As glórias de Śrīla Haridāsa Ṭhākura

Śrīla Bhaktivedanta Vana Gosvāmī Mahārāja
6 de setembro de 2017, Filipinas
Hoje eu falarei sobre as glórias de Śrīla Haridāsa Ṭhākura. O Senhor Caitanya Mahāprabhu deu a ele o título de nāmācārya — o ācārya dos santos nomes. Haridāsa Ṭhākura era completamente rendido aos pés de lótus de Śrī Caitanya Mahāprabhu. Ele cantava três lākhas de śuddha-nāma (300 mil santos nomes puros) todos os dias. Dessa forma, Śrī Caitanya Mahāprabhu pregou os santos nomes para ele.
Mesmo que Haridāsa tenha nascido em uma família muçulmana, uma família de yavanas, ele é tido como o mais elevado brāhmaṇa. Por essa razão, Mahāprabhu o chamava de “Brahmā Haridāsa”. Ele é, na verdade, a forma combinada de Prahlāda Mahārāja e Brahmā. Na Satya-yuga, Prahlāda apareceu, e posteriormente, ele e Brahmā se manifestaram juntos como Haridāsa Ṭhākura.
Na Dvāpara-yuga, Brahmājī cometeu uma ofensa aos pés de lótus de Kṛṣṇa. O Śrīmad-Bhagavatam descreve isso na govatsa-haraṇa-līlā, passatempo em que Brahmājī rouba os amigos e bezerros de Kṛṣṇa. Esse doce passatempo foi narrado a Parīkṣit Mahārāja por Śukadeva Gosvāmīpāda. Tal ocasião também é conhecida como brahmā-vimohana-līlā. Nela, Brahmājī descreve os graciosos passatempos de Kṛṣṇa após ser completamente confundido por Ele.
Quando Kṛṣṇa libertou Aghāsura, a ātmā (alma) daquele demônio entrou em Suas unhas dos pés. Ao presenciar isso, Brahmājī compreendeu que Kṛṣṇa é Bhagavān. Nossas escrituras explicam que os demônios mortos pelo Senhor Hari entram nas unhas dos pés d'Ele.
Quando Kṛṣṇa realizou uma doce līlā com os Seus amigos, onde Ele pegava o restante dos alimentos deles, a mente de Brahmājī ficou muito agitada, pois nossas escrituras explicam que o Senhor não aceita os remanescentes de outras pessoas. Pelo contrário, os devotos do Senhor, tais como Nārada Ṛṣi, o Senhor Śiva e até mesmo Lakṣmī-devī, estão sempre ávidos por receber Seus remanentes.
Certa vez, Nārada Ṛṣi foi a Vaikuṇṭha. O Senhor Nārāyaṇa havia acabado de tomar prasāda, e Lakṣmī-devī, então, deu a Nārada Ṛṣi um pouco dos remanescentes do Senhor. Após honrar aquela prasāda, ele ficou completamente inebriado pelos doces santos nomes.
nārada muni, bājāya vīṇā rādhikā-ramaṇa-nāme
nāma amani udita haya, bhakata-gīta-sāme
Canção Nārada Muni Bājāya Vīṇā (1), de Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura
[“Quando a grande alma Nārada Muni toca sua vīṇā, o santo nome, Rādhikā-ramaṇa, desce e aparece imediatamente no meio do kīrtana dos devotos do Senhor.”]
Mais tarde, quando Nārada chegou a Kailāsa, ainda estava completamente extasiado, cantando os santos nomes. O Senhor Śiva então lhe perguntou: "Prabhu, hoje você está tão maravilhado pelo cantar dos santos nomes. O que houve?" E Nārada Ṛṣi respondeu: "Hoje eu fui a Vaikuṇṭha, e Lakṣmī-devi me deu alguns remanescentes do Senhor Viṣṇu. É por isso que estou assim.”
Śivajī lhe pediu: "Por favor, me dê alguma sobra do Senhor Viṣṇu!” Mas Nārada respondeu: "Eu já honrei tudo, não sobrou nada..." Havia um pedaço minúsculo de mahā-prasāda nas unhas de Nārada Ṛṣi. Percebendo isso, o Senhor Śiva disse: "Vejo que ainda sobrou um pouco na sua mão. Me dê esse remanescente do Senhor Nārāyaṇa."
