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As glórias de Madhvācārya, Rāmānujācārya e Ekādaśī-tithi

  • Foto do escritor: Vana Madhuryam Brasil
    Vana Madhuryam Brasil
  • há 14 horas
  • 13 min de leitura

Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja 

20 de fevereiro de 2024, Santiago, Chile


Os ensinamentos da sampradāya de Rāmānujācārya


Em Kali-yuga, Rāmānujācārya é o ācārya (a autoridade espiritual central) da Śrī Sampradāya. Ele manifestou duas qualidades que podemos aprender com a Śrī Sampradāya: a fé inabalável no iṣṭa-deva, a deidade adorável, e a determinação no serviço à Ele. Isso é iṣṭa-deva-sevā-niṣṭhā.


śrīnāthe jānakī-nāthe cābhedaḥ paramātmani 

tathāpi mama sarvasvaṁ rāmaḥ kamala-locanaḥ


Prema-bhakti-candrikā (17)


[“Como dito por Śrī Hanumān: ‘Embora Śrī Nārāyaṇa, o Esposo de Lakṣmī-devī, e Śrī Rāma, o Esposo de Sītā-devī, sejam ambos a Superalma, ainda assim, o Senhor Śrī Rāma, de olhos de lótus, é tudo para mim.’”]


Hanumānjī disse: “Eu sei que não há diferença entre Kṛṣṇa e Nārāyaṇa, mas tenho niṣṭhā, lealdade, em meu iṣṭa-deva, Rāmacandra.” Ter niṣṭhā em seu iṣṭa-deva significa ter uma fé inabalável em Seus pés de lótus. Bhakti, a devoção, depende do grau de niṣṭhā que se possui. 


Primeiramente, a fé deve ser exclusiva ao guru. Isso é guru-niṣṭhā e guru-sevā.


guru-pāda-padme rahe ĵāra niṣṭhā-bhakti

jagat tārite sei dhare mahā-śakti


Canção Āśraya Kôriyā Vandõ (11), de Śrī Sanātana dāsa


[“Aquele cuja devoção permanece fixa aos pés de lótus de Śrī Guru possui grande poder para libertar o universo.”]


Guru-niṣṭhā é muito importante, pois é a espinha dorsal de nossas práticas espirituais, bhajana e sādhana. Na Śrī Sampradāya, segue-se vaidhi-bhakti, a prática da devoção baseada no cumprimento de todas as regras e regulações prescritas pelas escrituras. Se não seguirmos as regras das escrituras, jamais alcançaremos nossa meta de perfeição.


śruti-smṛti-purāṇādi-pañcarātra-vidhiṁ vinā

aikaṁtike harer bhaktir utpātāyaiva kalpate


Bhakti-rasāmṛta-sindhu (1.2.101)


[“O serviço devocional ao Senhor que ignora as literaturas védicas autorizadas, como os Upaniṣads, os Purāṇas e o Nārada-Pañcarātra, é simplesmente uma perturbação desnecessária na sociedade.”]


Alguém que pensa que, por estar voltado a Kṛṣṇa, não precisa seguir as regras e regulações das escrituras, está apenas causando um distúrbio na sociedade. Os śāstras (textos sagrados) afirmam que devemos seguir todas as regras e regulações descritas nos Śrutis, Vedas, Purāṇas, Upaniṣads e Nārada-pañcarātra. Todas as escrituras afirmam que devemos seguir as regras e regulações nelas contidas.


Primeiramente, é necessário abrigar-se aos pés de lótus do guru, guru-pāda-āśraya. Em seguida, é preciso receber dele os dīkṣā-mantras. Depois, deve-se aprender alguns versos das escrituras (ślokas) e adquirir śāstra-jñāna, o conhecimento delas. Por fim, deve-se servir seu Gurudeva com intimidade — viśrambhena guru-sevā. Dessa maneira, pratica-se o serviço devocional ao Senhor.


A Śrī Sampradāya, que é a linhagem espiritual de Rāmānuja, segue as regras e regulações das escrituras de maneira muito estrita. Lembrem-se sempre de duas coisas: 1) tenham fé firme nos pés de lótus do guru (guru-niṣṭhā) e devoção a ele (guru-bhakti); e 2) sigam todas as regras e regulações das escrituras — śāstra-anuśāsana.


