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As glórias de Śrīla Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī

Foto do escritor: Vana Madhuryam Brasil
Vana Madhuryam Brasil
há 8 minutos
13 min de leitura

Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja

28 de outubro de 2020, Skype


Quando o Senhor Caitanya Mahāprabhu viajou pela Bengala Oriental, chegou  até a casa do pai de Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī, Tapana Miśra. Eles eram uma família de Vaiṣṇavas totalmente rendida aos pés de lótus do Senhor. 


Em uma ocasião, Tapana Miśra perguntou ao Senhor, que naquela época ainda se chamava Nimāi Paṇḍita: “Certa vez, tive um sonho onde estava muito ansioso. Eu tinha uma dúvida, nesta Kali-yuga, o que é sādhana (a prática espiritual) e sādhya (o objetivo a ser alcançado por meio dessa prática)? Não consegui chegar a uma conclusão, e fiquei confuso sobre o que deveria ou não fazer. Então, na noite seguinte, tive outro sonho, onde um brāhmaṇa (sacerdote) apareceu e disse: ‘Oh, Tapana Miśra, não se preocupe, Nimāi Paṇḍita está presente e talvez possa dar a resposta perfeita à sua dúvida.’ Após dizer isso, ele desapareceu.”


sādhya-sādhana-tattva ye kichu sakala

hari-nāma-saṅkīrtane milibe sakala


Caitanya-bhāgavata (Ādi-khaṇḍa 14.143)


[“Tudo o que se refere ao objetivo supremo da vida e ao processo para alcançá-lo será obtido através do cantar dos santos nomes de Hari (harināma-saṅkīrtana).”]


Nesta Kali-Yuga, vocês podem entender tudo por meio dos processos de sādhya, o objetivo espiritual, e sādhana, a prática espiritual de bhakti. Além disso, tudo pode ser compreendido por meio de nāma-saṅkīrtana. 


Antes de viajar pela Bengala Oriental, o Senhor Caitanya Mahāprabhu foi casado com Lakṣmī-priyā. Durante aquele tempo, era chamado de Nimāi Paṇḍita; todos O conheciam por esse nome.


Em suas viagens pela Bengala Oriental, sempre que Nimāi Paṇḍita visitava a casa da família de Śrī Raghunātha Bhaṭṭa, era acolhido com grande entusiasmo e adoração aos Seus pés de lótus. Durante uma visita, Tapana Miśra perguntou a Ele: “Nesta Kali-yuga, quem é nossa iṣṭa-deva, nossa deidade adorável, e quais são nosso sādhya e sādhana?” Ouvindo isso, o Senhor Caitanya Mahāprabhu respondeu: “Você pode compreender tudo através de nāma-saṅkīrtana, pois nesta Kali-yuga não há outro caminho para alcançar o Senhor, apenas nāma-saṅkīrtana.” Ele então recitou o seguinte verso:


kṛte yad dhyāyato viṣṇuṁ 

tretāyāṁ yajato makhaiḥ 

dvāpare paricaryāyāṁ 

kalau tad dhari-kīrtanāt


Śrīmad-Bhāgavatam (12.3.52)


[“Qualquer resultado que se obtivesse em Satya-yuga meditando em Viṣṇu, em Tretā-yuga executando sacrifícios e em Dvāpara-yuga servindo aos pés de lótus do Senhor, pode ser obtido na era de Kali simplesmente cantando o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa.”]


“Kṛte yad dhyāyato viṣṇuṁ” — kṛte significa Satya-yuga, período em que se alcança o Senhor apenas por meditar n’Ele. “Tretāyāṁ yajato makhaiḥ” — em Tretā-yuga, é necessário realizar sacrifícios de fogo. “Dvāpare paricaryāyāṁ” — em Dvāpara-yuga, é recomendado adorar as deidades do Senhor. E “kalau tad dhari-kīrtanāt” — nesta Kali-yuga, o Senhor é alcançado somente através de nāma-saṅkīrtana.


harer nāma harer nāma

harer nāmaiva kevalam

kalau nāsty eva nāsty eva

nāsty eva gatir anyathā


Bṛhan-nāradīya Purāṇa (38.126)


[“Nesta era de discórdia e hipocrisia, o único meio de libertação é o cantar do santo nome do Senhor. Não há outro meio. Não há outro meio. Não há outro meio.”]