Assim, por ingerir um pedacinho dos restos do Senhor, Śivajī também ficou tomado de êxtase enquanto dançava e cantava os santos nomes. Ele rolava no chão, às vezes chorando, às vezes gargalhando. O amor puro, prema, havia se manifestado em seu coração. Isso ocorreu porque os remanescentes do Senhor Nārāyaṇa são muito poderosos.
bhakta-pāda-dhūli āra bhakta-pāda-jala
bhakta-bhukta-avaśeṣa, — tina mahā-bala
ei tina-sevā haite kṛṣṇa-premā haya
punaḥ punaḥ sarva-śāstre phukāriyā kaya
Śrī Caitanya-caritāmṛta (Antya-līlā, 16.60)
[“A poeira dos pés do devoto, a água que lavou os pés do devoto e os remanescentes de comida deixados por um devoto são três substâncias muito poderosas.”]
Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī disse: "Ó, meu querido amigo, peço que, com fé firme, aceite a poeira dos pés dos devotos puros ou Vaiṣṇavas; a água que banha seus pés, caraṇāmṛta; e a mahā-mahā-prasāda.” Esses três elementos são muito importantes, e todas as nossas escrituras os glorificam. Se vocês os aceitarem com fé firme, kṛṣṇa-prema automaticamente se manifestará em seus corações.
Quando se oferece um alimento ao Senhor ou a Ṭhākurajī e Ele o aceita, esse alimento é chamado de mahā-prasāda. E, após um devoto puro honrar esta mahā-prasāda, os remanescentes dela são então chamados de mahā-mahā-bhāgavata-prasāda. Isso é muito poderoso.
Os remanentes do Senhor Viṣṇu que Nārada Ṛṣi deu ao Senhor Śiva eram mahā-mahā-prasāda, pois Nārada Ṛṣi havia primeiro honrado a mahā-prasāda do Senhor Nārāyaṇa e, depois, oferecido o restante ao Senhor Śiva. Ao tomar aquela mahā-mahā-prasāda, Śivajī ficou tomado pelo êxtase.
Naquele meio tempo, Pārvatī-devī, a consorte do Senhor Śiva, chegou e perguntou a ele: "Ó, meu marido, hoje você está tão maravilhado enquanto canta os santos nomes… Está dançando, cantando e rolando no chão. O que aconteceu?" E o Senhor Śiva respondeu: "Hoje eu tomei os remanescentes do Senhor Viṣṇu."
Devī Pārvatī indagou: "Eu sou sua esposa, por que não guardou um pouco para mim?" "Nārada me deu tão pouco que eu acabei honrando tudo", respondeu Śivajī. Ao ouvir isso, Devī Pārvatī ficou furiosíssima e o amaldiçoou: "Apesar de ser meu esposo, você não guardou nenhum pouco dos remanescentes do Senhor Nārāyaṇa para mim! Pois, de agora em diante, ninguém mais aceitará os seus remanescentes!" Nossas escrituras descrevem esse passatempo com mais detalhes.
Observem quão poderosa é a mahā-prasāda — os remanescentes do Senhor Viṣṇu! Quando um bhakta puro honra essa mahā-prasāda, seus remanentes passam a ser chamados de mahā-mahā-prasāda. Isso é bhakta-adharāmṛta, o néctar dos lábios do devoto puro.
Certa vez, em nossa Śrī Rūpa-Sanātana Gauḍīya Maṭha, um brahmacārī foi possuído por um fantasma, que lhe disse: “Eu só irei embora se você me der a água que banhou os pés de Śrīla Vāmana Gosvāmī Mahārāja.” Naquele momento, o brahmacārī respondeu: “Mas ele não vem a Vṛndāvana há muitos anos, talvez uns cinco ou seis anos!” O fantasma então disse: “Não. Há sete anos, Vāmana Gosvāmī Mahārāja veio a Vṛndāvana, e um Bābājī Mahārāja adorou seus pés de lótus. A água que banhou seus pés ainda está no quarto dele. Dê-me essa água; somente então eu deixarei você.”
Logo em seguida, o brahmacārī deu ao fantasma a água que havia banhado os pés de Śrīla Vāmana Gosvāmī Mahārāja. Ao bebê-la, ele foi liberado deste mundo material e nunca mais retornou ao nosso templo. É cem por cento garantido que, se vocês aceitarem os três elementos supracitados com fé firme (viśvāsa), bhakti se desenvolverá em seus corações.
