O dever dos pais com os filhos
- Vana Madhuryam Brasil
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Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja
17 de abril de 2026, França
Estou muito feliz por vir à casa de Nārāyaṇī-devī. Este é um lugar muito bonito e agradável, e todos os devotos também vieram. De manhã, fizemos um lindo programa após o maṅgala-ārati, e depois disso, viemos até a casa dela, que é muito bonita. Em especial, o doce filho dela, Tarun Kṛṣṇa dāsa, é um garoto muito gentil e que toca a mṛdaṅga muito bem. É muito bom que ele esteja praticando. Ele é um bom devoto.
Śrīla Gurudeva: [dirigindo-se ao Tarun Kṛṣṇa dāsa] Quantos anos você tem?
Tarun Kṛṣṇa dāsa: Oito.
Śrīla Gurudeva: Oito anos de idade. Muito bom! Você carrega impressões muito boas em seu coração. Hoje em dia, as crianças ocidentais não estão tão interessadas [em espiritualidade], mas esse é um bom garoto.
É por isso que todos devem causar impressões, saṁskāras, nos corações de seus filhos. Kṛṣṇa se encarregará do futuro deles, contudo, o dever dos pais é causar saṁskāras em seus corações.
Estou muito feliz de vir à casa de Nārāyaṇī-devī. Tarun Kṛṣṇa Prabhu, em especial, é um menino muito bom e doce.
Śrīla Gurudeva: [dirigindo-se ao Tarun Kṛṣṇa dāsa] Você está cantando os santos nomes ou não? Cadê a sua japa-mālā (rosário de 108 contas)?
[Tarun Kṛṣṇa dāsa aponta para a japa-mālā.]
Śrīla Gurudeva: Certo. E quantas voltas você canta diariamente? Todos os dias, cante pelo menos uma ou duas voltas, está bem? Cante diariamente, pois assim, você será feliz. Aprenda também alguns ślokas (versos) do Śrī Ślokāmṛtam e da Bhagavad-gītā. Você deve aprender o seguinte śloka:
śrī-prahrāda uvāca
kaumāra ācaret prājño
dharmān bhāgavatān iha
durlabhaṁ mānuṣaṁ janma
tad apy adhruvam arthadam
Śrīmad-Bhāgavatam (7.6.1)
[“Prahlāda Mahārāja disse: Aquele que é muito inteligente deve, desde o começo de sua vida, saber usar o corpo humano e, então, desde a tenra idade da infância, praticar as atividades do serviço devocional, abandonando todas as outras ocupações. O corpo humano é muito raro de ser obtido, e, embora temporário como os outros corpos, é valioso porque, na vida humana, pode-se executar serviço devocional. Mesmo com um pouco de serviço devocional sincero, a pessoa pode alcançar a perfeição completa.”]
Devoto: Se ele aprender sobre assuntos espirituais, não precisa mais ir à escola.
Śrīla Gurudeva: Ele deve ir à escola. Prahlāda Mahārāja também frequentava a escola. Contudo, ele dava belíssimos ensinamentos aos seus amigos.
Todos devem aprender assuntos espirituais enquanto jovens, pois, assim, os saṁskāras surgirão naturalmente. Com uma argila macia, um oleiro cria belíssimos potes, nos mais diversos formatos. No entanto, se aquela mesma argila estiver seca, não é possível moldá-la. Da mesma forma, o dever dos pais é depositar boas impressões nos corações dos seus filhos. Isso é fundamental. Apenas dar à luz a um bebê não é o mais importante. O essencial é causar saṁskāras, impressões, nos corações dos filhos.
Damos o exemplo de Kuntī e Gāndhārī. No Mahābhārata, vemos como Kuntī incutiu excelentes impressões nos corações de seus filhos. É por isso que Yudhiṣṭhira, Arjuna, Bhīma e os filhos de Mādrī — Nakula e Sahadeva — são devotos puros. Gāndhārī, por sua vez, não fez o mesmo. Por essa razão, seus cem filhos, entre eles Duryodhana e Duḥśāsana, tornaram-se inúteis, estúpidos e tolos.
