O advento de Sītā-devī
- Vana Madhuryam Brasil
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Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja
30 de abril de 2016, Skype
Quando se sente prema (amor), tolerar a saudade é muito complicado. Esse tópico é belamente descrito no Rāmāyaṇa e no Rāma-carita-mānasa. No Rāma-carita-mānasa, é dito que, quando Hanumān retornou de Laṅkā, trouxe consigo uma mensagem de Sītā-devī.
Rāmacandra perguntou a Hanumān: “Ó Hanumān, você viu minha consorte Sītā-devī? Ela está viva? Creio que você a viu.” Mas Hanumān indagou: “Prabhu, por que o Senhor faz essa pergunta?” Em resposta, Rāmacandra disse: “Ó Hanumān, esta história é sobre prema. Se priya e priya-jana — o amante e a amada, ou a esposa e o marido — estão separados, eles não conseguem tolerar a distância um do outro.”
akaitava kṛṣṇa-prema, yena jāmbūnada-hema,
sei premā nṛloke nā haya
yadi haya tāra yoga, nā haya tabe viyoga,
viyoga haile keha nā jīyaya
Śrī Caitanya-caritāmṛta (Madhya-līlā 2.430)
[“O amor puro por Kṛṣṇa, assim como o ouro do rio Jambu, não existe na sociedade humana. Se existisse, não poderia haver separação. E se houvesse separação, não seria possível viver.”]
No Caitanya-caritāmṛta, Śrīla Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī explica: “Yadi haya tāra yoga — uma vez que o amante e o amado se encontram, é impossível que se separem.” Eles não toleram nem sobrevivem separados um do outro. Esses tópicos são muito bem explicados na história de Jayadeva Gosvāmī e sua casta esposa Padmavatī-devī. A história deles é belíssima.
Certa vez, Jayadeva Gosvāmīpada saiu de casa para cumprir uma tarefa. Naquela época, ele era um grande sabhā-kavi (um poeta da corte real) de Lakṣmaṇā Sena. Contarei essa história brevemente, pois é muito bonita.
O teste de Padmavatī
Naquela época, Jayadeva Gosvāmīpada deixou sua casa para cumprir uma missão real. O rei o enviou a um lugar específico para realizar esse trabalho por cerca de três ou quatro dias. A casta esposa de Jayadeva Gosvāmīpada, Padmavatī-devī, então conheceu a rainha, esposa do rei Lakṣmaṇā Sena, que demonstrou muito amor e afeição por ela.
Em certa ocasião, Padmavatī-devī estava glorificando o significado de ser uma esposa casta. Ela explicou à rainha: “Uma esposa casta não consegue suportar ouvir a notícia da morte de seu marido. Se ela ouvir isso, terá que abandonar seu corpo.” A rainha ficou surpresa ao ouvir isso e disse: “Como isso é possível? Suas vidas são separadas, e você está dizendo que uma mulher casta não pode suportar a separação de seu cônjuge falecido?”
Padmavatī-devī respondeu: “Sim, o que estou dizendo é verdade. Uma mulher casta não consegue suportar a notícia de que seu marido morreu, porque um é o próprio ar vital do outro. Por sentirem tanto amor e afeição um pelo outro, uma esposa assim não pode suportar a ausência do marido.”
Essa declaração fez a rainha refletir por um instante: “Muito bem, Padmavatī. Você sempre glorifica a castidade. Vou testar o quanto de amor e afeição você tem por seu marido e ver como você tolerará a ausência dele.” Então, certo dia, Padmavatī-devī estava sentada sozinha quando a rainha chegou com uma mensagem: “Venha, seu marido faleceu.” Ela simplesmente lançou essa notícia sobre Padmavatī-devī.
Quando Padmavatī-devī soube que seu marido, Jayadeva Gosvāmīpada, havia falecido, fechou os olhos e, devido à separação dele, também deixou seu corpo. Ao presenciar isso, a rainha ficou chocada e lamentou: "Oh, talvez eu tenha cometido uma ofensa!" Então, ela enviou uma mensagem ao rei, informando-o de tudo o que havia acontecido. Pouco depois, quando Jayadeva Gosvāmīpada retornou, eles o informaram do ocorrido. Então, Jayadeva Gosvāmīpada foi até o corpo de sua falecida esposa e, simplesmente colocando a mão sobre a cabeça de Padmavatī-devī, ela instantaneamente retornou ao seu corpo.
Essa história mostra o grau do amor e afeição que uma mulher casta sente por seu marido. Há muito amor e afeição entre eles; seus corpos podem ser dois, mas suas almas são como se fossem uma só. Desta forma, em relação às nossas vidas espirituais, também se explica que, quando o prema se manifesta, a separação é muito difícil.
Como Sītā-devī manteve sua vida
“Yadi haya tara yoga, nā haya tabe viyoga, viyoga haile keha nā jīyaya.” Se vocês se encontrarem com Kṛṣṇa uma única vez, jamais desejarão estar longe d’Ele. E, caso se separarem d’Ele, não conseguirão permanecer vivos — terão de morrer.
A conclusão deste śloka (verso) é evidente na história de Rāmacandra e Sītā-devī. Conforme mencionado anteriormente, Rāmacandra disse a Hanumān: “Como Sītā-devī poderá sobreviver sem Mim? Se durante a Minha ausência, até mesmo Meu pai Daśaratha Mahārāja partiu, Ela haverá de partir também.”