Por esse motivo, o Senhor Caitanya Mahāprabhu pediu a Sanātana Gosvāmī que manifestasse um grantha (livro sagrado) belíssimo sobre o bom comportamento do Vaiṣṇava — o vaiṣṇava-sadācāra-grantha. Esse livro chama-se Śrī Hari-bhakti-vilāsa, e, se não seguirmos o que está contido nele, jamais alcançaremos nossa meta de perfeição. Nele é descrito todo o bom comportamento Vaiṣṇava (śuddha-sadācāra). Por isso, devemos lê-lo primordialmente. 


Foi Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmī quem coletou todos os ślokas da Śrī Sampradāya de Rāmānuja e os entregou a Sanātana Gosvāmīpāda. Dessa forma, Sanātana Gosvāmī manifestou o Śrī Hari-bhakti-vilāsa.


Os ensinamentos de Śrī Madhvācārya 


Madhvācārya é a encarnação direta de Bhīma, Vāyu (o semideus do vento) e Hanumān. Ele é um ācārya muito poderoso e manifestou o dvaita-vāda, a filosofia da dualidade. Em especial, ele explicou as cinco diferenças a seguir.


A primeira diferença é īśvara-jīva-bheda, a diferença entre o Senhor e os seres vivos. O Senhor é único, enquanto os seres vivos são inumeráveis. O Senhor é o Controlador Supremo, e os seres vivos são dominados por māyā, a energia ilusória de Deus. Por fim, Ele é sem igual e sem paralelo; ninguém pode se comparar a Ele, enquanto os seres vivos são diminutos.


A segunda diferença é jīva-jīva-bheda, a diferença entre um ser vivo e outro. Algumas jīvas (almas) estão situadas em tama-guṇa, o modo da ignorância, brigando e discutindo entre si, enquanto outras jīvas estão situadas em sattva-guṇa, o modo da bondade.


A terceira diferença é jīva-jaḍa-bheda, a diferença entre os seres vivos e a matéria inerte. As jīvas possuem consciência, enquanto a matéria inerte é inconsciente. Quem possui consciência apresenta três características: o poder de sentir, desejar e conhecer. A matéria inerte não possui essas capacidades. As pedras não sentem frio nem calor, enquanto os seres vivos são sensíveis às variações de temperatura, sentem fome, possuem desejos e almejam realizações.


A quarta diferença é jaḍa-jaḍa-bheda, a diferença entre uma matéria inerte e outra. Algumas matérias inertes são líquidas, enquanto outras são sólidas. Os tijolos e a parede, por exemplo, são sólidos, enquanto a água é líquida. Há também matérias transparentes, que permitem enxergar através delas. Ao construir uma parede de vidro ou instalar uma janela, é possível ver o outro lado. No entanto, uma parede feita de tijolos é sólida, e não é possível ver através dela. O vidro, os tijolos e as pedras são todos inertes, mas diferem entre si. Da mesma forma, o leite e a água são líquidos, mas apresentam diferenças.


A quinta diferença é jaḍa-īśvara-bheda, a diferença entre o Senhor e a matéria inerte. O Senhor é o Controlador Supremo e está presente em todos os lugares. Ele reside no coração de todos os seres vivos como a Superalma, ou Paramātmā, enquanto a matéria inerte permanece apenas em um lugar. Dessa forma, Śrī Madhvācārya explicou o bheda-vāda, a filosofia das cinco diferenças.


Vemos essas diferenças neste mundo material; contudo, elas também existem no mundo transcendental. Lá, há muitas jīvas que são diferentes entre si. Algumas possuem dāsya-rasa, o humor de serviço. Outras possuem sakhya-rasa, o humor de amizade, e servem Kṛṣṇa sob a orientação de Subala e Śrīdāma. Outras jīvas estão em Goloka Vṛndāvana no humor de vātsalya-rasa, o humor parental, e servem Kṛṣṇa sob a orientação de Nanda e Yaśodā. Também em Goloka Vṛndāvana, algumas jīvas estão situadas em mādhurya-bhāva, o humor conjugal, e possuem vraja-parakīya-bhāva em seus corações; são as vraja-gopīs, que servem Kṛṣṇa sob a orientação de Śrīmatī Rādhikā, Lalitā e Viśākhā.


