vocês já ouviram a história sobre o Senhor Jagannātha? Os corpos de Jagannātha, Baladeva e Subhadrā, bem como seus corações, derreteram completamente ao ouvir as glórias das gopīs. O prema que elas sentem é transcendental. Por isso, quando Kṛṣṇa ouviu sobre esse amor, Seu corpo derreteu completamente, e assim Sua forma de Jagannātha se manifestou.
Quem não deseja ouvir sobre prema, o amor puro, e não sente o coração derreter ao ouvir tais tópicos? Até mesmo as pessoas mundanas desejam ouvir sobre esse assunto. Tais pessoas leem várias histórias sobre o amor mundano — como as de Romeu e Julieta ou de Layla e Majnun — e seus corações também se deleitam.
Vocês não conseguem imaginar os diferentes tipos de amor transcendental que existem no mundo espiritual, e especialmente o amor divino que existe entre Rādhā, Kṛṣṇa e as gopīs. Kṛṣṇa e Balarāma ouviram Rohiṇī-devī, a mãe de Baladeva, glorificar o amor transcendental das gopīs, e Seus corpos se derreteram completamente. Quando o coração de vocês se tornar limpo e puro, surgirá śuddha-sattva, o verdadeiro entendimento sobre o amor transcendental, e isso certamente derreterá seus corações.
Quando Kṛṣṇa deixou a dança da rasa, as gopīs sentiram as dores da saudade d’Ele. Elas O glorificaram com uma doce melodia chamada Gopī-gīta.
gopya ūcuḥ
jayati te ’dhikaṁ janmanā vrajaḥ
śrayata indirā śaśvad atra hi
dayita dṛśyatāṁ dikṣu tāvakās
tvayi dhṛtāsavas tvāṁ vicinvate
śarad-udāśaye sādhu-jāta-sat-
sarasijodara-śrī-muṣā dṛśā
surata-nātha te ’śulka-dāsikā
vara-da nighnato neha kiṁ vadhaḥ
Śrīmad-Bhāgavatam (10.31.1-2)
[“As gopīs disseram: ‘Ó amado, devido ao Seu nascimento na terra de Vraja, esse Vraja-dhama tornou-se mais glorioso do que Vaikuṇṭha. É por isso que a divindade que preside toda a opulência, Indirā (a Deusa Mahālakṣmī), reside eternamente aqui, decorando este lugar com sua presença. Neste bem-aventurado Vraja-dhama, somente nós, gopīs, cujas vidas são uma só com Vraja, não somos felizes. É difícil para nós continuarmos vivas estando distantes de Você. Estamos desesperadamente procurando por Você, então, por favor, apareça diante de nós e conceda Sua misericórdia. Ó Surata-nātha, o mestre do prazer amoroso. Ó outorgador de bençãos, nós somos Suas servas sem receber nenhum pagamento em troca. Nossos corações foram despedaçados pelo Seu olhar de soslaio, o qual rouba a beleza das flores de lótus que desabrocham nos lagos transparentes de outono. Isso não é assassinato, o mesmo que atacar com armas?’”]
No seu Gīta-govinda, Jayadeva Gosvāmīpāda descreve esse humor de saudade mais elevado. Como é possível Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, Svayam Bhagavān, ser completamente entregue aos pés de lótus de Śrīmatī Rādhikā?
O amor tem dois aspectos: quando é mais condensado, se chama sneha, afeição. E quando a afeição se torna ainda mais condensada, de sneha, ele se torna māna (humor de ira) ou praṇaya (amor íntimo). Aqui, māna não se refere à raiva material, mas a um humor de contrariedade. Externamente, a oposição é evidente, mas internamente o coração é cheio de afeição, semelhante ao coco, cuja casca externa é bastante dura, enquanto o interior é macio e doce. Dentro do coco verde, há um malāī (creme de leite coagulado) muito suave.
Quando māna, o humor de contrariedade, é evocado, externamente ele parece muito severo, pois envolve o uso de palavras ásperas e diferentes atividades externas que soam ríspidas. No entanto, internamente há muito amor, afeição e doçura. À medida que esse māna se intensifica, praṇaya se manifesta, unindo o coração da amada e do amante. E, quando praṇaya aumenta, ele se transforma em rāga, um apego profundo.
