top of page

As glórias de Śrīla Jīva Gosvāmī

  • Foto do escritor: Vana Madhuryam Brasil
    Vana Madhuryam Brasil
  • 22 de dez. de 2025
  • 16 min de leitura

Atualizado: 22 de dez. de 2025


Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja

28 de dezembro de 2014, Brasil


Hoje é o dia da partida transcendental de Śrīla Jīva Gosvāmīpāda, um Vaiṣṇava proeminente entre os Seis Gosvāmīs. Por isso, falarei sobre a história de sua vida e suas contribuições.


vaiṣṇavera guṇa gāna

karile jīvera trāṇa 


[“Ao glorificar as qualidades dos Vaiṣṇavas, o ser vivo alcança a libertação do cativeiro da existência material.”]


Nossos Seis Gosvāmīs — Śrīla Rūpa Gosvāmī, Śrīla Sanātana Gosvāmī, Śrīla Bhaṭṭa Raghunātha Gosvāmī, Śrīla Gopāla Bhaṭṭa Gosvāmī, Śrīla Dāsa Raghunātha Gosvāmī e Śrī Jīva Gosvāmī — são os nitya-parikaras, os companheiros eternos do Senhor Caitanya Mahāprabhu, a quem serviram com sinceridade, cumprindo plenamente todos os desejos de Seu coração.


A fé inabalável de Anupama no Senhor Rāma


Quando Śrī Caitanya Mahāprabhu estava a caminho de Vṛndāvana, Ele encontrou, em Rāmakeli, na Bengala, duas grandes personalidades: Śrīla Rūpa Gosvāmī e Śrīla Sanātana Gosvāmī. Rūpa e Sanātana realizavam suas práticas espirituais, bhajana e sādhana, juntamente com seu irmão Vallabha, a quem Śrī Caitanya Mahāprabhu se referia carinhosamente como Anupama. 


Anupama era o pai de Śrīla Jīva Gosvāmī, que, naquela época, tinha apenas seis ou sete anos de idade. Durante suas práticas de bhajana e sādhana, Anupama estava sempre absorto no Senhor Rāmacandra. Entretanto, certa vez, ele foi aconselhado por seus irmãos, Rūpa e Sanātana, a realizar bhajana e sādhana para Kṛṣṇa, pois Ele é a Suprema Personalidade de Deus.


De acordo com o rasa-vicāra, a análise das qualidades e dos relacionamentos transcendentais, Rāmacandra é uma manifestação do Senhor e, segundo as escrituras, não há diferença ontológica entre Rāma e Kṛṣṇa. Entretanto, do ponto de vista do rasa-siddhānta, a conclusão final sobre os humores espirituais, existem algumas especialidades encontradas apenas em Śrī Kṛṣṇa. Por esse motivo, Rūpa e Sanātana aconselharam Anupama a realizar bhajana e sādhana a Kṛṣṇa.


Sanātana Gosvāmīpāda explicou a Anupama as sessenta e quatro qualidades de Kṛṣṇa, das quais quatro são extraordinárias: rūpa-mādhurya, a doçura de Sua forma; līlā-mādhurya, a doçura de Seus passatempos; prema-mādhurya, a doçura de Seu amor; e veṇu-mādhurya, a doçura do som de Sua flauta. Kṛṣṇa é conhecido como līlā-puruṣottama, o Senhor dos doces passatempos. Ele realiza essas līlās que ultrapassam as regras e regulamentos formais descritos nas escrituras e seguidos pela sociedade. Por outro lado, o Senhor Rāmacandra é conhecido como maryādā-puruṣottama, o exemplo perfeito de conduta ideal na sociedade. Por isso, Ele segue rigorosamente o vidhi, ou seja, as regras e regulamentos estabelecidos nas escrituras.


A natureza incomparável dos passatempos de Kṛṣṇa é claramente revelada quando Ele executa a rāsa-līlā com Suas gopīs, as jovens donzelas de Vraja. Ao tocar Sua flauta, Kṛṣṇa inebria os corações de todos, fazendo-os dançar espontaneamente. Por essa razão, os Vrajavāsīs tradicionalmente cantam:


rādhā nāce kṛṣṇa nāce nāce gopī gaṇa

man mero van gaia re sakhī pāvana vṛndāvana


Canção Rādhā Nāce Krsna Nāce (1) 


[“Rādhā está dançando, Kṛṣṇa está dançando, e o grupo de gopīs está

dançando. Minha mente foi para a floresta, ó sakhī! Foi para a tão

pura Vṛndāvana.”]