Por isso, nossos śāstras (escrituras sagradas) explicam que esse é o dever dos pais e, em especial, das mães, pois os filhos sempre ficam junto delas. A criança está sempre observando o que seus pais estão fazendo, e isso causa uma impressão no coração dela. Se vocês bebem álcool, a criança pode não comentar sobre, mas está observando tudo, e tal impressão permanece na mente dela. Por isso, os śāstras orientam que o dever dos pais, especialmente da mãe, é incutir boas impressões no coração de seus filhos. Assim, pouco a pouco, eles se desenvolverão.
A vida humana é muitíssimo rara.
labdhvā su-durlabham idaṁ bahu-sambhavānte
mānuṣyam artha-dam anityam apīha dhīraḥ
tūrṇaṁ yateta na pated anu-mṛtyu yāvan
niḥśreyasāya viṣayaḥ khalu sarvataḥ syāt
Śrīmad-Bhāgavatam (11.9.29)
[“Após muitos, muitos nascimentos e mortes, alcança-se a rara forma humana de vida, que, embora temporária, oferece a oportunidade de atingir a mais elevada perfeição. Assim, um ser humano sóbrio deve rapidamente se empenhar pela perfeição suprema da vida enquanto seu corpo, sempre sujeito à morte, ainda não caiu e morreu. Afinal de contas, a gratificação dos sentidos está disponível até mesmo nas espécies de vida mais abomináveis, enquanto a consciência de Kṛṣṇa é possível apenas para um ser humano.”]
Comer, dormir, acasalar e se defender são atividades comuns tanto na vida humana quanto na vida animal. Mas kṛṣṇa-bhakti é muitíssimo rara. Ainda assim, Kṛṣṇa fez os arranjos para que vocês chegassem até a nossa Consciência de Kṛṣṇa. Por isso, esse é o seu dever: causar boas impressões nos corações dos seus filhos. Assim, suas vidas serão bem-sucedidas.
Vocês devem realizar bhajana e sādhana, cantar os santos nomes e se alimentar com mahā-prasāda (alimento oferecido ao Senhor) diariamente. Vocês não devem comer alimentos mundanos. Tudo o que forem comer, primeiro ofereçam a Kṛṣṇa. Pelo menos, adicionem uma folha de tulasī no prato. Se vocês não forem iniciados, não tem problema; apenas cantem os santos nomes sob o prato [para oferecer o alimento ao Senhor].
patraṁ puṣpaṁ phalaṁ toyaṁ
yo me bhaktyā prayacchati
tad ahaṁ bhakty-upahṛtam
aśnāmi prayatātmanaḥ
Bhagavad-gītā (9.26)
[“Se alguém Me oferecer, com amor e devoção, uma folha, uma flor, frutas ou água, Eu as aceitarei.”]
Kṛṣṇa diz: “Se, com bhakti (devoção), você Me oferecer um alimento, Eu certamente comerei.” No entanto, sem oferecer o alimento a Kṛṣṇa, o que quer que você coma é considerado pecado, pāpa-bhojana. Por isso, vocês devem oferecer o alimento a Kṛṣṇa diariamente. Assim, esse alimento se tornará mahā-prasāda e vocês poderão consumi-lo.
mahā-prasāde govinde nāma-brahmaṇi vaiṣṇave
svalpa-puṇyavatāṁ rājan viśvāso naiva jāyate
Skanda Purāṇa (Utkala-khaṇḍa)
[“Aqueles que possuem pouquíssimas atividades piedosas em seu crédito jamais conseguem desenvolver fé em mahā-prasāda, em Śrī Govinda, no santo nome do Senhor ou nos Vaiṣṇavas.”]
Aqueles que realizaram poucas atividades piedosas não possuem fé em mahā-prasāda. Conforme explicado de maneira clara no verso supracitado, há quatro aspectos nos quais essas pessoas não possuem fé: mahā-prasāda, Śrī Govinda, os Vaiṣṇavas e os santos nomes. Esses quatro elementos são fundamentais.
Quando Kṛṣṇa aceita sua oferenda, ela passa a se chamar mahā-prasāda. E, por ingerir esta mahā-prasāda, vocês serão capazes de derrotar māyā (a energia ilusória do Senhor); desse modo, ela jamais os capturará.
Portanto, esses quatro aspectos são importantíssimos: os santos nomes; Śrī Govinda, que é o próprio Kṛṣṇa; os Vaiṣṇavas e, por fim, mahā-prasāda. Os Vaiṣṇavas são muito importantes. Jamais desonrem os Vaiṣṇavas. Sempre deem o devido respeito a eles. Até mesmo um kaniṣṭha-adhikārī (um devoto iniciante) deve ser respeitado.