Em Kali-yuga, não há outro processo para atingir nossa meta de perfeição mais elevada além de nāma-saṅkīrtana. Dessa forma, o Senhor Caitanya Mahāprabhu disse que, nesta era de Kali, nāma-saṅkīrtana é nosso sādhana e sādhya. Ao realizar nāma-saṅkīrtana, você atingirá a mais elevada perfeição. Por essa razão, Ele recitou este verso no Śikṣāṣṭaka:


ceto-darpaṇa-mārjanaṁ bhava-mahā-dāvāgni-nirvāpaṇaṁ

śreyaḥ-kairava-candrikā-vitaraṇaṁ vidyā-vadhū-jīvanam

ānandāmbudhi-vardhanaṁ prati-padaṁ pūrṇāmṛtāsvādanaṁ

sarvātma-snapanaṁ paraṁ vijayate śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtanam


Śrī Śikṣāṣṭaka (1)


[“Todas as glórias ao śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtana, que limpa o coração de toda a poeira acumulada por anos e extingue o fogo da vida condicionada, de repetidos nascimentos e mortes. Este movimento de saṅkīrtana é a bênção primordial para a humanidade em geral porque difunde os raios da lua da bendição. É a vida de todo o conhecimento transcendental. Ele aumenta o oceano de bem-aventurança transcendental, e nos capacita a saborear plenamente o néctar pelo qual sempre ansiamos.”]


O Senhor Caitanya Mahāprabhu também disse a Tapana Miśra: “Você deve ir a Kāśī. Em breve, irei até lá te encontrar.” Sendo assim, Tapana Miśra deixou a Bengala Oriental e foi a Kāśī. Após aceitar a ordem sannyāsa, mais uma vez o Senhor visitou sua casa. Essa narrativa (kathā) também é mencionada no Caitanya-caritāmṛta.


Agora, falarei um pouco sobre a história de vida de Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī. Como mencionei, ao deixarem a Bengala Oriental, os pais de Raghunātha Bhaṭṭa prosseguiram até Kāśī. Enquanto lá estavam, Raghunātha se recordava dos passatempos de chefe de família (gṛhastha) do Senhor Caitanya Mahāprabhu, e como serviu a Seus pés de lótus.


Em sua viagem a Jagannātha Purī, Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī ficou em dúvida se o Senhor Caitanya Mahāprabhu se lembraria dele ou não. No entanto, quando chegou a Jagannātha Purī vindo de Kāśī, ao vê-lo, Ele o abraçou com muito amor e afeição, perguntando: “Como você está?” 


No Caitanya-caritāmṛta, Śrīla Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī menciona:


daṇḍa-paraṇāma kari’ bhaṭṭa paḍilā caraṇe

prabhu ‘raghunātha’ jāni kailā āliṅgane


Caitanya-caritāmṛta (Antya-līlā 13.101)


[“Raghunātha Bhaṭṭa prostrou-se reto como uma vara aos pés de lótus de Śrī Caitanya Mahāprabhu. Então o Senhor o abraçou, sabendo bem quem ele era.”]


Desse modo, ao abraçar Raghunātha Bhaṭṭa, o Senhor Caitanya Mahāprabhu dissipou todos os maus auspícios (duḥkha) de seu coração. Ao deparar-se com o sorriso de Mahāprabhu, e ouvindo-O perguntar: “Oh, Raghunātha, como você está?”, o coração de Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī derreteu e lágrimas escorreram de seus olhos. Então, segurando os pés de lótus do Senhor Caitanya, ele respondeu: “Oh Prabhu, o Senhor é tão misericordioso e generoso.”


O Senhor Caitanya Mahāprabhu então disse: “Eu fui à sua casa muitos anos antes de aceitar sannyāsa. Naquela época, seus pais Me serviram de uma forma muito amorosa. Eu não esqueço desse amor e afeição, e das variadas preparações que sua mãe fez para Mim.” Desse modo, relembrando Seus passatempos na Bengala Oriental, Ele também começou a glorificar Śrīla Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī diante de todos os Vaiṣṇavas sêniores.


