As glórias de Śrīnivāsa Ācārya
- Vana Madhuryam Brasil
- há 2 dias
- 8 min de leitura

Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja
26 de maio de 2021, Mathura, Índia
Hoje é um dia muito auspicioso, pois marca o advento de três grandes personalidades: Śrīla Śrīnivāsa Ācārya e Śrī Mādhavendra Purīpāda, e a partida transcendental de Śrī Parameśvarī Prabhu. Este dia também é conhecido como Vaiśākhī-pūrṇimā e Buddha-pūrṇimā. Nele, celebramos também o advento de Śrī Rādhā-ramaṇa. Agora, gostaria de glorificar a história de vida e as contribuições de Śrīnivāsa Ācārya.
O pai de Śrīnivāsa Ācārya era Gaṅgādhara Bhaṭṭācārya, que posteriormente ficou conhecido como Caitanya Dāsa, e sua mãe chamava-se Lakṣmī-priyā. Ele viveu em uma vila chamada Sakhīṇḍī, às margens do Bhāgīrathī Gaṅgā.
No período em que Gaurasundara estava realizando Sua madhya-līlā, especialmente o passatempo de aceitar sannyāsa (a ordem da renúncia) em Navadvīpa-līlā, Ele foi até Kaṇṭakanagara ao encontro de Keśava Bhāratī. Naquele momento, Gaṅgādhara Bhaṭṭācārya também estava presente para testemunhar esse passatempo do Senhor.
Com os olhos marejados, todos assistiram à cerimônia de raspagem dos belos cabelos de Mahāprabhu. É descrito que, quando começaram a raspar a cabeça do Senhor, todos começaram a chorar. O barbeiro chegou a desmaiar uma ou duas vezes.
Mais tarde, quando Caitanya Dāsa chegou a Nīlācala, o onisciente Senhor Gaurasundara abençoou-o, dizendo: “Você terá um filho chamado Śrīnivāsa.”
vaiśākhī pūrṇimā divā rohiṇī-muhūrta
śubhakṣaṇe lakṣmī-priyā prasavila putra
Bhakti-ratnākara (Dvitīya Taraṅga, 156)
No Bhakti-ratnākara, é descrito que Caitanya Dāsa, pela misericórdia de Mahāprabhu, obteve Śrīnivāsa Ācārya, e que essa grande personalidade, ainda no ventre de Lakṣmī-priyā, foi grandemente celebrada e glorificada.
A mãe de Śrīnivāsa Ācārya não deve ser confundida com a primeira esposa de Śrī Caitanya Mahāprabhu, que também se chamava Lakṣmī-priyā. A segunda esposa foi Viṣṇu-priyā.
O Bhakti-ratnākara também descreve que Lakṣmī-priyā deu à luz ao seu filho no dia de Pūrṇimā (lua cheia). A cerimônia e o arranjo do casamento de um casal determinam as qualidades da criança. Por essa razão, o pai de Lakṣmī-priyā, Balarāma Vipra, consultou um astrólogo e preparou um mapa astrológico com cálculos. Neste mapa, foi previsto que no mês de Vaiśākha, no dia de Pūrṇimā, no Rohiṇī nakṣatra (constelação de Rohiṇī), e no período da manhã, uma grande personalidade ia nascer. Algumas pessoas nascem boas e outras nem tanto; tal qualidade depende dos cálculos astrológicos do nascimento.
Existem 27 constelações. A constelação Rohiṇī é considerada muito boa, assim como nascer no Pūrṇimā também é excelente. O Senhor Caitanya Mahāprabhu apareceu durante o Pūrṇimā, sob a constelação de Rohiṇī. Sua compleição dourada era muita bela, e Ele tinha um nariz muito bem formado e olhos alongados — pouquíssimas pessoas têm essa característica. Além disso, Seus braços chegavam abaixo dos joelhos, assim como Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī Ṭhākura Prabhupāda. Quando o Senhor cresceu, ficou conhecido como Gaura. Existem trinta e três características das quais pode-se perceber quão grande será uma personalidade. Todas as trinta e três características são encontradas em Caitanya Mahāprabhu.