Śrī Madhvācārya explicou claramente as diferenças entre este mundo material e o mundo transcendental, Goloka Vṛndāvana. Sua filosofia é a mais elevada. Madhvācārya também manifestou mādhurya-bhāva em sua sociedade.


Certa vez, Madhvācārya encontrou um grande pedaço de tilaka (argila sagrada). Ao parti-lo, manifestou-Se uma belíssima deidade de Gopāla, segurando um bastão para bater iogurte. Isso mostra como mādhurya-bhāva também está presente em sua sampradāya.


O Senhor Caitanya Mahāprabhu aceitou a sampradāya de Madhvācārya e, por essa razão, o nome de nossa linhagem espiritual é Brahmā-Madhva-Gauḍīya Sampradāya. Lembrem-se sempre disso. Se alguém perguntar o nome da sua escola filosófica, o que responderão? É essencial que aprendam que pertencem à Śrī Brahmā-Madhva-Gauḍīya Sampradāya.


Aquele que adora o deus do Sol, Sūrya-deva, é chamado de Saura. Aquele que adora Śiva é chamado de Śaiva. Aquele que adora Gaṇeśa é chamado de Gāṇapatya. Aquele que adora Kālī, Śiva e Durgā é chamado de Śākta. Aquele que adora Viṣṇu é chamado de Vaiṣṇava. Aquele que adora somente Kṛṣṇa é chamado de Kārṣṇi. E aquele que adora Śrīmatī Rādhikā é chamado de Gauḍīya, pois um dos nomes de Śrīmatī Rādhikā é Gauḍī. Todos nós pertencemos à Gauḍīya Sampradāya, e nossa iṣṭa-devī é Śrīmatī Rādhikā.


O termo “gauḍīya” indica “aqueles que são voltados a Gauḍī, Śrīmatī Rādhikā”. Além disso, alguns dos nomes de Caitanya Mahāprabhu são Gaurāṅga e Gaura-sundara. Ele é a forma combinada de Rādhā e Kṛṣṇa. Aqueles que adoram Śacīnandana Gaurahari também são chamados de Gauḍīya. Lembrem-se sempre: nossa iṣṭa-devī é Śrīmatī Rādhikā.


mad-īśā-nāthatve vraja-vipina-candraṁ vraja-vane-

śvarīṁ tan-nāthatve tad-atula-sakhītve tu lalitām

viśākhāṁ śikṣālī-vitaraṇa-gurutve priyasaro-

girīndrau tat-prekṣā-lalita-ratidatve smara manaḥ


Śrī Manaḥ Śikṣā (9)


[“Ó mente, lembre-se de Vraja-vipina-candra como o Senhor de minha Mestra. Lembre-se também de minha Mestra, Vraja-vaneśvarī, bem como de Suas amigas, a incomparável Lalitā e a guru Viśākhā, que transmite muitos ensinamentos. Lembre-se também de Seu amado lago e do Rei das Montanhas, que, apenas ao serem vistos, concedem um encantador apego ao Divino Casal.”]


O Senhor Caitanya Mahāprabhu instruiu todos os Seus seguidores da seguinte forma:


ārādhyo bhagavān vrajeśa-tanayas tad-dhāma vṛṇdāvanaṁ

ramyā kācid upāsanā vraja-vadhū-vargeṇā yā kalpitā

śrīmad-bhāgavataṁ pramāṇam amalaṁ premā pumartho mahān

śrī-caitanya-mahāprabhor matam idaṁ tatrādaro naḥ paraḥ


Caitanya-mañjuṣā


[“A forma mais adorável da Suprema Personalidade de Deus é Kṛṣṇa, o filho do rei de Vraja, e Vṛndāvana é a morada mais adorável. A mais elevada e mais prazerosa forma de adoração a Kṛṣṇa é aquela das vaqueirinhas de Vraja. A obra Śrīmad-Bhāgavatam é a autoridade imaculada. E o amor puro a Kṛṣṇa é a meta última e mais elevada da vida. Eis as opiniões conclusivas do Senhor Caitanya Mahāprabhu, pelas quais temos a mais alta estima.”]