A ofensa que Brahmājī cometeu
Retornando à história, ao presenciar Kṛṣṇa aceitando os remanescentes de Seus amigos, Brahmājī ficou agitado, pois algumas dúvidas haviam surgido em sua mente. Quando, mais tarde, Kṛṣṇa disse aos Seus amigos: “Sentem-se aqui, pois vou procurar os bezerros”, e saiu, Brahmājī rapidamente roubou os vaqueirinhos e os escondeu em uma caverna. Ao retornar ao local, Kṛṣṇa não avistou mais ninguém. Observem como Kṛṣṇa realiza Seus passatempos como um ser humano. Ele pensou: "Onde estão meus amigos e bezerros?"
Após esconder todos eles em uma caverna, Brahmā retornou para sua morada, Satyaloka, também conhecida como Brahmāloka. Todavia, antes de ele chegar, Kṛṣṇa manifestou-Se como Brahmā e chegou primeiro. Nessa forma, Ele disse ao porteiro: “Ei, se alguém vier até aqui, não permita que entre em Meu palácio.”
Alguns minutos depois, o Brahmājī original chegou, e o porteiro perguntou: “Quem é você?” “Eu sou Brahmā. Sou o dono deste lugar”, respondeu Brahmā. O porteiro disse: “Não, não. Você não é o nosso mestre. Ele acabou de entrar e nos instruiu a não permitir a entrada de ninguém.” Brahmājī respondeu: “Mas eu sou Brahmā!” E o porteiro então disse: “Você não é Brahmā coisa nenhuma! Vá embora!”
Isso deixou Brahmājī perplexo. Ele pensou: “Quem veio aqui se passando por mim?” O seu próprio porteiro não o reconheceu nem permitiu que ele entrasse em seu palácio. Atônito, Brahmājī pensou: “O que acabou de acontecer?”
Brahmājī então retornou ao local em que Kṛṣṇa estava realizando Sua doce līlā com Seus vaqueirinhos e, para sua surpresa, viu que Kṛṣṇa estava pastoreando os bezerros com todos eles! Sua mente ficou ainda mais agitada, e ele pensou: “Como isso é possível?”
Vocês devem saber que Brahmājī possui quatro cabeças. Com duas delas, ele olhou para a montanha onde os amigos de Kṛṣṇa e os bezerros estavam, e imediatamente percebeu que eles ainda estavam inconscientes dentro da caverna. Ao mesmo tempo, com as outras duas cabeças, Brahmājī via Kṛṣṇa pastoreando os mesmos bezerros com os mesmos amigos. Após presenciar isso, a mente de Brahmājī ficou ainda mais confusa. Mas, finalmente, ele compreendeu: “Oh, Kṛṣṇa é Bhagavān!”
Anteriormente, Brahmājī pensava: “Kṛṣṇa não passa de um vaqueirinho comum.” Saṁśayātmā vinaśyati [Bg. 4.40] — na Śrīmad Bhagavad-gītā, Kṛṣṇa disse a Arjuna: “Se você duvidar de Guru e Kṛṣṇa, perderá tudo.” Jamais duvidem deles.
Brahmājī então começou a pensar: “O que farei agora? Cometi uma ofensa aos pés de lótus de Kṛṣṇa!” Afinal, ele pensava que Kṛṣṇa era apenas um vaqueirinho comum, mas agora finalmente compreendeu que Kṛṣṇa é Bhagavān.
Brahmājī rapidamente prestou suas reverências aos pés de lótus de Kṛṣṇa e ofereceu-Lhe inúmeras orações (stutis): “Naumīḍya te ’bhra-vapuṣe…” Mas ainda assim, Kṛṣṇa não lhe deu muita atenção.
Brahmājī recitou muitos ślokas (versos) e glorificações dos Vrajavāsīs. Ele disse:
aho bhāgyam aho bhāgyaṁ
nanda-gopa-vrajaukasām
yan-mitraṁ paramānandaṁ
pūrṇaṁ brahma sanātanam
Śrīmad-Bhagavatam (10.14.32)
[“Oh, quão afortunado é Nanda Mahārāja, os vaqueirinhos e todos os outros habitantes de Vrajabhūmi! Não há limites para sua boa fortuna, porque a Verdade Absoluta, a fonte de toda a bem-aventurança transcendental, o eterno Supremo Brahmān, tornou-se amigo deles.”]
Brahmājī disse: "Oh, como os Vrajavāsīs, os residentes de Vraja, são afortunados!" Apesar de Kṛṣṇa ser conhecido como Pūrṇa-brahma e Sanātana-puruṣa, os Vrajavāsīs nutrem uma amizade com Ele como se fosse um membro de suas famílias. Subala e Śrīdāma consideram Kṛṣṇa como seu amigo; Nanda e Yaśodā acreditam que Kṛṣṇa é o seu filho; e as gopīs vêem Kṛṣṇa como o seu amado.