A cerimônia de corte de cabelo e o recebimento do cordão bramânico se faz presente em quase todos os varṇas (classes sociais), exceto para os śūdras, embora em alguns śāstras (escrituras sagradas), esteja dito que tais cerimônias são permitidas para eles. Os brāhmaṇas (sacerdotes) devem realizar a cerimônia de recebimento do cordão sagrado a partir dos cinco anos de idade. [Por meio dessas cerimônias,] as impressões bramânicas (saṁskāras) foram concedidas a Gaurasundara, e Ele iniciou os estudos dos śāstras. Em pouco tempo, Ele se tornou perito em todas as escrituras.
Certo dia, o pai de Śrīnivāsa Ācārya abandonou o corpo. Após a partida dele, Śrīnivāsa realizou nāma-saṅkīrtana e orou enquanto peregrinava para receber o darśana, a visão auspiciosa, de todos os locais sagrados.
śuni īśvarīra icchā haïla dekhite
śrīnivāsa gelena śrī-īśvarī sākṣāte
prema-dhārā netrete bahaẏe nirantara
dharaṇī-loṭāñā kaila praṇati vistara
Bhakti-ratnākara (Caturtha Taraṅga, 40-41)
Śrīnivāsa Ācārya orou para ter a oportunidade de tocar os pés de lótus de Viṣṇu-priyā, a esposa do Senhor Caitanya Mahāprabhu. Quando ele satisfez esse desejo, ela o abençoou. Ele também recebeu o darśana de muitos devotos enquanto estava em Navadvīpa, como Murāri Gupta, Abhirāma Ṭhākura e outros Vaiṣṇavas, e ofereceu daṇḍavat-praṇāmas, reverências prostradas, à eles.
Antes de viajar para Vṛndāvana, Śrīnivāsa Ācārya costumava permanecer na casa de Abhirāma Ṭhākura, que possuía um chicote especial chamado Jaya Maṇgala. Bastava ser tocado ou chicoteado por Jaya Maṇgala para que a pessoa obtivesse prema, o amor puro por Deus. Quando Śrīnivāsa visitou Abhirāma Ṭhākura, este o chicoteou três vezes. Imediatamente, Śrīnivāsa ficou tomado por prema.
premāveśe punaḥ se cābuka sparśāite
śrī-mālinī-devī āsi dharilena hāte
Bhakti-ratnākara (Caturtha Taraṅga, 141)
Naquele momento, Mālinī-devī disse: “Não o toque mais com o chicote!” Desta maneira, Śrīnivāsa Ācārya obteve as bençãos de Abhirāma dāsa.
Após esse episódio, Śrīnivāsa Ācārya chegou em Vṛndāvana. Ele se abrigou em Śrīla Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmī, que lhe concedeu os dīkṣā-mantras. Śrīnivāsa Ācārya então passou a viver no Rādhā-kuṇḍa. Contudo, Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmī o instruiu: “Vá até Jīva Gosvāmīpāda e aprenda o Śrīmad-Bhāgavatam com ele, bem como todas as outras literaturas dos nossos Gosvamīs.”
Em gaura-līlā, Śrīla Narottama dāsa Ṭhākura, Śrīla Śyāmānanda Prabhu e Śrīla Śrīnivāsa Ācārya tinham gurus diferentes. Narottama aceitou dīkṣā de Śrī Lokanātha dāsa Gosvāmī, Śyāmānanda Prabhu recebeu de Śrī Hṛdaya Caitanya, e Śrīnivāsa Ācārya de Śrī Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmī. Contudo, os três aceitaram abrigo [śikṣā] aos pés de lótus de Śrīla Jīva Gosvāmī.
É dito nas escrituras sagradas que o dīkṣā-guru é a rūpa (forma) do Senhor, e o śikṣā-guru é a svarūpa (identidade) do Senhor. Não há diferença entre a svarūpa e a rūpa de Bhagavān — a forma do Senhor e sua identidade são iguais. Além disso, o corpo de Deus é transcendental, sac-cit-ānanda.
īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ
sac-cid-ānanda-vigrahaḥ
anādir ādir govindaḥ
sarva-kāraṇa-kāraṇam
Brahma-saṁhitā (5.1)
[“Kṛṣṇa, que é conhecido como Govinda, é a Suprema Personalidade de Deus. Ele possui um corpo espiritual eterno e pleno de bem aventurança. Ele não tem outra origem e é a causa primordial de todas as causas.”]
O próprio Senhor disse: “Meus passatempos, aparecimentos e desaparecimentos são transcendentais.” Visto de fora, pode parecer que o Senhor pareça um pessoa comum, mas o Seu corpo é completamente transcendental, e não há diferença entre o possuidor do corpo e o corpo.
No Bhakti-rasāmṛta-sindhu-bindu, Śrīla Gurudeva fez um comentário explicando isso de maneira belíssima. Não há diferença entre o dīkṣā-guru e o śikṣā-guru. Existem algumas especialidades que também são mencionadas no livro. Assim, dessa maneira, Śyāmānanda, Narottama e Śrīnivāsa, receberam śikṣā e dīkṣā de mahā-bhāgavatas (devotos exaltados).
Após estudarem sob a guia de Śrī Jīva Gosvāmīpāda, ele os instruiu: ‘’Vão e preguem!’’ Assim que se aprende um pouco do śāstra, deve-se pregar. Devemos dar esse conhecimento aos outros em caridade. Aquele que possui conhecimento é respeitado em todos os países, enquanto um rei, apesar de possuir grandiosas opulências, como um exército, é respeitado somente em seu próprio reino. Um sādhu (santo) é respeitado e honrado em todas as nações — não há comparação entre um rei e uma pessoa santa. De acordo com o Nīti-śāstra, uma pessoa sábia pode viajar para qualquer lugar, e suas glórias serão reverenciadas.
Portanto, após ler e estudar a literatura dos seis Gosvāmīs, como as de Śrīla Rūpa Gosvāmī, Śrīla Sanātana Gosvāmī e Śrīla Raghunātha Dāsa Gosvāmī, Jīva Gosvāmīpāda instruiu os seus três discípulos śikṣā: “Vão e preguem com base nesses livros!” Eles viajaram, então, com tais livros preciosos. Naquele tempo não havia ônibus nem outros meios de transporte; existiam apenas carroças de boi. Assim, eles colocaram todos os livros na traseira de uma carroça de boi, empacotaram-nos cuidadosamente e escreveram do lado de fora: “Aqui dentro há um tesouro muito precioso.” Ontem, Mahārāja mencionou que, na verdade, eles escreveram “Tesouro Supremo” na carroça.
Logo, eles chegaram a uma cidade onde havia um rei chamado Vīra Hamvīra, que também era um grande bandido. Após ler o que estava escrito na carroça, o rei pensou: “Uma grande riqueza está passando pela minha terra!’’ Assim, ele decidiu roubar o tesouro deles.
A gangue de Vīra Hamvīra os seguiu e, quando Narottama, Śyāmānanda e Śrīnivāsa foram descansar, os ladrões roubaram todo o tesouro e partiram. Na manhã seguinte, ao acordarem, perceberam que tudo havia desaparecido. Eles procuraram por toda parte, mas não conseguiram encontrar seu tesouro.
Ficou decidido entre eles que Śyāmānanda Prabhu continuaria sua missão de pregação em Orissa, enquanto Narottama dāsa Ṭhākura prosseguiria até Maṇipura. Por essa razão, ainda hoje há muitos devotos e seguidores de Narottama dāsa Ṭhākura em Maṇipura, pois ele pregou extensivamente naquela região.
Por sua vez, Śrīnivāsa Ācārya fez um voto de que não deixaria aquele vilarejo enquanto não encontrasse aqueles livros. Dessa forma, ele começou a recitar o Śrīmad-Bhāgavatam com uma voz muito doce e melodiosa, especialmente ao ler o Gopī-gīta e o Bhramara-gīta. Ele falava de maneira tão doce que atraía todos que o ouviam.