Em seguida, Caitanya Mahāprabhu trouxe um pouco de jagannātha-prasāda (os remanescentes do alimento oferecido ao Senhor Jagannātha) e distribuiu a todos os devotos. Ele também deu um pouco a Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī. Raghunātha havia trazido muitos tipos de preparações para o  Senhor, e isso O agradou muito. 


bhaktera dravya prabhu 'kari' kari' khaya

abhaktera dravya prabhu 'ulati' na caya


[“O Senhor come avidamente os artigos oferecidos por Seu devoto, mas não olha para os artigos oferecidos por um não-devoto.”]


Śrīla Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī era um devoto puro e tinha muito amor e afeição pelo Senhor Caitanya Mahāprabhu. Por isso, o Senhor Caitanya disse ao seu servo pessoal, Govinda: “Você deve guardar toda a prasāda que ele trouxe com muito cuidado, e uma vez por dia, Me oferecer um pouco dela.” Assim, o Senhor demonstrou como ficou feliz com Śrīla Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī, por ele ter trazido todas aquelas preparações de Kāśī.


O Senhor Caitanya também o lembrou: “Seu pai foi muito generoso, e você é um estudioso erudito. Quando estive em sua casa, ele Me perguntou sobre sādhya, sādhana e tattva, e respondi a todas as suas perguntas. Ele também Me contou sobre um sonho que tivera, onde um brāhmaṇa apareceu e lhe disse que uma pessoa não diferente do Senhor Nārāyaṇa iria até sua casa.”


manuṣya nahena teṅho-nara-nārāyaṇa

nara-rūpe līlā tā’rā jagat-kāraṇa


Caitanya-bhāgavata (Ādi-khaṇḍa 14.123)


[“Ele não é um ser humano comum; Ele é o próprio Senhor Supremo, Nara-Nārāyaṇa. Ele manifesta Seus passatempos em forma humana para libertar as pessoas do mundo inteiro.”]


O Senhor Caitanya Mahāprabhu continuou: “Oh Raghunātha Bhaṭṭa, Eu fiquei muito feliz com seus pais. Durante Minha visita, você também serviu Meus pés de lótus. Você quis vir embora comigo, mas Eu disse: ‘Não, você deve ficar aqui e servir seus pais idosos.’ Também o orientei a não se casar e não entrar na vida familiar.”


Dessa forma, Mahāprabhu riu e brincou com ele, deixando Raghunātha Bhaṭṭa muito satisfeito. Se vocês se lembram, durante a jornada de Kāśī até Jagannātha Purī, surgiram muitas dúvidas na mente de Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī. Por isso, o Senhor Caitanya Mahāprabhu espontaneamente começou a lembrá-lo de todos esses kathās, dando a ele Sua misericórdia. 


O Senhor também o orientou: “Oh Raghunātha, você deve voltar para sua casa, já que seus pais ainda estão vivos. Depois que eles partirem deste mundo material, você poderá ir a Vṛndāvana e ficar com Rūpa e Sanātana Gosvāmī.” Essa foi a instrução que Mahāprabhu deu a ele.


O Senhor Caitanya Mahāprabhu, ainda conhecido como Nimāi Paṇḍita, voltou à Bengala Oriental e começou a pregar. Enquanto estava fora de casa, em Navadvīpa-dhāma, Sua esposa Lakṣmī-priyā deixou seu corpo em virtude da viraha (separação) que sentia d’Ele. Ela não pôde tolerar aquilo. 


Externamente, é explicado que Lakṣmī-priyā deixou o corpo por ter sido picada por uma cobra. No entanto, essa concepção não é perfeita. Nossos Gosvāmīs explicam que na verdade, ela deixou o corpo porque não pôde suportar a separação que sentia de Nimāi Paṇḍita. 


Ao retornar e ouvir sobre o ocorrido, o Senhor Caitanya Mahāprabhu permaneceu muito sério por alguns minutos antes de acalmar Sua mãe Śacī-devī e Īśāna Ṭhākura, seu servo, que ficaram muito tristes com a partida dela. Mahāprabhu então tranquilizou-os, dizendo: “Não se preocupem. De acordo com o tempo (kāla), nós nos encontramos e nos separamos. Sarvaṁ kāla-kṛtaṁ manye — tudo acontece de acordo com o kāla.”


