A arte de tocar instrumentos musicais
- Vana Madhuryam Brasil
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Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja
1 de janeiro de 2026, Palhoça, Brasil
[No dia anterior, os devotos organizaram uma apresentação de mṛdaṅga. Muito satisfeito, Śrīla Gurudeva também solicitou uma apresentação de harmônio. Após a apresentação, ele proferiu a seguinte palestra:]
Quem aqui realmente deseja se tornar uma mañjarī? Sem prática, não é possível alcançar esse objetivo.
‘sādhya-vastu’ ‘sādhana’ vinu keha nāhi pāya
kṛpā kari’ kaha, rāya, pābāra upāya
Śrī Caitanya-caritāmṛta (Madhya 8.197)
[“O objetivo da vida não pode ser alcançado a menos que se pratique o processo. Agora, sendo misericordioso comigo, por favor, explique o meio pelo qual esse objetivo pode ser alcançado.”]
Isso é sādhana. Todos os dias, Śrīla Haridāsa Ṭhākura cantava três lakhas, isto é, cerca de 300 mil santos nomes. Nossos Gosvāmīs cantavam pelo menos uma lakha, cerca de 100 mil santos nomes. Já o Senhor Caitanya Mahāprabhu, ao começar a cantar “Hare Kṛṣ…”, logo caía inconsciente.
Muitas pessoas cantam os santos nomes; contudo, que tipo de humor se experimenta ao cantar? Isso é muito importante. Deem ênfase não à quantidade de santos nomes que se canta, mas à qualidade do canto. Vocês também devem aprender as melodias e o ritmo das canções, pois assim, Kṛṣṇa e Śrīmatī Rādhikā ficarão muito satisfeitos.
Um dos nomes de Rādhārāṇī é Gāndharvikā. Todos os dias, quando fazemos o jaya-dhvani, dizemos:
Śrī Śrī Guru-Gaurāṅga-Gāndharvikā-Giridhārī
Rādhā-Vinoda-bihārījī kī jaya!
Nessa glorificação, śrī guru é citado em primeiro lugar. Depois, Gaurāṅga. Em seguida, Gāndharvikā, que é Śrīmatī Rādhikā. Por que Ela possui esse nome? Há um local chamado Gāndharva-loka, que fica próximo aos planetas celestiais, Svarga-loka. Neste lugar residem pessoas muito peritas em diferentes tipos de arte.
Lá, há um ṛṣi (sábio) chamado Tumburu Ṛṣi, que é hábil nos mais variados tipos de ritmos e melodias. Esse é um tópico muito belo, explicado nos Purāṇas. Os residentes de Gāndharva-loka são especialistas em cantar, dançar e tocar instrumentos; por isso, são chamados de tauryatrika. Esse termo indica que eles são versados nas três artes seguintes: nṛtya, gīta e vādya. Nṛtya significa que dominam diferentes tipos de dança; gīta significa que cantam belamente em diversos ritmos e melodias; e vādya indica que são peritos em tocar todos os tipos de instrumentos, como harmônio, mṛdaṅga, karatālas, violão, sitāra… todos os instrumentos que se pode imaginar.
Mas de onde eles obtêm todo esse conhecimento? De Śrīmatī Rādhikā. Ela é a fonte da saṅgīta-vidyā — a ciência da música, do canto e da dança. Por essa razão, Ela é conhecida como Gāndharvikā. Até mesmo na dança da rāsa, todas as mañjarīs são especialistas em dançar, cantar e tocar instrumentos musicais. O Brahmāṇḍa Purāṇa, em uma passagem chamada Rādhā-hṛdaya, explica como cada uma das sakhīs é perita em tocar um instrumento diferente. Se vocês desejam ir para Goloka Vṛndāvana, primeiro aprendam com as sakhīs — elas lhes darão o treinamento apropriado. Contudo, no estágio de sādhaka, praticante, vocês precisam realizar sādhana, a prática.