O leite, quando condensado, é muito doce, assim como o amor. No entanto, no mundo material, essas coisas são bastante difíceis de compreender. Se vocês ouvirem hari-kathā continuamente e com atenção, cantarem os santos nomes e permanecerem na companhia dos sādhus, eventualmente, a compreensão espiritual virá à tona.
O Gīta-govinda é o grantha mais sublime que Jayadeva Gosvāmīpāda manifestou neste mundo. Enquanto o compunha, ele se deparou com um śloka cuja última linha não conseguiu escrever. Essa linha deveria conter as palavras de Kṛṣṇa: “Ó Śrīmatī Rādhārāṇī, por favor, coloque Seus pés de lótus sobre a Minha cabeça.”
Jayadeva estava consciente da grandeza de Kṛṣṇa, de Sua supremacia e de que todas as manifestações emanam d’Ele.
govindam ādi-puruṣaṁ tam ahaṁ bhajāmi
Śrī Brahma-saṁhitā
[“Eu adoro Govinda, o Senhor primordial.”]
O Brahma-saṁhitā afirma que todas as manifestações do Senhor, como Rāma, Nṛsiṁhadeva, Varāhadeva e outros, emanam de Kṛṣṇa. Ele é sarva-avatārī. O Śrīmad-Bhāgavatam também fornece evidência disso por meio do verso: “kṛṣṇas tu bhagavān svayam — Kṛṣṇa é o Bhagavān Supremo.” Por isso, Śrī Jayadeva pensou: “Como pode Kṛṣṇa implorar a Śrīmatī Rādhikā que coloque Seus pés de lótus sobre Sua cabeça? Afinal, Ele é o próprio Bhagavān!”
Certa vez, quando Śrīmatī Rādhārāṇī demonstrou māna, Kṛṣṇa tentou acalmá-La, mas não conseguiu. Ele estava pronto para dar tudo a Ela — como Sua flauta, Sua pena de pavão e Seu pītāmbara — e se curvou diante d’Ela repetidas vezes. Contudo, Rādhā não abandonou Sua raiva.
Após indagar sobre como Śrīmatī Rādhārāṇī poderia colocar Seus pés de lótus sobre a cabeça de Kṛṣṇa, Jayadeva Gosvāmī fechou seu grantha e foi se banhar no Ganges. Nesse meio tempo, Kṛṣṇa, assumindo a forma dele, foi até sua esposa, Padmāvatī-devī, e pediu que ela Lhe entregasse o livro. Então, tomando-o em mãos, Ele escreveu as palavras que faltavam.
Após alguns minutos, o verdadeiro Śrī Jayadeva retornou para casa, e Padmāvatī-devī perguntou: “Por que você voltou tão cedo? Você escreveu algo no livro, saiu e voltou novamente.” Confuso, ele exclamou: “Eu não vim até aqui.” “Então quem escreveu no livro?”, sua esposa questionou.
Jayadeva pediu que ela trouxesse o livro e, ao abri-lo, deparou-se com a linha que faltava no verso, escrita em palavras douradas. Diante disso, Jayadeva Gosvāmīpāda não conseguiu controlar seus sentimentos. Ele percebeu que o próprio Kṛṣṇa estivera ali, e isso o fez cair inconsciente. Há muitas histórias sobre a vida de Jayadeva Gosvāmīpāda. Esta é uma delas.
O Gīta-govinda é um grantha de altíssimo nível. Na comunidade Vaiṣṇava, ele é o que há de mais íntimo. Todos os paṇḍitas (eruditos) provaram que esse livro é a escritura espiritual mais sublime. Vocês conseguem imaginar em que nível Śrī Jayadeva Gosvāmī estava e o quão elevado ele era?
O Senhor Jagannātha, em Jagannātha Purī, não conseguia dormir sem ouvir uma canção do Gīta-govinda. Quando estava prestes a descansar, jovens garotas, as devī-dāsīs, apareciam diante d’Ele e entoavam todo o maravilhoso Gīta-govinda. Somente assim Jagannātha-deva fechava Seus olhos e descansava tranquilamente.
Jaya Śrīla Jayadeva Gosvāmīpāda kī jaya!
Jaya jaya Śrī Rādhe!
Tradução: Indu-mohinī devī dāsī (AL)
Verificação de integridade: Induprabhā devī dāsī (SP)
Diacríticos: Gaura-gopāla dāsa (SP)
Edição: Gaura Hari dāsa (SP)
Revisão: Taruṇī-gopī dāsī (SP)