Desse modo, o Senhor Caitanya Mahāprabhu, ainda conhecido como Nimāi Paṇḍita, apaziguou Śacīmātā e Īśāna Ṭhākura. Atendendo o desejo de Sua mãe, Ele se casou posteriormente com Viṣṇupriyā-devī. 


Após deixar Sua casa novamente e aceitar sannyāsa, Mahāprabhu foi para Jagannātha Purī, pois Sua mãe Lhe havia instruído: “Nimāi, Você não deve ir para Vṛndāvana-dhāma, pois é muito longe de Navadvīpa. Em vez disso, permaneça em Jagannātha Purī.” Śacīnandana Gaurahari é conhecido como mātṛ-bhakta-śiromaṇi (a joia suprema dentre os filhos devotados às suas mães). Essa foi a razão pela qual Ele permaneceu em Jagannātha Purī.


Após aceitar sannyāsa, Śrīmān Mahāprabhu viajou ao Sul da Índia e a muitos outros lugares. Ao dirigir-se a Vṛndāvana, passou em Kāśī e, mais uma vez, se hospedou na casa de Tapana Miśra. Mesmo enquanto residia na casa de Candraśekhara, em Kāśī, todos os dias, o Senhor ainda tomava a mahā-prasāda proveniente da casa de Tapana Miśra.


Enquanto esteve em Kāśī, Caitanya Mahāprabhu também pregou. No entanto, lá havia muitos māyāvādīs (impersonalistas) que criticavam os Vaiṣṇavas. Mahāprabhu nunca se associou com eles. Após alguns dias, Mahāprabhu seguiu para Vṛndāvana novamente. Após receber o darśana (visão) de Vṛndāvana, Ele retornou a Kāśī, e então concedeu Sua misericórdia aos māyāvādīs que lá estavam. 


No Caitanya-caritāmṛta é explicado que, quando Śrīmān Mahāprabhu chegou a Kāśī dessa vez, Tapana Miśra estava se banhando em Maṇikarṇikā-ghāṭa, no rio Ganges, quando, de repente, ouviu milhares de pessoas cantando os santos nomes. Os Kāśīvāsīs (moradores de Kāśī) estavam completamente imersos no amor divino de nāma-saṅkīrtana.


Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa 

Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare

Hare Rāma Hare Rāma 

Rāma Rāma Hare Hare


Certa vez, Mahārāṣṭra Vipra, com muita humildade, pediu ao Senhor Caitanya Mahāprabhu que tomasse prasāda em sua casa. No entanto Mahāprabhu não se associava com māyāvādīs. Mesmo assim, aquele brāhmaṇa repetidamente pediu ao Senhor Caitanya: “Por favor, tome prasāda em minha casa.” Naquela época, Mahārāṣṭra Vipra havia convidado todos os sannyāsīs māyāvādīs para visitá-lo, incluindo Prakāśānanda Sarasvatī. 


Eventualmente, Mahāprabhu acabou visitando a casa de Mahārāṣṭra Vipra onde, ao discutir e refutar a filosofia de Śaṅkara, concedeu a Sua misericórdia a Prakāśānanda Sarasvatī. Dessa forma, o Senhor Caitanya Mahāprabhu foi misericordioso com todos os Kāśīvāsīs.


Tapana Miśra pediu que o Senhor Caitanya Mahāprabhu ficasse em sua casa por mais alguns dias. No entanto, o Senhor respondeu: “Sou um sannyāsī e devo retornar a Jagannātha Purī.” Śrīla Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī, que naquela época já era um grande estudioso e erudito, pediu novamente ao Senhor: “Prabhu, quero ir com Você.” Mas o Senhor disse: “Raghunātha, seus pais são Vaiṣṇavas e você deve servir seus pés de lótus. Não há necessidade de viajar comigo. Quando eles partirem deste mundo material, vá a Vṛndāvana e fique com Rūpa e Sanātana Gosvāmī.”


