O advento do Senhor Varāhadeva
- Vana Madhuryam Brasil
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Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja
28 de janeiro de 2018, Brasil
Hoje é Varāha-dvādaśī, o dia do advento do Senhor Varāhadeva. De acordo com a nossa filosofia Vaiṣṇava, hoje deve-se realizar primeiro pūjā (adoração) ao Senhor Varāhadeva e, em seguida, fazer o pāraṇā (quebrar o jejum). Após adorar Śrī Varāhadeva, pode-se tomar caraṇāmṛta (os remanescentes da água que banhou os pés do Senhor Viṣṇu) para quebrar o jejum de Ekādaśī. O que significa arcana ou adoração? Hari-kathā. Se não há hari-kathā (narração e ensinamentos sobre o Senhor), não há sentido algum na adoração.
E amanhã é Nityānanda-trayodaśī, o dia do advento do Senhor Nityānanda, que é baladeva-tattva. Amanhã também seguiremos o jejum de Ekādaśī. Tanto na Índia quanto na Rússia, este é um momento delicado, porque o Ekādaśī está combinado com o Dvādaśī, e no dia seguinte já é Nityānanda-trayodaśī. Isso é realmente difícil de conciliar, e muitos devotos me perguntam: “O que devemos seguir e como devemos jejuar?” É muito simples: observem o Ekādaśī e, no dia seguinte, vocês podem comer algumas frutas.
A maldição dos quatro Kumāras
O Śrīmad-Bhāgavatam descreve como o Senhor Varāhadeva se manifesta da narina do Senhor Brahmā. Todos vocês conhecem essa história, então a descreverei brevemente. Os filhos do Senhor Brahmā, os quatro Kumāras — Sanaka, Sanātana, Sanandana e Sanāt-kumāra — estavam imersos na prática de alcançar o Brahman e desejavam se fundir a ele. Brahmājī temia isso, pois está explicado em nossas escrituras que fundir-se com a refulgência do Senhor pode ser um caminho sem volta. Após refletir: “Meus filhos estudam todas as escrituras diariamente, mas desejam se fundir com o Brahman”, Brahmā orou ao Senhor Viṣṇu: “Ó Prabhu, por favor, proteja os meus filhos!”
Ao ouvir a oração, o Senhor fez com que uma fragrância se espalhasse pelo ar, emanando das folhas de tulasī oferecidas a Seus pés. Essa doce fragrância entrou nas narinas dos quatro Kumāras, e em busca da fonte desse aroma, eles interromperam sua meditação e foram direto para Vaikuṇṭhaloka. Ali, eles encontraram dois guardiões, Jaya e Vijaya, que os detiveram. Os quatro sábios ficaram furiosos e amaldiçoaram os guardiões: “Vocês são como demônios, pois nos impedem de receber o darśana, a visão do Senhor! Qual é a razão disso? Vocês devem ir ao mundo material na forma de demônios!”
Quando os Kumāras proferiram essa maldição, o próprio Senhor Viṣṇu apareceu e, com muita humildade, disse: “Ó Kumāras! Fui Eu, e não Meus servos, que cometi a ofensa, pois as ações de Meus servos são as Minhas ações.” Ao ouvirem tais palavras, os quatro Kumāras ficaram muito envergonhados. Então, os guardiões do portão exclamaram: “Prabhu, o que faremos agora?”
O Senhor Viṣṇu respondeu: “Ó Jaya e Vijaya! Não se preocupem. Na verdade, vocês não cometeram nenhuma ofensa, tudo aconteceu de acordo com a Minha vontade. Certa vez, Eu havia pensado em experimentar todos os tipos de rasas (humores): dāsya (humor de serviço), sakhya (humor de amizade), vātsalya (humor paternal) e madhurya (humor de doçura), mas também desejei saborear o vīra-rasa (humor heroico). Em Vaikuṇṭha, não tenho ninguém com quem lutar, pois todos lá sabem que Eu sou Bhagavān. Eles sempre Me prestam homenagem prostrando-se diante de Mim. Portanto, desejei ir ao mundo material com Meus guardiões para lutar com eles lá. E assim que esse desejo surgiu em Meu coração, Yogamāyā providenciou tudo.”
Śrīla Viśvanātha Cakravartīpāda explica que a energia do desejo de Kṛṣṇa se manifestou pelos lábios dos quatro Kumāras. Caso contrário, como seria possível que brahma-jñānis, os buscadores do conhecimento empírico, se irritassem? O Śrīmad Bhagavad-gītā apresenta um verso que descreve os brahma-jñānis. Eles não são caracterizados por luxúria, inveja e raiva; seus corações não são atraídos por nada material. Eles não são afligidos por nenhum infortúnio, não estão inebriados pela felicidade e não possuem apego ou medo em seus corações. Ademais, Vaikuṇṭha é uma morada livre de luxúria, raiva e coisas do tipo. Então, por que os quatro Kumāras estavam irados com Jaya e Vijaya? Porque esse era o desejo de Kṛṣṇa — kṛṣṇa-icchā.