Brahmājī recitou o verso “aho bhāgyam” repetidas vezes. Esse śloka é muito proeminente. Ao ouvi-lo, Kṛṣṇa deu um leve sorriso, e Brahmājī compreendeu: “Oh, agora Kṛṣṇa está satisfeito comigo!”
Brahmājī rapidamente realizou um parikramā (circumambulação) em volta de Kṛṣṇa. O parikramā em volta do Senhor Viṣṇu deve ser realizado quatro vezes. Porém, Brahmājī estava com tanto medo que rodeou Kṛṣṇa apenas três vezes e partiu. Contudo, antes de ele partir, Kṛṣṇa manifestou Sua forma de quatro braços, segurando a śaṅkha, cakra, gadā e padma. Isso ocorreu porque o iṣṭa-deva (a deidade adorável) de Brahmājī é Garbhodakaśāyī Viṣṇu, cuja forma possui quatro braços, nos quais Ele segura esses itens.
Quando Brahmājī roubou os amigos e os bezerros de Kṛṣṇa, o próprio Kṛṣṇa Se manifestou na forma de cada um deles. Por isso, Brahmājī também viu todos eles assumindo formas de quatro braços, pois eram, na verdade, o próprio Viṣṇu. Brahmājī então se prostrou e prestou inúmeras reverências aos pés de lótus de Kṛṣṇa, compreendendo que Ele é a Suprema Personalidade de Deus, Svayaṁ Bhagavān.
No Śrīmad-Bhagavatam, Vyāsadeva Gosvāmī escreveu:
ete cāṁśa-kalāḥ puṁsaḥ
kṛṣṇas tu bhagavān svayam
indrāri-vyākulaṁ lokaṁ
mṛḍayanti yuge yuge
Śrīmad-Bhagavatam (1.3.28)
[“Todas as manifestações mencionadas acima são porções plenárias ou porções de porções plenárias do Senhor. Mas o Senhor Śrī Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus original. Todas elas aparecem no planeta sempre que existe alguma perturbação criada pelos ateístas. O Senhor encarna para proteger os teístas.”]
Kṛṣṇa é Svayaṁ Bhagavān, a Suprema Personalidade de Deus. Esse passatempo é lindo e doce. Agora, explicarei um outro aspecto dessa brahmā-vimohana-līlā. Na verdade, Brahmājī não roubou os bezerros e os vaqueirinhos, pois eles são eternos e transcendentais. Como seria possível que Brahmājī os roubasse?
Nossos Gosvāmīs explicam que, quando Brahmājī tentou roubá-los, por um arranjo de Yogamāyā, eles desapareceram, e Yogamāyā manifestou outros bezerros e vaqueirinhos no lugar deles. Brahmājī pensou que estava roubando os amigos originais de Kṛṣṇa, mas isso não seria possível.
No Rāmāyaṇa, Rāvaṇa não sequestrou Sītā-devī, pois a Sītā original entrou no fogo e foi para os Himalaias, onde ficou com Pārvatī-devī. Yogamāyā manifestou outra Sītā, chamada Chāyā Sītā, ou a forma ilusória de Sītā, e foi ela quem Rāvaṇa raptou. Rāvaṇa acreditava que havia sequestrado a consorte de Rāma, mas isso não era real. Da mesma forma, Brahmājī não sequestrou os verdadeiros amigos e bezerros de Kṛṣṇa.
Independentemente disso, Brahmājī estava arrependido por sua ofensa (aparādha). Embora Kṛṣṇa lhe tivesse concedido Sua misericórdia, Brahmājī ainda pensava: “Eu sou um ofensor. O que farei agora?” Então, Brahmājī foi para Śvetadvīpa-dhāma, Navadvīpa-dhāma, onde realizou severas austeridades.
Nossas escrituras explicam que, se vocês forem para Navadvīpa-dhāma, todas as suas atividades pecaminosas serão automaticamente destruídas e vocês obterão śuddha-bhakti, a devoção pura. Por isso, Navadvīpa-dhāma também é conhecida como aparādha-bhañjana-pāṭa (o local onde as ofensas são destruídas). Quão poderosa é Navadvīpa-dhāma! Por essa razão, Brahmājī foi para lá e realizou severas austeridades para o Senhor Kṛṣṇa.