Assim, Śrīla Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī recebeu a misericórdia do Senhor Caitanya Mahāprabhu. Poucos anos depois, os pais de Raghunātha Bhaṭṭa abandonaram o corpo e ele seguiu a Jagannātha Purī para encontrar o Senhor Caitanya. Durante sua visita, Śrī Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī trouxe muitas preparações deliciosas ao Senhor.


No caminho para estar com o Senhor, Raghunātha Bhaṭṭa encontrou um estudioso erudito cujo nome era Rāmadāsa. Ele seguiu com Raghunātha até Jagannātha Purī e humildemente lhe disse: “Posso carregar toda sua bagagem em minha cabeça.” Naquela época, não havia conveniências durante as viagens. Ao ir até Jagannātha Purī, a maioria das pessoas viajavam a pé, carregando suas próprias malas. Para fazer esse serviço (sevā), Rāmadāsa carregou todos os pertences de Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī, o servindo com sinceridade durante o trajeto.


Finalmente, Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī chegou a Jagannātha Purī e se deparou com o Senhor Caitanya Mahāprabhu, que lhe disse: “Primeiro, você deve se banhar no oceano.” Somente então, ele teve o darśana do Senhor Jagannātha. 


Mais tarde, Raghunātha ofereceu toda a prasāda que havia trazido ao servo pessoal do Senhor, Govinda. Mahāprabhu ficou muito satisfeito quando viu a variedade das deliciosas preparações trazidas por ele.


Naquela ocasião, Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī permaneceu com o Senhor Caitanya por aproximadamente oito ou nove meses. Durante o festival Ratha-yātrā, Śrī Raghunātha Bhaṭṭa ficou muito surpreso com a maneira como o Śrī Caitanya dançava e cantava em frente ao Senhor Jagannātha. 


Quando o festival da carruagem de Jagannātha é finalizado, os quatro meses seguintes são conhecidos como Cāturmāsya. Durante este período, Śrīla Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī ficou com o Senhor Caitanya e ouviu hari-kathā todos os dias.


Finalmente, Mahāprabhu instruiu Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī a ir até Vṛndāvana. Lá, ele se encontrou com Rūpa e Sanātana Gosvāmī. Junto de Raghunātha, o Senhor Caitanya enviou jagannātha-prasāda, uma enorme guirlanda do Senhor Jagannātha e muitos outros artigos.


Quando Rūpa e Sanātana Gosvāmī ouviram sobre o amor e a afeição oferecidas pelo Senhor Caitanya Mahāprabhu, ficaram completamente absortos no humor de separação d’Ele e abraçaram Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī.


Raghunātha Bhaṭṭa dava palestras sobre o Bhāgavatam, e as melodias que ele entoava eram especialmente doces. Sua voz soava como kokila-kaṇṭha, o doce som emanado por um pássaro cuco. Todas as vezes em que recitava os ślokas do Śrīmad-Bhāgavatam em diferentes melodias, todos ficavam encantados. E por essa razão, ocasionalmente, Rūpa e Sanātana também compareciam para escutar seu bhāgavata-kathā.


No Caitanya-caritāmṛta, Śrīla Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī disse:


rūpa-gosāñira sabhāya karena bhāgavata-paṭhana

bhāgavata paḍite preme āulāya tāṅra mana


Caitanya-caritāmṛta (Antya-līlā 13.126)


[“Na assembleia de Śrīla Rūpa Gosvāmī, Raghunātha Bhaṭṭa costumava recitar o Śrīmad-Bhāgavatam. Ao recitá-lo, sua mente ficava absorta em amor extático por Kṛṣṇa.”]


aśru, kampa, gadgada prabhura kṛpāte

netra kaṇṭha rodhe bāṣpa, nā pāre paḍite


Caitanya-caritāmṛta (Antya-līlā 13.127)


[“Pela misericórdia de Śrī Caitanya Mahāprabhu, ele manifestou os sintomas extáticos de lágrimas, tremores e voz embargada. Seus olhos se enchiam de lágrimas e sua garganta ficava tão embargada que ele não conseguia recitar.”]