Como observar Ekādaśī-tithi


Hoje também é Ekādaśī, um dia muito especial e sagrado, sobre o qual explicarei brevemente. Neste dia, não é permitido consumir cinco tipos de grãos, pois, especialmente nessa ocasião, todos os tipos de germes das atividades pecaminosas estão contidos neles. Mesmo que vocês estejam prestes a morrer, não importa — vocês não devem consumir esses cinco tipos de grãos no dia de Ekādaśī.


No dia de hoje, não é permitido consumir arroz, trigo, cevada, milho, grão-de-bico e demais grãos. Se vocês os consumirem, terão de sofrer por milhares de anos as reações das atividades pecaminosas contidas neles, e terão que ir para o inferno, Naraka. Dos oito aos oitenta anos de idade, todos devem observar Ekādaśī-tithi, pois ela é a mãe de śuddha-bhakti, a devoção pura.


śuddha-bhakata-caraṇa-reṇu, bhajana-anukūla

bhakata-sevā, parama-siddhi, prema-latikāra mūla


mādhava-tithi, bhakti-jananī, jetane pālana kori

kṛṣṇa-basati, basati boli', parama ādare bori


Canção Śuddha-bhakata (1–2), de Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura


[“A poeira dos pés de lótus dos devotos puros é extremamente favorável para o bhajana. O serviço aos devotos puros é a mais elevada perfeição e a própria raiz da videira de prema. Eu observo cuidadosamente os dias sagrados de Mādhava (como Ekādaśī e Janmāṣṭamī), pois eles são a mãe da devoção. Sabendo que Kṛṣṇa reside nesses dias sagrados, com grande respeito, também os aceito como minha residência.”]


Todos devem observar Ekādaśī-tithi. Se a saúde de vocês estiver boa, podem seguir nirjala-ekādaśī — o jejum sem ingerir nem mesmo uma gota de água. Mas, se estiverem doentes, as escrituras concedem algumas permissões, e vocês podem consumir algumas frutas, iogurte e leite. No entanto, sob nenhuma circunstância é permitido comer arroz, dāl, capātī etc. O dia de Ekādaśī é muito poderoso, e, se vocês não o observarem, irão para o inferno.


As glórias de Ambarīṣa Mahārāja


Ambarīṣa Mahārāja, que era o rei do mundo inteiro, observava Ekādaśī-tithi e engajava todos os seus sentidos no serviço ao Senhor. Por esse motivo, Śukadeva Gosvāmīpāda falou sobre suas glórias. Ele residia em Mathurā, às margens do Yamunā. Até hoje, ali existe um palácio chamado Ambarīṣa-ṭilā, que foi construído no início da criação, em Satya-yuga. Ele observava Ekādaśī-tithi e Mahā-dvādaśī-tithi e engajava sua mente em recordar os passatempos de Kṛṣṇa.


sa vai manaḥ kṛṣṇa-padāravindayor 

vacāṁsi vaikuṇṭha-guṇānuvarṇane 

karau harer mandira-mārjanādiṣu 

śrutiṁ cakārācyuta-sat-kathodaye 


mukunda-liṅgālaya-darśane dṛśau 

tad-bhṛtya-gātra-sparśe ’ṅga-saṅgamam 

ghrāṇaṁ ca tat-pāda-saroja-saurabhe 

śrīmat-tulasyā rasanāṁ tad-arpite


pādau hareḥ kṣetra-padānusarpaṇe 

śiro hṛṣīkeśa-padābhivandane 

kāmaṁ ca dāsye na tu kāma-kāmyayā 

yathottamaśloka-janāśrayā ratiḥ


Śrīmad-Bhāgavatam (9.4.18-20)