Foi então que Kṛṣṇa apareceu diante de Brahmājī e disse: “Ó, Brahmā, estou satisfeito com as suas árduas austeridades.” Brahmājī respondeu: “Se está feliz, conceda-me uma bênção.” “O que você deseja?”, perguntou Kṛṣṇa. Brahmājī disse: “Como posso ajudá-lO em Suas līlās? Como posso servi-lO?”
Kṛṣṇa respondeu: “Após a Dvāpara-yuga, na Kali-yuga, Me manifestarei como Śrī Śacīnandana Gaurahari, aqui em Navadvīpa-dhāma. Neste período, você Me ajudará a pregar o nāma-saṅkīrtana. Você pregará os Meus santos nomes.”
Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa
Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare
Hare Rāma Hare Rāma
Rāma Rāma Hare Hare
Quando Brahmājī visualizou a forma de Kṛṣṇa e do Senhor Caitanya Mahāprabhu, repetidamente prestou reverências diante de Seus pés. Brahmājī disse: “Prabhu, eu sempre estarei com Você e O servirei, pregando o nāma-saṅkīrtana. No entanto, quero outra bênção de Você. Não quero nascer em uma família de brāhmaṇas. Por favor, conceda-me um nascimento em uma família de classe baixa, em uma família mleccha. Assim, servirei muito humildemente aos Seus pés de lótus e pregarei Seus santos nomes.”
Após ouvir o pedido, Kṛṣṇa respondeu: “Eu lhe dou essa bênção.” Por essa razão, Brahmājī apareceu nesta Kali-yuga na forma de Haridāsa Ṭhākura, que nasceu em uma família muçulmana. Brahmājī fez esse pedido porque pensava: “Se eu nascer em uma família muçulmana, certamente serei muito humilde.” Assim, Yogamāyā providenciou para que ele nascesse em uma família muçulmana, e Prahlāda Mahārāja se combinaria com ele na forma de Śrīla Haridāsa Ṭhākura.
A especialidade da morada de Gaura
Haridāsa Ṭhākura está eternamente presente nas līlās do Senhor Caitanya Mahāprabhu em Śvetadvīpa como um de Seus companheiros. Śvetadvīpa-dhāma é Navadvīpa-dhāma. De um lado, acontecem os passatempos de Kṛṣṇa em Vṛndāvana, e no outro, os passatempos de Gaura em Navadvīpa. Isso é comparado a uma moeda, que, apesar de possuir dois lados, faz parte de um só elemento.
Quando o Senhor realiza a sua doce līlā em Vṛndāvana, Se manifesta em sua forma original, Kṛṣṇa. Ele então manifesta a Sua potência interna, Śrīmatī Rādhikā, e Ela manifesta todas as gopīs. As līlās em Vṛndāvana são conhecidas como passatempos de encontro, enquanto as de Caitanya Mahāprabhu em Śvetadvīpa-dhāma são de separação (vipralambha).
Existe uma especialidade em gaura-līlā: se o sādhaka (praticante) for para o dhāma (morada) de Gaurasundara e lá permanecer por apenas uma noite, todas as suas ofensas serão automaticamente aniquiladas. O próprio Mahāprabhu disse: “Se alguém vier à Minha morada, conhecida como aparādha-bhañjana-pāṭa, todas as suas ofensas serão destruídas.”
Navadvīpa-dhāma não é diferente de Vṛndāvana; ela é chamada de Gupta-vṛndāvana, a “Vṛndāvana oculta”. Tudo o que existe em Vṛndāvana-dhāma está presente em Navadvīpa-dhāma. Se vocês forem para Vṛndāvana, poderão ver Girirāja Govardhana, o Rādhā-kuṇḍa e o Śyāma-kuṇḍa. E, se forem para Navadvīpa-dhāma, poderão vê-los também. Tudo está lá, até o rio Yamunā.
Entretanto, Navadvīpa-dhāma possui um aspecto singular: tanto o rio Ganges quanto o rio Yamunā estão presentes lá, e aquele rio Ganges em particular chama-se Mānasī-gaṅgā. Em Vṛndāvana, existe apenas o rio Yamunā. Apesar de não existir diferença entre Vṛndāvana-dhāma e Navadvīpa-dhāma, há essa particularidade em Navadvīpa.
Caitanya Mahāprabhu é a manifestação da magnanimidade e da munificência. Ele concede Sua misericórdia para todos. Se vocês visitarem somente Navadvīpa-dhāma, kṛṣṇa-prema, o amor puro por Kṛṣṇa, se manifestará em seus corações, e todas as suas atividades pecaminosas serão destruídas instantaneamente.