Neste verso, Śrīla Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī explica que, às vezes, Rūpa e Sanātana iam ouvir o bhāgavata-kathā de Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī. Quando Raghunātha narrava os textos do Śrīmad-Bhāgavatam sobre Kṛṣṇa, seu coração derretia-se por completo, lágrimas escorriam de seus olhos e, eventualmente, sua garganta ficava completamente embargada, impossibilitando-o de ler os ślokas.


Conforme citado anteriormente, quando Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī recitava os versos do Śrīmad-Bhāgavatam, utilizava três ou quatro melodias diferentes. Por meio de suas doces narrações, muitas pessoas eram atraídas pelo seu bhāgavata-kathā.


Entre nossos seis Gosvāmīs, Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī é um dos mais queridos entre todos os devotos. Śrīnivāsa Ācārya compôs esse verso no Śrī Ṣaḍ-gosvāmī-aṣṭaka:


saṅkhyā-pūrvaka-nāma-gāna-natibhiḥ kālāvasānī-kṛtau

nidrāhāra-vihārakādi-vijitau cātyanta-dīnau ca yau

rādhā-kṛṣṇa-guṇa-smṛter madhurimānandena sammohitau

vande rūpa-sanātanau raghu-yugau śrī-jīva-gopālakau


Śrī Ṣaḍ-gosvāmī-aṣṭaka (6)


[“Eles passavam o tempo recitando diariamente um número fixo de nomes sagrados, cantando canções específicas e oferecendo reverências prescritas [a santos, divindades e aos locais dos passatempos do Senhor]. Dessa forma, conquistaram plenamente os impulsos de comer, dormir, buscar recreação e assim por diante. Considerando-se sempre infinitamente humildes e insignificantes, eles se deixavam arrebatar por um doce êxtase ao recordar as qualidades de Śrī Śrī Rādhā-Kṛṣṇa. Eu adoro Śrī Rūpa, Sanātana, Raghunātha Bhaṭṭa, Raghunātha dāsa, Jīva e Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmīs.”]


Nossos Gosvāmīs, como Śrīla Rūpa Gosvāmīpāda, Śrīla Sanātana Gosvāmīpāda, Śrīla Raghunātha dāsa Gosvāmīpāda e Śrīla Jīva Gosvāmīpāda escreveram muitos livros. No entanto, não temos nenhum livro escrito por Śrīla Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī. Nós apenas ouvimos falar sobre como era perito em proferir hari-kathā e como todos ficavam completamente absortos ao ouvi-lo. Sabemos também que Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī teve discípulos. Um deles, muito abastado, construiu o templo Śrī Govindadeva.


Certa vez, Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī estava discorrendo sobre o Śrīmad-Bhāgavatam, falando especialmente sobre divya-unmāda-daśā, a loucura transcendental de Śrīmatī Rādhikā. Ele recitou versos do Bhramara-gītā em várias melodias e glorificou esse tópico de diferentes formas. Todos que o ouviam demonstravam sinais extáticos de prema, ficando completamente inebriados, com lágrimas escorrendo pelo rosto e com os pêlos do corpo arrepiados. Contudo, nada parecia se manifestar no coração ou no corpo de Śrīla Rūpa Gosvāmī.


Certo dia, um estudioso erudito (paṇḍita) perguntou a um devoto: “Ouvimos dizer que Śrīla Rūpa Gosvāmīpāda é um Vaiṣṇava muito proeminente, um mahā-bhāgavata. Mas quando ele ouviu o kathā dos lábios de lótus de Śrīla Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī, seu coração não derreteu. Lágrimas não rolaram pelo seu rosto, nem nada similar.” E o devoto respondeu: “Você não conhece o coração de Śrīla Rūpa Gosvāmī. Para compreendê-lo, na próxima vez em que Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī proferir seu kathā, traga um pedaço de algodão e coloque-o sob o nariz de Rūpa Gosvāmī.” 


Assim, o erudito procedeu exatamente conforme instruído. Surpreendentemente, o calor que saía pelas narinas de Śrīla Rūpa Gosvāmī fez com que o pedaço de algodão queimasse de imediato. Esse episódio ilustra a intensidade incalculável de viraha (o sentimento transcendental de separação) em seu corpo, a ponto de o fogo desse anseio interior consumir o algodão em chamas. Após a surpresa, aquele paṇḍita se rendeu completamente aos pés de Rūpa Gosvāmīpāda e Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmīpāda. 