[“Mahārāja Ambarīṣa sempre ocupou sua mente em meditar sobre os pés de lótus de Kṛṣṇa, suas palavras em descrever as glórias do Senhor, suas mãos em limpar o templo do Senhor e seus ouvidos em ouvir as palavras ditas por Kṛṣṇa ou sobre Kṛṣṇa. Ele ocupou seus olhos em ver a deidade de Kṛṣṇa, os templos de Kṛṣṇa e os lugares de Kṛṣṇa como Mathurā e Vṛndāvana. Ele ocupou seu sentido do tato em tocar os corpos dos devotos do Senhor. Ele ocupou seu sentido do olfato em cheirar a fragrância de tulasī oferecida ao Senhor. E ele ocupou sua língua em saborear a prasāda do Senhor. Ele envolveu suas pernas em caminhar para os lugares sagrados e templos do Senhor, sua cabeça em se curvar diante do Senhor, e todos os seus desejos em servir ao Senhor, vinte e quatro horas por dia. De fato, Mahārāja Ambarīṣa nunca desejou nada para sua própria gratificação dos sentidos. Ele envolveu todos os seus sentidos em serviço devocional, e em vários compromissos relacionados ao Senhor. Esta é a maneira de aumentar o apego ao Senhor e ser completamente livre de todos os desejos materiais.”]


Ambarīṣa Mahārāja observava Ekādaśī em jejum completo, sem tomar nem mesmo uma gota de água, e, no dia seguinte, quebrava esse jejum, observando o Dvādāśī-vrata. Após observar Ekādaśī, no dia seguinte é necessário quebrar o jejum. Se estiverem fazendo nirjala, devem adorar sua Ṭhākurajī ou Śālagrāma-śilā e quebrar o jejum bebendo a água proveniente dessa adoração.


Certa vez, um dia após Ekādaśī, enquanto Ambarīṣa Mahārāja estava adorando sua Ṭhākurajī, um sādhu (santo) muito poderoso chamado Durvāsā Ṛṣi chegou ao seu kuṭīra (morada). Esse sādhu é extremamente poderoso e muito irado, mahā-krodhī — se alguém cometer qualquer falha diante dele, será amaldiçoado e reduzido a cinzas.


Assim que chegou, Durvāsā Ṛṣi disse: “Ambarīṣa, irei me banhar no Yamunā e voltarei em breve. Prepare algum alimento para mim.” E partiu. No entanto, o horário exato para quebrar o jejum de Ekādaśī, chamado pāraṇa, era muito curto. As escrituras afirmam que, ao observar Ekādaśī, é necessário quebrar o jejum no horário adequado no dia seguinte; caso contrário, os frutos espirituais do jejum não serão alcançados.


Ambarīṣa Mahārāja percebeu que o tempo para a quebra do jejum estava muito próximo e pensou: “O que farei agora? Um sādhu veio à minha casa, mas ainda não o servi. Como, então, quebrarei o jejum de Ekādaśī?” As escrituras explicam que, antes de quebrar o jejum de Ekādaśī, deve-se fazer doações e alimentar os sādhus, as vacas e os brāhmaṇas (sacerdotes). Somente depois disso pode-se tomar o alimento santificado (mahā-prasāda) oferecido à Ṭhākurajī.


O momento para a quebra do jejum de Ekādaśī é muito breve. O período correto para fazê-lo é dentro de três horas após o nascer do sol. No entanto, naquela ocasião, o tempo para essa quebra era de apenas alguns minutos. Por essa razão, Ambarīṣa Mahārāja se perguntava como iria quebrar seu jejum.


Ambarīṣa Mahārāja questionou os brāhmaṇas e os paṇḍitas, mas eles não deram nenhuma resposta. Então, ele pensou: “Estou em jejum completo desde ontem; portanto, posso adorar os pés de lótus do Senhor e tomar Sua caraṇāmṛta.” A água proveniente do banho do Senhor Viṣṇu chama-se caraṇāmṛta. Ao adorar sua Śālagrāma-śilā, pode-se reservar a água utilizada na adoração e bebê-la. Foi isso que Ambarīṣa Mahārāja fez.


Durvāsā Ṛṣi, em seu transe, percebeu que Ambarīṣa Mahārāja havia quebrado o jejum de Ekādaśī sem antes lhe prestar serviço. Por isso, considerou que Ambarīṣa não lhe havia demonstrado o devido respeito. Então, muito irado, ele retornou ao kuṭīra de Ambarīṣa Mahārāja e proferiu palavras muito rudes. Ambarīṣa Mahārāja permaneceu em silêncio, mas, ainda assim, a ira de Durvāsā Ṛṣi aumentava como a chama do fogo. 