Certo dia, Vīra Hamvīra participou de um hari-kathā (palestra) de Śrīnivāsa Ācārya e, após ouvi-lo falar, ele — que antes era um grande ladrão — rendeu-se aos pés de lótus de Śrīnivāsa Ācārya. Vīra Hamvīra lhe disse: “Na carroça estava escrito que havia um grande tesouro, mas, quando a abrimos, vimos que havia apenas páginas e mais páginas de livros.’’ Então, ele devolveu os livros e tomou abrigo aos pés de Śrīnivāsa Ācārya, tornando-se seu discípulo.
Há diversos passatempos transcendentais descritos em nossos śāstras e granthas. Um exemplo foi quando Śrīnivāsa Ācārya realizou nāma-saṅkīrtana por sete dias consecutivos e permaneceu completamente imerso em samādhi (meditação profunda), absorto em um passatempo no reino espiritual. As pessoas ao redor não conseguiram perceber que ele estava em samādhi. No entanto, seu amado discípulo, Rāmacandra Kavirāja, pôde compreender o que estava acontecendo.
Naquela ocasião, Narottama dāsa Ṭhākura, que também havia compreendido a situação, lhe disse: “Seu mestre espiritual não pode ser incomodado agora.” Rāmacandra Kavirāja então respondeu: “Tudo bem. Meu Gurudeva está em samādhi, portanto, ninguém deve tocar no meu corpo ou no dele.’’
Com suas habilidades místicas, Rāmacandra Kavirāja cantou [um mantra], deixou seu corpo grosseiro e entrou em Vraja-dhāma. Lá, em sua forma eterna de gopī, ele viu que, do outro lado do Yamunā, todas as associadas eternas de Śrīmatī Rādhikā estavam procurando pelo Seu piercing de nariz.
Em Vraja, um dos sinais de uma mulher casta é o piercing de nariz. Assim, como Śrīmatī Rādhikā poderia ir a qualquer lugar sem esse ornamento? Por isso, todas as presentes — Lalitā, Viśākhā e as demais gopīs — estavam à sua procura.
Então, Rāmacandra Kavirāja mergulhou no Yamunā e, no meio de uma graciosa flor de lótus, encontrou o belo piercing de nariz de Śrīmatī Rādhikā. Ele então o entregou ao seu Gurudeva, que o passou para Guṇa Mañjarī, isto é, Śrī Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmī. Guṇa Mañjarī deu o piercing a Rūpa Gosvāmī, em sua forma eterna de Rūpa Mañjarī. Rūpa Mañjarī o entregou a Lalitā, que então o colocou no nariz de Śrīmatī Rādhikā. Esse passatempo é descrito pelos Vaiṣṇavas.
Apesar de ser sênior a Rāmacandra e ocupar a posição de guru, Narottama dāsa Ṭhākura, com grande humildade e profunda afeição, cantou expressando seu desejo de obter a associação de Rāmacandra Kavirāja. Não podemos julgar quem é guru e quem é śiṣya (discípulo) — isso está além da nossa compreensão e não é assunto nosso.
No kīrtana “Je Ānilo Prema-Dhana Karuṇā Pracura”, Narottama canta: “rāmācandra-saṅga māge narottama dāsa.’’ Com humildade, Narottama dāsa Ṭhākura está aspirando pela associação do discípulo de Śrīnivāsa Ācārya, Rāmacandra Kavirāja.
vāñchā-kalpa-tarubhyaś ca
kṛpā-sindhubhya eva ca
patitānāṁ pāvanebhyo
vaiṣṇavebhyo namo namaḥ
[“Ofereço repetidas reverências aos Vaiṣṇavas, que são os salvadores dos caídos, que são como árvores dos desejos que concedem todos os anseios e que são oceanos de misericórdia.”]
[Jaya Śrīnivāsa Ācārya kī jaya!]
Tradução: Rādhā-kṛṣṇa dāsa (SC)
Verificação de integridade: Līlā-govinda dāsa (MG)
Diacríticos: Gaura-gopāla dāsa (SP)
Edição: Taruṇī-gopī dāsī (SP)
Revisão: Rādhā-kṛṣṇa dāsa (SC)