Nos Purāṇas é descrita a belíssima história a seguir: certa vez, o filho de um sādhu (santo) adorou a Ṭhākurajī, oferecendo-Lhe folhas de tulasī. No entanto, ele não lavou as folhas antes de oferecê-las. Então, seu pai lhe perguntou: “Como você pôde oferecer as folhas de tulasī sem lavá-las? Isso é uma ofensa!” O pai o amaldiçoou: “Você terá que nascer em uma família muçulmana. Assim, quando oferecer folhas de tulasī à Ṭhākurajī, terá que lavá-las cuidadosamente.” Nos Purāṇas é mencionado que, por essa razão, o filho desse ṛṣi (sábio) também participou da līlā de Haridāsa Ṭhākura.
Śrīla Haridāsa Ṭhākura e os santos nomes
Haridāsa Ṭhākura nasceu em uma família muçulmana na vila de Burongran. Mas, apesar de suas origens, desde a infância, ele estava sempre absorto no cantar dos santos nomes.
Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa
Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare
Hare Rāma Hare Rāma
Rāma Rāma Hare Hare
Os muçulmanos lhe perguntavam: “Ei, Haridāsa! Por que você canta o nome das deidades hindus?” Haridāsa Ṭhākura, de forma simples, respondia: “Estes são os nomes do Senhor. Tais nomes não pertencem aos hindus, muçulmanos ou cristãos, pois o Senhor não pertence a nenhuma casta ou raça. Seus nomes são inumeráveis.”
Os nomes do Senhor são ananta — ilimitados. Vocês podem chamá-lO de Rāma, Kṛṣṇa, Hari, Brahmā, Paramātmā, Alá ou Deus. Todavia, esses nomes são classificados em duas categorias: a primária e a secundária. Kṛṣṇa e Hari são nomes primários, enquanto Deus e Alá são nomes secundários. De qualquer modo, vocês podem chamá-lO por qualquer um desses nomes.
Darei um exemplo: vocês possuem um nome que receberam no nascimento, o qual consta em seu passaporte. No entanto, também possuem um apelido. Se eu chamar vocês por qualquer um desses nomes, vocês responderão. Isso é algo simples de entender. Da mesma maneira, Deus possui inúmeros nomes. Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura compôs a canção "Harināma Tuwa Aneka Svarūpa", que diz: “Ó Harināma, Você se manifesta de muitas maneiras.” Esses nomes não são diferentes do próprio Senhor.
nāma cintāmaṇiḥ kṛṣṇaś caitanya-rasa-vigrahaḥ
pūrṇaḥ śuddho nitya-mukto ’bhinnatvān nāma-nāminoḥ
Caitanya-caritāmṛta (Madhya-līlā, 17.133)
[“O santo nome de Kṛṣṇa é transcendentalmente cheio de bem-aventurança. Ele concede todos os tipos de bênçãos espirituais, pois é o próprio Kṛṣṇa, o reservatório de todo o prazer. O nome de Kṛṣṇa é completo e é a forma de todas as doçuras transcendentais. Não é um nome material sob nenhuma circunstância, e não é menos poderoso que o próprio Kṛṣṇa. Já que o nome de Kṛṣṇa não é contaminado de nenhuma forma por qualidades materiais, não existe envolvimento com Māyā. O nome de Kṛṣṇa é eternamente liberto e espiritual, e nunca é condicionado pelas leis da natureza material. Isso é porque o nome de Kṛṣṇa e Kṛṣṇa são idênticos.”]
Não há diferença entre os santos nomes e o próprio Śrī Hari, cujo corpo é composto por sat-cit-ānanda.
īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ
sac-cid-ānanda-vigrahaḥ
anādir ādir govindaḥ
sarva-kāraṇa-kāraṇam
Brahma-saṁhitā (5.1)
[“Kṛṣṇa, que é conhecido como Govinda, é a Suprema Personalidade de Deus. Ele possui um corpo eterno e cheio de bem-aventurança. Ele é a origem de tudo. Ele não tem nenhuma outra origem e é a causa primária de todas as causas.”]
O corpo das almas condicionadas e os seus nomes são diferentes. No entanto, o nome de Kṛṣṇa e o próprio Kṛṣṇa são iguais. Não há diferença entre Eles, e vocês podem chamar o Senhor por qualquer um de Seus nomes.