Para exemplificar: se vocês colhem uma flor e a oferecem aos pés de lótus de Kṛṣṇa, aquela flor passa a ser propriedade d’Ele. Por isso, vocês não devem jamais encostar os pés naquela flor, pois isso é uma ofensa (aparādha).
Certa vez, Nārada Ṛṣi foi até Vaikuṇṭha-dhāma, e Lakṣmī-devī lhe deu uma belíssima guirlanda de flores, a qual foi previamente oferecida ao Senhor Nārāyaṇa. Posteriormente, Nārada Ṛṣi avistou Indra, o rei dos céus, aproximando-se daquele local. Muito humildemente, Nārada Ṛṣi disse: “Indra, aceite esta guirlanda; ela é um remanescente do Senhor Nārāyaṇa.”
Indra, por sua vez, tinha grande afeição por seu elefante, Airāvata. Por isso, colocou a guirlanda sobre sua cabeça. No entanto, Airāvata é um animal e não conhecia o valor de uma guirlanda que foi oferecida ao Senhor Nārāyaṇa. Assim, removeu-a da cabeça e a esmagou sob seus pés. Isso é uma ofensa. Como resultado, Indra perdeu sua posição.
Às vezes, os devotos dizem: “Oh, eu não sou qualificado para aceitar essa guirlanda.” Ora, essa guirlanda foi oferecida à Ṭhākurajī; ela é prasāda! Se alguém lhes oferecer uma rasagullā (um delicioso doce indiano), rapidamente eles aceitarão, não é? Centenas de mãos aparecem para pegá-la. Mas, quando se trata da guirlanda, dizem: “Não, não vou pegá-la. Não sou qualificado…”
Quem age dessa maneira é completamente tolo, pois não compreende o valor dessa guirlanda. Alguns dizem: “Não, não. Eu não sou qualificado para recebê-la. Não quero.” Mas, quando é hora de distribuir rasagullā, aí se consideram qualificados. Essa concepção não faz sentido algum. Isso não é dainya (humildade); é uma completa tolice! A guirlanda que lhes foi dada é um remanescente da Ṭhākurajī.
Diariamente, logo pela manhã, o Senhor Caitanya Mahāprabhu costumava ir ao templo do Senhor Jagannātha para receber o darśana (visão) d’Ele. Certo dia, o pūjārī (devoto responsável pela adoração à deidade) deu a escova de dentes de Jagannātha-deva para Mahāprabhu. Posteriormente, Mahāprabhu a entregou para Haridāsa Ṭhākura, que a plantou, dando origem a uma enorme árvore chamada Siddha-bakula.
Isso também é mahā-prasāda ou não é? Vocês podem pensar: “Como isso é possível? Essa é a escova de dentes do Senhor Jagannātha!” Contudo, tudo o que é oferecido ao Senhor torna-se mahā-prasāda. Vocês não conseguem compreender como a mahā-prasāda é transcendental. Tudo o que se oferece a Ṭhākurajī, incluindo flores e guirlandas, torna-se mahā-prasāda; não apenas arroz, dahl (leguminosas), sabjī (vegetais) e rasagullā.
Tentem compreender que tudo isso é transcendental; é mahā-prasāda. Quando a mahā-prasāda era servida, Mahāprabhu chorava incessantemente, repetindo em língua oriya: “phelā, phelā, phelā!” Essa palavra significa “os remanescentes do Senhor”.
Vocês devem ler o Caitanya-caritāmṛta. De acordo com o humor de Caitanya Mahāprabhu, Svarūpa Dāmodara recitava o seguinte verso do Gopī-gītā. Ao ouvi-lo, Mahāprabhu rompia em lágrimas.
jayati te 'dhikaṁ janmanā vrajaḥ
śrayata indirā śaśvad atra hi
dayita dṛśyatāṁ dikṣu tāvakās
tvayi dhṛtāsavas tvāṁ vicinvate
Śrīmad-Bhāgavatam (10.31.1)
[“As gopīs disseram: ‘Ó amado, Teu nascimento na terra de Vraja tornou-a por demais gloriosa, e, em razão disso, Indirā, a deusa da fortuna, sempre reside aqui. É apenas por Ti que nós, Tuas devotadas servas, mantemos nossas vidas. Estivemos procurando por Ti em toda parte, então, por favor, revela-Te a nós.’”]