Quando Rāmacandra deixou Ayodhyā para exilar-Se na floresta, Seu pai não suportou a saudade d’Ele. Daśaratha Mahārāja exclamou: “Ha Rāma! Ha Rāma! Ha Rāma!” e abandonou seu corpo. Rāmacandra continuou: “Se nem mesmo Meu pai conseguiu tolerar estar longe de Mim, como Minha esposa Sītā-devī poderá tolerar isso? Como ela poderá sobreviver?” Por isso, Rāmacandra perguntou a Hanumān: “Você viu o cadáver de Minha esposa Sītā-devī ou ela está viva?”
Naquela ocasião, Hanumān gentilmente proferiu as seguintes palavras:
nāma pāharū divasa nisi dhyāna tumhāra kapāṭa,
nija pada locana jaṁtrita jāhiṃ prāna kehi bāṭa
Rāma-carita-mānasa (Sundara-kāṇḍa, 30)
[“‘Seu nome’, disse Hanumān, ‘é o vigia que a guarda dia e noite; a contemplação que Ela tem por Você é o portão; Seus olhos fixos em Seus pés são os grilhões; por qual porta, então, a vida d’Ela pode escapar?’”]
No Rāma-carita-mānasa, Tulasī dāsa elucidou muito bem como Sītā-devī protegia Seu ar vital e o mantinha dentro de Seu corpo, e Hanumānjī explica isso de forma muito doce neste poema em hindi.
Hanumānjī disse: “Ó, meu Mestre, Senhor Rāmacandra, Você sabe de tudo. Contudo, visando loka-śikṣā, o ensinamento para os demais, eu responderei. Sītā-devī não consegue manter o ar vital em Seu corpo e sobreviver. Ela deseja morrer, mas isso não é possível. Por quê? “Nāma pāharū divasa nisi” — porque, dia e noite, Ela canta rāma-nama, o Seu doce nome. As duas sílabas, ‘rā’ e ‘ma’ são como guardiões que protegem o ar vital da mãe Sītā-devī.”
Hanumān continuou: “A palavra ‘pāharū’ significa ‘guarda de segurança’, e 'dhyāna tumhāra kapāṭa' significa que a mente de Sītā-devī está ocupada meditando em Você. Já ‘kapāṭa’ significa ‘porta’, a qual impede que o ar vital de Sītā-devī escape de Seu corpo. Por fim, ‘nija pada locana’ indica que os olhos de Sītā-devī estão completamente concentrados nos pés de lótus do Senhor Rāmacandra. Esta é a fechadura da porta.”
Com essas três medidas de segurança em vigor, como o ar vital de Sītā-devī poderia sair de seu corpo? Como seria possível entrar em uma casa com três sistemas de segurança ou três obstáculos, como dois porteiros, um portão e uma fechadura? Similarmente, Sītā-devī deseja entregar Seu ar vital, mas, ao cantar rāma-nama, meditar no Senhor e concentrar Seus olhos nos pés de lótus de Rāmacandra, Ela não podia fazê-lo. Dessa maneira, Tulasī dāsa explicou esse conceito.
Portanto, como poderia o ar vital de Sītā-devī escapar de Seu corpo? Por qual caminho ele poderia escapar? A conclusão é que, uma vez que um amante encontra sua amada, é impossível que se separem. Uddhava também explicou esse tattva-siddhānta (conceito filosófico):
viraheṇa mahā-bhāgā
mahān me 'nugrahaḥ kṛtaḥ
Śrīmad-Bhāgavatam (10.47.27)
[“Ó gloriosas gopīs! De fato, ao demonstrarem seu amor por Kṛṣṇa mesmo estando longe d’Ele, vocês me concederam uma grande misericórdia.”]
Na verdade, foi Yogamāyā quem se manifestou na língua de Uddhava quando ele proferiu as seguintes palavras às gopīs: “Viraheṇa mahā-bhāgā mahān me 'nugrahaḥ kṛtaḥ — Ó vraja-devī-gana, vocês estão sentindo viraha, saudade de Kṛṣṇa, mas essa separação não é verdadeira. Por meio desse sentimento, misericordiosamente, vocês estão apenas me mostrando quanto amor e afeição sentem por Ele.”
Conforme mencionei anteriormente, é durante o período de viraha (separação) que vocês são capazes de mensurar a natureza do amor e afeição que sentem por seu iṣṭa-deva, sua Deidade adorável, pois ao encontrá-lO, talvez não consigam mensurar isso. O próprio Kṛṣṇa compartilhou essa história com as gopīs. Ele disse: “Yathā dūra-care preṣṭhe”, que significa que uma mulher casta sempre se lembrará de seu marido enquanto estiver longe dele. Assim, durante o estado de viraha, ambos se encontram. É por isso que viraha nutre o encontro. Tentem compreender isso.
Jaya Sītā-devī kī jaya!
Jaya Bhagavān Rāmacandra kī jaya!
Gaura-premānande! Hari Haribol!
Tradução e edição: Taruṇī-gopī dāsī (SP)
Revisão: Rādhā-kṛṣṇa dāsa (SC)
Imagem: Navīn-kṛṣṇa dāsa (Holanda)