Haridāsa Ṭhākura disse: “Os nomes de Deus são inumeráveis, ananta-nāma. No entanto, eu gosto de cantar aqueles nomes que são doces.” São eles: "Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare, Hare Rāma Hare Rāma, Rāma Rāma Hare Hare", que significam: "Rādhe Kṛṣṇa Rādhe Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa Rādhe Rādhe, Rādhe Śyāma Rādhe Śyāma, Śyāma Śyāma Rādhe Rādhe."
Śrīla Sanātana Gosvāmīpāda também menciona os seguintes doces nomes do Senhor no livro Bṛhad-bhāgavatāmṛta:
śrī kṛṣṇa gopāla hare mukunda
govinda he nanda-kiśora kṛṣṇa
hā śrī yaśodā-tanaya prasīda
śrī ballavī jīvana rādhikeśa
[“Ó Śrī Kṛṣṇa! Gopāla! Hari! Mukunda! Govinda! O Nanda-kiśora Kṛṣṇa! Ó amado filho de Yaśodā, fique satisfeito comigo! Ó vida das gopīs! O Senhor de Rādhikā!”]
Apesar de Haridāsa Ṭhākura falar para os muçulmanos que Deus não pertence aos hindus, cristãos ou muçulmanos, e que transcende casta e raça, eles responderam: “Não, você deve cantar apenas o nome de Alá.” No entanto, Haridāsa Ṭhākura insistiu: “Eu desejo cantar os doces nomes do Senhor.” O que “Hare Kṛṣṇa” significa? Eles são a forma combinada de Rādhā e Kṛṣṇa.
Diante disso, os muçulmanos ficaram muito bravos. Tomados pelo fanatismo religioso, eles disseram: “Não! Cante somente o nome de Alá!” Mas Haridāsa Ṭhākura permaneceu firme: “Cantarei rādhā-kṛṣṇa-nāma, pois esses nomes possuem doçura (mādhurya).”
Os muçulmanos então espancaram Haridāsa Ṭhākura, que, ainda assim, de forma ousada, declarou: “Mesmo que vocês me cortem em pedaços, não pararei de cantar os santos nomes!”
khaṇḍa khaṇḍa hai deha yāya yadi prāṇa
tabu āmi vadane nā chāḍi hari-nāma
Caitanya-bhāgavata (Ādi-līlā, 16.93)
[“Mesmo se vocês cortarem meu corpo em pedaços e tirarem a minha vida, eu nunca vou parar de cantar os santos nomes do Senhor Hari!”]
Haridāsa Ṭhākura possuía nāma-niṣṭhā, uma fé muito firme nos santos nomes. Eu sempre digo: “Jamais abandonem harināma ou o guru. Cantem os santos nomes.”
O próprio Mahāprabhu disse:
ceto-darpaṇa-mārjanaṁ bhava-mahā-dāvāgni-nirvāpaṇaṁ
śreyaḥ-kairava-candrikā-vitaraṇaṁ vidyā-vadhū-jīvanam
ānandāmbudhi-vardhanaṁ prati-padaṁ pūrṇāmṛtāsvādanaṁ
sarvātma-snapanaṁ paraṁ vijayate śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtanam
Śrī Śikṣāṣṭakam (1)
[“Glórias para o śrī-kṛṣṇa-saṅkīrtana, que limpa o coração de toda a poeira acumulada por anos e extingue o fogo da existência material de repetidos nascimentos e mortes. Esse movimento saṅkīrtana é a bênção primordial para toda a humanidade porque se espalha como os raios da lua de bênçãos. E é essa a vida de todo o conhecimento transcendental. Ele aumenta o oceano de eterna bem-aventurança transcendental e nos permite provar verdadeiramente o néctar pelo qual estamos sempre ansiosos.”]
Todas as glórias ao harināma e ao nāma-saṅkīrtana! Isso é muito poderoso, especialmente nesta Kali-yuga.
harer nāma harer nāma harer nāmaiva kevalam
kalau nāsty eva nāsty eva nāsty eva gatir anyathā
Bṛhan-nāradīya Purāṇa (38.126)
[“Nesta era de hipocrisia e desavenças, o único meio de salvação é o cantar dos santos nomes do Senhor. Não há outra maneira. Não há outra maneira. Não há outra maneira.”]
Nesta Kali-yuga, só é possível alcançar o Senhor pelo cantar dos santos nomes, e não por meio de processos como karma (atividades fruitivas), jñāna (conhecimento que conduz à libertação impessoal), yoga (disciplina espiritual para conectar o indivíduo ao Supremo) e tapasya (austeridades). Por isso, cantem os santos nomes.