Mahā-prasāde govinde — a mahā-prasāda é vigraha, a personificação do Senhor, sākṣād-govinda.
īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ
sac-cid-ānanda-vigrahaḥ
anādir ādir govindaḥ
sarva-kāraṇa-kāraṇam
Śrī Brahma-saṁhitā (5.1)
[“Kṛṣṇa, conhecido como Govinda, é a Suprema Personalidade de Deus. Ele possui um corpo espiritual eterno e pleno de bem-aventurança. Ele é a origem de tudo. Ele não tem outra origem e é a causa primordial de todas as causas.”]
Vigraha é transcendental, sac-cid-ānanda. Já nāma-brahmaṇi, os santos nomes, são śabda-brahma, uma vibração transcendental.
nāma cintāmaṇiḥ kṛṣṇaś
caitanya-rasa-vigrahaḥ
pūrṇaḥ śuddho nitya-mukto
’bhinnatvān nāma-nāminoḥ
Śrī Caitanya-caritāmṛta (Madhya 17.133)
[“O santo nome de Kṛṣṇa é transcendentalmente bem-aventurado. Ele concede todas as bênçãos espirituais, pois é o próprio Kṛṣṇa, o reservatório de todo o prazer. O nome de Kṛṣṇa é completo e é a forma de todos os sabores transcendentais. Não é um nome material sob nenhuma condição e não é menos poderoso que o próprio Kṛṣṇa. Como o nome de Kṛṣṇa não é contaminado pelas qualidades materiais, não há questão de estar envolvido com māyā. O nome de Kṛṣṇa é sempre liberado e espiritual; nunca é condicionado pelas leis da natureza material. Isso ocorre porque o nome de Kṛṣṇa e o próprio Kṛṣṇa são idênticos.”]
A palavra “‘bhinnatvān” indica que não há diferença entre os santos nomes e o próprio Śrī Hari. E “nāma cintāmaṇiḥ kṛṣṇaś caitanya-rasa-vigrahaḥ” indica que o santo nome é dotado de bem-aventurança, rasa, ānanda-mayī-bhagavan, e satisfará todos os seus desejos.
Por isso, sempre se lembrem desses quatro elementos: mahā-prasāda, Śrī Govinda, nāma (Seus santos nomes) e os Vaiṣṇavas. Os Vaiṣṇavas são muito poderosos, portanto, dêem o devido respeito a todos eles. Jamais pensem: “Eu sou um Vaiṣṇava”, e sim: “Os outros é que são Vaiṣṇavas.”
‘āmi tô’ vaiṣṇava’—e buddhi hôile, amānī nā ha’bô āmi
pratiṣṭhāśā āsi’, hṛdaya dūṣibe, hôibô niraya-gāmī
Canção Kṛpā Karô Vaiṣṇava Ṭhākura (2), de Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura
[“Se eu cultivar a ideia de que ‘sou um Vaiṣṇava’, jamais me tornarei humilde. Meu coração se contaminará com o desejo de receber honra dos outros, e irei para o inferno.”]
Sempre pensem: “Todos são Vaiṣṇavas; eu não sou.” Se pensarem: “Eu sou um Vaiṣṇava”, não serão capazes de respeitar os outros.
tṛṇād api sunīcena taror iva sahiṣṇunā
amāninā mānadena kīrtanīyaḥ sadā hariḥ
Śikṣāṣṭakam (3)
[“Aquele que se considera inferior a uma folha de grama, que é tolerante como uma árvore, e que não espera honra pessoal, mas está sempre pronto a dar todo o respeito aos outros, pode muito facilmente cantar o santo nome do Senhor.”]
Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa
Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare
Hare Rāma Hare Rāma
Rāma Rāma Hare Hare
Gaura-premānande!
Bolo Vṛndāvana-bihārī lālā kī jaya!
Transcrição: Indu-mohinī devī dāsī (AL)
Verificação de integridade: Rādhā-kṛṣṇa dāsa (SC)
Edição e revisão: Taruṇī-gopī dāsī (SP)