Há diversos passatempos dos nossos Gosvāmīs como estes para serem narrados. Vale a pena citar, em especial, como Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī sempre se lembrava das instruções de Mahāprabhu.


grāmya-vārtā nā śune, nā kahe jihvāya

kṛṣṇa-kathā-pūjādite aṣṭa-prahara yāya


Caitanya-caritāmṛta (Antya-līlā 13.132)


[“Raghunātha Bhaṭṭa não ouvia nem falava sobre nada do mundo material. Ele simplesmente discutia sobre Kṛṣṇa e adorava o Senhor dia e noite.”]


Śrīla Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī jamais discorria sobre tópicos mundanos, e nunca usou sua língua para criticar os Vaiṣṇavas. Ele apenas adorava sua Ṭhākurajī, dia e noite. Ele estava completamente absorto em kṛṣṇa-kathā (nas narrativas acerca de Kṛṣṇa) e kṛṣṇa-pūjā (na adoração de Kṛṣṇa), e era particularmente perito em falar sobre o Śrīmad-Bhāgavatāmṛtam.


nigama-kalpa-taror galitaṁ phalaṁ

śuka-mukhād amṛta-drava-saṁyutam

pibata bhāgavataṁ rasam ālayam

muhur aho rasikā bhuvi bhāvukāḥ


Śrīmad-Bhāgavatam (1.1.3)


[“Ó homens perspicazes e pensativos, saboreai o Śrīmad-Bhāgavatam, o fruto maduro da árvore-dos-desejos das literaturas védicas. Ele foi emanado dos lábios de Śrī Śukadeva Gosvāmī. Portanto, este fruto tornou-se ainda mais saboroso, embora seu néctar já fosse palatável a todas as almas liberadas.”]


tava kathāmṛtaṁ tapta-jīvanaṁ

kavibhir īḍitaṁ kalmaṣāpaham

śravaṇa-maṅgalaṁ śrīmad ātataṁ

bhuvi gṛṇanti ye bhūri-dā janāḥ


Śrīmad-Bhāgavatam (10.31.9)


[“O néctar de Vossas palavras e as descrições de Vossas atividades são a própria vida das pessoas que sofrem neste mundo material. Estas narrações, transmitidas pelos sábios avançados, erradicam os resultados pecaminosos de alguém e outorgam boa fortuna a todo aquele que as ouve. Tais narrações são amplamente difundidas por todo o mundo e são repletas de poder espiritual. Certamente, aqueles que propagam a mensagem de Deus são os mais bondosos.”]


Sendo assim, dia e noite, Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī permanecia absorto nas narrativas nectárias do Śrīmad-Bhāgavatam. Ele também adorava sua Ṭhākurajī em sua forma transcendental constitucional (siddha-deha-paricaya). É dito na Gaura-gaṇoddeśa-dīpikā:


raghunāthākhyako bhaṭṭaḥ purā yā rāga-mañjarī

kṛta-śrī-rādhikā-kuṇḍa-kuṭīra-vasatiḥ sa tu


Śrī Gaura-gaṇoddeśa-dīpikā (185)


[“Aquele que era Rāga-mañjarī no passatempo de Vraja apareceu nesta era como Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī, que estabeleceu sua morada em uma cabana às margens de Śrī Rādhā-kuṇḍa.”]


O texto sagrado Gaura-gaṇoddeśa-dīpikā menciona que, nos passatempos transcendentais de Rādhā e Kṛṣṇa, Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī é Rāga Mañjarī, e nos passatempos de Mahāprabhu, ele é Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī. 


Eu oro a todos os Vaiṣṇavas para que, um dia, eu realize bhajana e sādhana como Raghunātha Bhaṭṭa Gosvāmī e Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī.


Gaura Premānande! Hari Hari Bol!

Bolo Vṛndāvana-bihārī Lāla kī jaya!


Transmissão ao vivo: GurudevTV

Transcrição em inglês: Vana Madhuryam Official

Tradução: Ānanda-mohinī devī dāsī (RJ)

Edição e diacríticos: Taruṇī-gopī dāsī (SP)

Revisão: Mālinī devī dāsī (RJ)


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