No Śikṣāṣṭakam, Mahāprabhu menciona que não há regras para cantar os santos nomes. Vocês podem fazê-lo em qualquer momento, até mesmo se o seu corpo estiver impuro.
nāmnām akāri bahudhā nija-sarva-śaktis
tatrārpitā niyamitaḥ smaraṇe na kālaḥ
etādṛśī tava kṛpā bhagavan mamāpi
durdaivam īdṛśam ihājani nānurāgaḥ
Śikṣāṣṭaka (2), Śrī Caitanya Mahāprabhu
["Ó Bhagavān, Seus santos nomes concedem toda a auspiciosidade aos seres vivos. Portanto, para o benefício deles, Você manifesta eternamente Seus inumeráveis nomes, tais como Rāma, Nārāyaṇa, Kṛṣṇa, Mukunda, Mādhava, Govinda, Dāmodara e assim por diante.
Você investiu esses nomes com todas as potências de Suas respectivas formas pessoais. Por Sua misericórdia imotivada, Você nem sequer impôs restrições ao canto e à lembrança desses nomes, como ocorre com o sandhyā-vandana, que deve ser recitado somente em determinados horários do dia. Em outras palavras, o santo nome pode ser cantado e lembrado a qualquer hora do dia ou da noite. Essa é a provisão que Você fez.
Ó Senhor, essa é Sua misericórdia imotivada para com os seres vivos. Ainda assim, sou tão desafortunado, devido às ofensas que cometi, que não despertei nenhuma atração por Seu santo nome, que é tão facilmente acessível e concede toda a boa fortuna."]
Especialmente nesta Kali-yuga, o Senhor investiu toda a Sua potência, śakti, em Seu santo nome. Na verdade, esses nomes são superiores ao próprio Śrī Hari, porque Ele investiu toda a Sua potência neles. Quando vocês forem dormir, em suas camas, cantem os santos nomes. Conforme mencionado, não há regras para cantá-los.
Voltando à história, os muçulmanos ficaram muito bravos com Haridāsa Ṭhākura. Eles gritaram: “Não! Você deve cantar 'Alá'! Apenas ‘Alá’!” E o espancaram ao longo de vinte e dois mercados. Mas, apesar de estar sendo agredido, Haridāsa Ṭhākura dizia: “Vocês podem me bater! Mesmo se cortarem meu corpo em pedaços, não conseguirei parar de cantar os santos nomes.”
Talvez amanhã continuaremos com as glorificações de Haridāsa Ṭhākura e dos santos nomes, nāma-mahimā, pois isso é muito poderoso. Observem como Haridāsa Ṭhākura estabeleceu nāma-niṣṭhā, a firmeza no cantar os santos nomes. Aqueles que os cantam são superiores a um sāmavedī-brāhmaṇa.
aho bata śva-paco ’to garīyān
yaj-jihvāgre vartate nāma tubhyam
tepus tapas te juhuvuḥ sasnur āryā
brahmānūcur nāma gṛṇanti ye te
Śrīmad-Bhagavatam (3.33.70)
[“Ó meu Senhor! As pessoas que cantam os santos nomes de Vossa Onipotência são muitíssimo avançadas na vida espiritual, mesmo que tenham nascido em famílias de comedores de cães. Essas pessoas sem dúvida executaram todos os tipos de austeridades e sacrifícios, banharam-se em todos os lugares sagrados e concluíram todos os estudos das escrituras.”]
O próprio Kṛṣṇa falou para Arjuna no Ādi Purāṇa: “Ó Arjuna, se alguém canta o Meu santo nome, isso significa que ele adorou Minha deidade de Vāsudeva por cem nascimentos.” Por isso, quem canta os santos nomes é superior a um brāhmaṇa, mesmo que seja um muçulmano.
Portanto, lembrem-se de sempre cantar os santos nomes com fé firme.
Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa
Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare
Hare Rāma Hare Rāma
Rāma Rāma Hare Hare
Bolo Nāmācārya Śrīla Haridāsa Ṭhākura kī jaya!
Gaurasundara Gaurahari kī jaya!
Gaura Premānande! Hari Hari Bol!
Créditos e referências
Tradução: Mañjarī-priyā devī dāsī (SP)
Edição: Taruṇī-gopī dāsī (SP)
Revisão: Acyuta-priyā devī dāsī (SP) e Mālinī devī dāsī (RJ)