Tomado pela ira, Durvāsā Ṛṣi manifestou um demônio de fogo chamado Kṛtyā. No entanto, enquanto o demônio se dirigia a Ambarīṣa Mahārāja para matá-lo, ele permanecia calmo e tranquilo. Ele nem sequer orou ao Senhor Viṣṇu para ser salvo. No Mahābhārata, Duḥśāsana tentou despir Draupadī, e ela orou ao Senhor Kṛṣṇa. Já Ambarīṣa Mahārāja não pediu ao Senhor para ser salvo.


No momento em que o demônio de fogo tentava matar Ambarīṣa Mahārāja, a sudarśana-cakra do Senhor Viṣṇu apareceu rapidamente, matou o demônio e, em seguida, passou a perseguir Durvāsā Ṛṣi. Com medo, ele correu até Brahmājī e pediu para ser salvo, mas Brahmājī disse: “Eu não posso salvá-lo. Você cometeu uma ofensa aos pés de lótus de Ambarīṣa Mahārāja. Ele é um devoto puro.” Então, ele prosseguiu até Kailāsa, em Śiva-loka, e pediu abrigo ao Senhor Śiva. No entanto, Śiva disse: “Eu não posso lhe dar abrigo nem protegê-lo. É melhor que você vá até Viṣṇu-loka, a morada do Senhor Viṣṇu, em Vaikuṇṭha. A sudarśana-cakra pertence a Ele; talvez Ele possa lhe dar algum conselho.”


Finalmente, Durvāsā Ṛṣi correu até Vaikuṇṭha-loka e suplicou ao Senhor Viṣṇu: “Ó Senhor, por favor, salve-me! Sua sudarśana-cakra está me perseguindo para cortar minha cabeça!” Mas após ouvir a súplica, o Senhor respondeu: “Durvāsā, não posso lhe dar abrigo, pois você cometeu uma ofensa aos pés de lótus do Meu devoto puro, Ambarīṣa Mahārāja.”


sādhavo hṛdayaṁ mahyaṁ

sādhūnāṁ hṛdayaṁ tv aham

mad-anyat te na jānanti

nāhaṁ tebhyo manāg api


Śrīmad-Bhāgavatam (9.4.68)


[“O devoto puro sempre está situado no âmago do Meu coração, e Eu sempre estou no coração do devoto puro. Meus devotos conhe­cem apenas a Mim, e Eu só conheço os Meus devotos.”]


O Senhor disse: “Eu sempre resido no coração dos sādhus. Então, como poderia Eu lhe dar abrigo? É melhor você ir até Ambarīṣa Mahārāja pedir perdão.” Enquanto isso, a sudarśana-cakra continuava perseguindo Durvāsā Ṛṣi, aproximando-se cada vez mais de seu pescoço.


Tomado pelo medo, Durvāsā Ṛṣi refletiu sobre o que poderia fazer. Então dirigiu-se a um local próximo de Ambarīṣa Mahārāja e percebeu que Ambarīṣa ainda o aguardava. Ambarīṣa permanecia à espera do retorno de Durvāsā Ṛṣi, pois pensava: “O sādhu veio à minha casa, e eu não lhe ofereci o devido respeito. Cometi uma ofensa.”


Para reconhecer um sādhu, basta observar a profunda humildade que ele manifesta. Não importa se a pessoa está na vida familiar ou na ordem renunciada; o que realmente importa é o quanto de bhakti há em seu coração. O sintoma de que Bhakti-devī se manifestou no coração é tornar-se genuinamente humilde e oferecer respeito a todos.


phalavanta vṛkṣa āra guṇavanta jana 

‘namratā’ se tāhāra svabhāva anukṣaṇa


Śrī Caitanya-bhāgavata (1.13.45)


[“A natureza tanto da árvore carregada de frutos quanto do homem adornado com boas qualidades é inclinar-se com humildade.”]