Ao cantar as notas musicais (svaras), a deidade que as preside se manifestará. No total, são sete notas musicais, a saber: Ṣa (Ṣaḍja), Ṛ (Ṛṣabha), Gā (Gāndhāra), Ma (Madhyama), Pa (Pañcama), Dha (Dhaivata) e Ni (Niṣāda).
Conforme mencionado, na dança da rasa, as gopīs cantam, dançam e tocam instrumentos musicais. Rasa não significa abraçar, beijar e fazer coisas mundanas, como pensam as pessoas materialistas. “Rasyate (āsvādyate) iti rasaḥ” — rasa significa que eles saboreiam os mais variados tipos de sentimentos espirituais.
Já no estágio de sādhaka, quando se toca os instrumentos, a deidade que preside os svaras (as notas musicais) e as rāgas (estruturas melódicas) se manifesta. Contarei uma breve história para que vocês compreendam esse tópico.
O santo e a deidade da rāga
Havia um sādhu muito exaltado, de elevada posição, que viajava de um lugar para outro. Certa noite, ele chegou a um vilarejo e pediu a um residente: “Gostaria de passar a noite em um templo.” Nos tempos antigos, os sādhus não ficavam na casa de chefes de família; eles hospedavam-se em devālaya (templos) ou em locais neutros. Na Índia, em cada vila havia um pequeno templo, e, quando os sādhus a visitavam, hospedavam-se ali. Durante o dia, as pessoas serviam o sādhu e a Ṭhākurajī, mas, à noite, somente o sādhu permanecia no local.
É natural que, onde quer que um sādhu esteja presente, se fale um hari-kathā agradável, capaz de inebriar o coração de todos. Aquele sādhu proferia um hari-kathā muito doce. O salão do templo onde ele estava ficou completamente lotado de pessoas que foram ouvir sua palestra. Todos comentavam: “Oh, esse sādhu é perfeito — ele é um siddha-mahātmā!” Com seu hari-kathā cativante e pelo tocar de seus instrumentos musicais, ele encantou o coração da audiência.
Após o hari-kathā, todos retornaram para suas casas. Naquele tempo, não se distribuía prasāda (alimento santificado) ao público. Hoje em dia, oferecemos prasāda à audiência, pois as pessoas não têm tanta atração por ouvir hari-kathā, mas, ao menos, têm gosto por receber mahā-prasāda. Antigamente isso não era costume. Todos vinham, ouviam hari-kathā e voltavam para suas casas. Talvez recebessem apenas algum pequeno doce. Não havia macarrão, pizza… Muitas pessoas vêm até aqui por qual motivo? Quando o hari-kathā está acontecendo, há menos pessoas presentes, mas, na hora de servir a prasāda, o salão fica lotado.
Na Índia, especialmente na Bengala, não era assim. Cerca de 60 anos atrás, quando eu ainda era um garoto, eu mesmo presenciei isso. Havia um paṇḍāl (tenda) enorme, com capacidade para cerca de 10 mil pessoas. Lá, reunir 200 pessoas para uma palestra não era nada — pelo menos 5 a 10 mil compareciam. Hoje em dia, no entanto, as coisas estão mudando. Mas, naquela época, muitos Vaiṣṇavas compareciam, tocavam mṛdaṅga, harmônio e faziam diferentes apresentações.
Retornando à história, quando o hari-kathā era finalizado, cada pessoa recebia um pouco de baṭāsā (pequenos doces de açúcar aerado) e retornava para sua casa. Então, na manhã seguinte, bem cedo, entre três e meia e quatro da manhã, o sādhu estava tocando harmônio sozinho, completamente absorto, quando a adhiṣṭhātṛ-devatā — a deidade que preside o conjunto de notas musicais que ele tocava — manifestou-se diante dele. Era uma jovem belíssima. Ela se sentou à sua frente, mas ele não a viu, pois estava com os olhos fechados.
O sādhu estava tocando a melodia da manhã — a rāga Bhairavī. Cada canção segue uma rāga, uma estrutura melódica associada a um horário específico de execução. Isso é mencionado no livro Bhajana-rahasya. Na niśānta-līlā, no final da noite, explica-se quais rāgas devem ser cantadas em cada período, de acordo com o horário adequado.