Outros Purāṇas, de maneira diferente, explicam que o Senhor disse: “Se desejarem retornar a Vaikuṇṭha, terão que nascer devotos por sete vidas ou demônios por três nascimentos.” Jaya e Vijaya pensaram: “Sete vidas é muito tempo! Queremos retornar a Vaikuṇṭha o mais rápido possível. Portanto, aceitaremos o humor dos āsuras (demônios).” Tudo isso é descrito no Garbha-saṃhitā, no Adi-Varāha Purāṇa e em outros Purāṇas.
Assim, Jaya e Vijaya aceitaram este āsura-bhāva, o humor dos demônios, por três nascimentos; em Satya-yuga, eles vieram como Hiraṇyākṣa e Hiraṇyakaśipu, em Tretā-yuga, como Rāvaṇa e Kumbhakarṇa, e em Dvāpara-yuga, como Śiśupāla e Dantavakra. Em Kali-yuga, o misericordioso Senhor Caitanya Mahāprabhu os trouxe consigo como Jagāi e Mādhāi. Desta forma, Jagadānanda Bandyopadhyaya e Mādhavānanda Bandyopadhyaya (seus nomes completos) nasceram como brāhmaṇas (sacerdotes) que logo se tornaram demônios.
O passatempo de Varāha e Hiraṇyākṣa
O Śrīmad-Bhāgavatam descreve que, em Satya-yuga, havia um demônio muito poderoso chamado Hiraṇyākṣa, que dominou todo o universo. Desejando lutar contra Indra, o demônio foi a Svargaloka, mas Indra lhe disse: “Ó Hiraṇyākṣa, escute, eu não sou páreo para você. Você é um leão e eu sou um rato. Um leão deve lutar contra um leão, e um elefante deve lutar contra um elefante.”
Então, Hiraṇyākṣa consultou Nārada Ṛṣi, a quem todos, incluindo os demônios e os Vrajavāsīs (os residentes de Vraja), chamavam de guru. Nārada Ṛṣi lhe disse: “Se você deseja lutar contra Viṣṇu, deve sequestrar aquela que é muito querida por Ele, a divindade que preside a Terra, Pṛthivī-devī. Você deve escondê-la, e então Ele mesmo aparecerá diante de você.” E assim, Hiraṇyākṣa raptou Pṛthivī-devī e a escondeu nas profundezas do oceano.
Todos os semideuses, liderados por Brahmā, começaram a orar ao Senhor Viṣṇu para que Ele salvasse Pṛthivī-devī. Então, uma voz do céu proclamou: “Ó semideuses, não se preocupem! Em breve voltarei, estabelecerei o varṇāśrama-dharma (sistema de castas védico) e matarei todos os demônios.” Diante disso, Brahmājī pensou: “Como o Senhor se manifestará?” Assim, certa manhã, durante o brāhma-muhūrta (período auspicioso antes do nascer do sol), enquanto meditava, pôde-se ver saindo de sua narina algo preto e muito pequeno, do tamanho de uma semente de gergelim. Gradualmente, aquilo cresceu e cresceu até adquirir uma forma gigantesca, cuja parte superior assemelhava-se a um javali, enquanto a parte inferior apresentava a forma humana do Senhor Viṣṇu.
É da natureza do javali ser sensível a odores, e também é peculiar à Terra possuir um odor característico. Assim, Varāhadeva Bhagavān farejou rapidamente onde Pṛthivī-devī estava, mergulhou no oceano e ergueu a Terra, equilibrando-a entre as Suas presas. Enquanto isso, Hiraṇyākṣa descansava, mas quando se deu conta, perturbado pela ação de Varāhadeva, gritou: "Você é um ladrão! Vou matá-lO por roubar meus bens!" Ao ouvir isso, o Senhor Varāhadeva respondeu: "Espere um pouco, eu retornarei em breve!" Assim, o Senhor devolveu Pṛthivī-devī ao local de onde ela havia sido raptada e, em seguida, lutou contra Hiraṇyākṣa até matá-lo. Este kathā é descrito de maneira muito bela e elaborada no Terceiro Canto do Śrīmad-Bhāgavatam.

[Jaya Śrīla Gurudeva kī jaya!]
[Jaya Varāhadeva kī jaya!]
[Jaya jaya Śrī Rādhe!]
Tradução e edição: Taruṇī-gopī dāsī (SP)
Revisão: Vṛndāvana-candra dāsa (SP)
Imagem: Nṛsiṁhānanda dāsa (Russia)