Ambarīṣa Mahārāja aguardava Durvāsā Ṛṣi com profunda humildade. Quando Durvāsā chegou, Ambarīṣa ofereceu-lhe reverências, e Durvāsā Ṛṣi compreendeu quão humildes são os devotos do Senhor Viṣṇu (também conhecido como Ananta).


durvāsā uvāca

aho ananta-dāsānāṁ

mahattvaṁ dṛṣṭam adya me

kṛtāgaso ’pi yad rājan

maṅgalāni samīhase


Śrīmad-Bhāgavatam (9.5.14)


[“Durvāsā Muni disse: ‘Meu querido rei, hoje percebi a grandeza dos devotos da Suprema Personalidade de Deus, pois, embora eu tenha cometido uma ofensa, oraste em prol de minha boa fortuna.’”]


Se vocês desejam tornar-se Vaiṣṇavas, sejam sempre humildes. Mahāprabhu instrui da mesma forma no terceiro verso do Śrī Śikṣāṣṭakam.


tṛṇād api su-nīcena

taror iva sahiṣṇunā

amāninā māna-dena

kīrtanīyaḥ sadā hariḥ


 Śrī Śikṣāṣṭakam (3)


[“Aquele que se considera inferior à grama, que é tolerante como uma árvore e que não espera honra pessoal, mas está sempre preparado para dar todo o respeito aos outros, pode facilmente cantar sempre o santo nome do Senhor.”]


Se vocês desejam tornar-se Vaiṣṇavas, devem desenvolver quatro qualificações. Apenas aplicar tilaka e usar kaṇṭhī-mālā (colar de tulasī) não são sintomas de um Vaiṣṇava — isso é externo. Se vocês aplicarem tilaka na testa de um burro e colocar-lhe kaṇṭhī-mālā, isso o tornará um Vaiṣṇava?


dainya, dayā, anya māna, pratiṣṭhā-varjana

cāri-guṇe guṇī hôi’, karahô kīrtana


Canção Śrī Kṛṣṇa-kīrtane Ĵadi (7), de Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura


[“Dotado das quatro qualidades de humildade, compaixão, respeito e modéstia, realize o kīrtana do Senhor.”]


Mahāprabhu disse que, se alguém deseja tornar-se um Vaiṣṇava e cantar os santos nomes, deve cultivar essas quatro qualificações: 1) tṛṇād api su-nīcena — ser sempre mais humilde que uma palha de grama; 2) taror iva sahiṣṇunā — ser sempre tolerante como uma árvore; 3) amāninā māna-dena — não ansiar por nome, fama e reputação e, ainda assim, oferecer respeito a todos; e 4) dessa forma, sempre cantar os santos nomes — kīrtanīyaḥ sadā hariḥ.


Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa

 Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare

 Hare Rāma Hare Rāma

 Rāma Rāma Hare Hare


Durvāsā Ṛṣi disse: “Agora compreendo como os devotos do Senhor Viṣṇu — ananta-dāsānām, os Vaiṣṇavas — são extremamente humildes. Eu cometi uma ofensa aos pés de lótus de Ambarīṣa Mahārāja, mas Ambarīṣa, com grande humildade, aguardava por mim.” Assim, Durvāsā Ṛṣi pediu perdão a Ambarīṣa Mahārāja, e a sudarśana-cakra parou de persegui-lo.


Se, de forma consciente ou inconsciente, vocês cometerem alguma ofensa aos pés de lótus de um Vaiṣṇava, peçam perdão. Caso contrário, Bhakti-devī não se manifestará em seus corações. Lembrem-se sempre da história de Ambarīṣa Mahārāja e Durvāsā Ṛṣi. Na verdade, esse passatempo teve como propósito a glorificação de Ambarīṣa Mahārāja, que é um devoto puro do Senhor. Durvāsā Ṛṣi conhece todas as coisas, mas utilizou essa līlā (passatempo) para glorificar Ambarīṣa Mahārāja e também para ensinar como quebrar o jejum de Ekādaśī no dia seguinte, em Dvādaśī. Isso constitui o Ekādaśī-māhātmya — as glórias do dia de Ekādaśī.


Bolo Ambarīṣa Mahārāja kī jaya!

Jaya jaya Śrī Rādhe!




Transcrição: Rādhā dāsī (SC)

Diacríticos: Gaura-gopāla dāsa (SP)

Edição: Taruṇī-gopī dāsī (SP)

Revisão: Acyuta-priya devī dāsī (SP)

Contribuição: Premānanda dāsa (Espanha)


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