A adhiṣṭhātṛ-devatā que ali se manifestou era muito bela, com idade entre 13 e 16 anos, não mais do que isso. Seu corpo era extremamente atraente. Todas as jovens de Gandharva-loka são muito bonitas. De seu corpo emanava grande refulgência, como ouro derretido — tapta-kāñcana-gaurāṅgī. Seus olhos eram longos e belíssimos, e seus cabelos, longos e encaracolados.
Paralelamente, naquele exato momento, duas mulheres do vilarejo pensaram: “Ontem, o sādhu proferiu um hari-kathā belíssimo… mas o que ele estará fazendo agora?” E se dirigiram até o local onde ele se encontrava. Ao verem a jovem sentada diante dele, disseram: “Esse é um sādhu? De modo algum! Ele é um tolo! Na noite passada, proferiu um hari-kathā tão belo que encantou nossos corações, mas não é um verdadeiro santo — é um asādhu, pois passou a noite inteira na companhia dessa moça!”
Rapidamente, aquelas mulheres espalharam essa notícia por todo o vilarejo. Más notícias se espalham rápido, não é? Coisas boas não são fáceis de disseminar, mas as ruins se espalham com muita facilidade — e as pessoas se interessam por elas.
Na noite seguinte, quando o sādhu proferiu sua palestra, menos pessoas compareceram, devido à má reputação que havia se espalhado. Na noite anterior, 10 mil pessoas haviam vindo; na seguinte, apenas 5 mil. Ele percebeu que a mente da audiência estava perturbada — eles não estavam realmente ouvindo. Ao fundo, cochichavam entre si. Como não sabia o que estava acontecendo, ele começou a se questionar sobre a situação.
Alguns acreditaram que o sādhu estava se associando com aquela moça, enquanto outros não. Muitos se perguntavam: “Mas como isso é possível?”, ao passo que outros insistiam: “Não, não! Eu vi! Bem cedo pela manhã, durante uma hora, o sādhu estava cantando, e a moça sentada à sua frente!” Às vezes, algo pequeno acontece, mas as pessoas exageram a situação, e aquilo se torna algo gigantesco. Esse é o papel da mídia: tiram uma foto de um pequeno acúmulo de água, por exemplo, e a divulgam como se fosse uma enchente.
Isso é como na história de Śūrpaṇakhā. Ela foi até o Senhor Rāmacandra, mas depois não contou a Rāvaṇa o que havia feito de errado. Em vez disso, relatou tudo de forma distorcida. Rāvaṇa, por sua vez, não conseguia discernir o que era verdade ou não e pensou: “Śūrpaṇakhā é minha irmã, portanto, o que ela diz deve ser a verdade absoluta.”
Assim, a maioria dos residentes daquele vilarejo passou a acreditar que aquele sādhu não era genuíno, mas sim um grande trapaceiro. Enquanto o santo nada sabia do que estava acontecendo, eles planejaram: “Amanhã bem cedo, vamos nos esconder em algum lugar do templo e, quando ele tocar harmônio, talvez aquela moça volte. Assim, pegaremos os dois em flagrante e daremos uma boa surra nele!” Essa é a natureza das pessoas tolas. Vocês podem observar esse comportamento neste mundo material.
Então, bem cedo, por volta das três e meia da manhã, o sādhu estava tocando a rāga Bhairavī em seu harmônio, quando a mesma deidade que preside essa rāga se manifestou novamente e se sentou diante dele. Ao presenciarem a cena, os residentes do vilarejo pensaram: “Agora é o momento de lhes dar uma surra!”
No entanto, quando cerca de três residentes se aproximaram deles, a moça sorriu levemente e simplesmente desapareceu. Perplexos, todos perguntaram ao sādhu: “O que acabou de acontecer aqui?” E o sādhu respondeu: “Na verdade, aquela não era uma moça comum… Quando eu toco o harmônio, a adhiṣṭhātṛ-devatā — a deidade que preside essas melodias — se manifesta.” Ao ouvir isso, todos os residentes do vilarejo se renderam completamente aos pés de lótus do sādhu e compreenderam que ele era um santo exaltado, de elevada posição.
Essa história é real e é mencionada nos Purāṇas. Seu significado é que, se vocês praticarem e tocarem qualquer instrumento de maneira apropriada, a adhiṣṭhātṛ-devatā, a deidade que preside os instrumentos e as rāgas, se manifestará naquele local. Esse é o processo. Caso contrário, qualquer pessoa pode cantar de qualquer maneira.
Por outro lado, o Senhor aceita o seu humor.
mūrkho vadati viṣṇāya dhīro vadati viṣṇave
ubhayos tu samaṃ puṇyaṃ bhāva-grāhī janārdanaḥ
Caitanya-bhāgavata (1.11.108)
[“Ao oferecer reverências ao Senhor Viṣṇu, uma pessoa ignorante canta viṣṇāya namaḥ (o que é impróprio devido a erro gramatical), enquanto uma pessoa erudita canta viṣṇave namaḥ (a forma correta). No entanto, ambos alcançam o mesmo mérito por suas reverências, pois o Senhor Śrī Janārdana vê o sentimento do ser vivo — em outras palavras, Ele vê o grau de devoção — e concede o resultado de acordo com isso (Ele não considera a ignorância ou a erudição de alguém).”]
Conhecendo ou não o significado, ao recitarem os ślokas (versos) em sânscrito, o Senhor aceitará o seu humor (bhāva). Mas, se desejam servir Śrīmatī Rādhikā e se tornar uma mañjarī, devem aprender os ritmos, as melodias e as rāgas.
[Śrīla Gurudeva concluiu este trecho da aula pedindo aos devotos que lessem o significado e cantassem a canção Pālya-dāsī Kôri, de Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura:]
pālya-dāsī kôri’, lalitā sundarī, āmāre lôiyā kabe
śrī rādhikā-pade, kāle milāibe, ājñā-sevā samarpibe (1)
[“Quando a bela Lalitā, ao me tornar uma pālya-dāsī (uma serva carinhosamente protegida), me colocará aos pés de lótus de Śrī Rādhikā e me concederá sevā (serviço) sob sua orientação?”]
śrī rūpa mañjarī, saṅge ĵābô kabe, rasa-sevā-śikṣā-tare
tad-anugā ha’ye, rādhā-kuṇḍa-taṭe, rahibô harṣitāntare (2)
[“Quando irei até Śrī Rūpa Mañjarī para receber instruções sobre o serviço repleto de rasa? Sob sua orientação, permanecerei alegremente às margens do Śrī Rādhā-kuṇḍa.”]
śrī viśākhā-pade, saṅgīta śikhibô, kṛṣṇa-līlā rasamaya
śrī rati-mañjarī, śrī rasa-mañjarī, hôibe sabe sadaya (3)
[“Aos pés de lótus de Śrī Viśākhā, aprenderei a música repleta do néctar dos passatempos de Kṛṣṇa. Śrī Rati Mañjarī, Śrī Rasa Mañjarī e outras serão muito compassivas comigo.”]
parama ānande, sakale miliyā, rādhikā caraṇe rabô
ei parākāṣṭa, siddhi kabe habe, pābô rādhā-padā-sava (4)
[“Em suprema bem-aventurança, estaremos todas juntas aos pés de lótus de Śrī Rādhikā. Ó, quando alcançarei essa perfeição suprema e receberei o néctar dos pés de lótus de Śrī Rādhā?”]
[Bolo Śrīmatī Rādhārāṇī kī jaya!]
Transmissão ao vivo (trecho entre 01:29:34 e 02:03:00)
Transcrição e edição: Taruṇī-gopī dāsī (SP)
Revisão: Rādhā-kṛṣṇa dāsa (SC)
Colaboração: Premānanda dāsa (Espanha)