Kṛṣṇa é rasa-rasikaṁ, aquele que aprecia as doçuras, e rasa-bihārī, aquele que aprecia a dança da rāsa. Por isso, Ele executa Sua doce rāsa-līlā com as gopīs. Rāmacandra, por outro lado, é muito sério e segue rigorosamente todas as regras e regulamentos da sociedade. Assim, Rūpa e Sanātana Gosvāmī instruíram seu irmão a realizar kṛṣṇa-bhajana. Como resultado dessa glorificação de Kṛṣṇacandra por seus irmãos mais velhos, Anupama concordou em direcionar sua bhakti a Ele.


Contudo, durante a noite, enquanto tentava meditar sobre Kṛṣṇa e Suas līlās, a mente de Anupama ficava muito perturbada. Vez ou outra, seu foco se voltava para sua iṣṭa-deva (deidade adorável), o Senhor Rāmacandra. Como resultado, Anupama chorava muito. Na manhã seguinte, Sanātana Gosvāmīpāda entrou no quarto de seu irmão mais novo, que segurou seus pés de lótus e disse: “Irmão, não consigo realizar bhajana e sādhana para Kṛṣṇa, pois minha iṣṭa-deva é Rāmacandra.”


‘raghunāthera pāda-padme veciyāchoṅ māthā

kāḍite nā pāroṅ māthā, pāṅa baḍa vyathā


Śrī Caitanya-caritāmṛta (Antya-līlā 4.40)


[“Vendi minha cabeça aos pés de lótus do Senhor Rāmacandra. Não posso retirá-la de lá. Isso seria doloroso demais para mim.”]


Nesse verso, Śrīla Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī explicou o que Anupama disse a Sanātana Gosvāmīpāda. Por fim, Sanātana Gosvāmī respondeu: “Anupama, se sua iṣṭa-deva é Rāma, então você não precisa realizar bhajana e sādhana para Kṛṣṇa, mas sim para Sītā-Rāma.” Isso demonstra como Anupama, o pai de Jīva Gosvāmī, era profundamente devotado à sua iṣṭa-deva, o Senhor Rāmacandra.


A essência desse ensinamento é que nosso bhajana e sādhana se desenvolverá quando niṣṭhā, uma fé inabalável e unidirecional, se desenvolver pelo guru e pelo nāma, os nomes de Deus. Para cantar os santos nomes intensamente é necessário nāma-niṣṭhā. Apenas quando houver nāma-niṣṭhā, guru-niṣṭhā e iṣṭa-deva-niṣṭhā, nosso bhajana e sādhana se aprofundará ainda mais.


O encontro de Śrīla Jīva Gosvāmī e Nityānanda Prabhu


Durante a juventude de Jīva Gosvāmī, seu pai faleceu, e ele passou a morar com sua família paterna. Sendo uma personalidade muito inteligente e talentosa, em poucos anos ele aprendeu os Vedas, Purāṇas, Upaniṣads e todas as demais escrituras. Posteriormente, Jīva Gosvāmī conheceu Nityānanda Prabhu e, juntos, realizaram parikramā, peregrinação, em Navadvīpa-dhāma. No livro Śrī Navadvīpa-dhāma-māhātmya, Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura glorifica esse passatempo, bem como as conversas mais íntimas e profundas que eles tiveram.


Jīva Gosvāmīpāda também recebeu a misericórdia de Viṣṇupriya-devī, a consorte do Senhor Caitanya Mahāprabhu. Após o parikramā de Navadvīpa-dhāma, Nityānanda Prabhu disse: “Ó Jīva, ouça! Não há diferença entre Navadvīpa e Vṛndāvana.” A especialidade de Navadvīpa-dhāma é Navadvīpa-candra, Gaurasundara. Sua morada sagrada, o dhāma, é extremamente misericordiosa e magnânima, e todas as aparādhas, ofensas, são destruídas ao visitá-la.


ārādhitam nava-vanam vraja-kānanam te 

nārādhitam nava-vanaṁ vraja eva dūre

ārādhito dvija-suto vraja-nāgaras te 

nārādhito dvija-suto na taveha kṛṣṇaḥ


Navadvīpa-śataka (78), de Prabodhānanda Sarasvatī


[“Se você adorar as nove ilhas de Navadvīpa, estará, na verdade, adorando Vṛndāvana, e poderá facilmente entrar nesse local confidencial. Se você não adorar e não se abrigar em Navadvīpa-dhāma, Vṛndāvana estará muito longe de você. Se alguém adorar dvija-suta (Śrī Caitanya Mahāprabhu), o filho do brāhmaṇa Jagannātha Miśra, essa pessoa alcançará vraja-nagara Śrī Kṛṣṇa em Vṛndāvana. Se alguém adora Śrī Caitanya Mahāprabhu, que na verdade é o próprio Kṛṣṇa, em Navadvīpa, está realizando uma adoração completa a Kṛṣṇa. Adorar Śacīnandana Gaurahari em Navadvīpa é tão bom quanto adorar Kṛṣṇa em Vṛndāvana. Se a pessoa não adorar o dvija-suta Gaurahari, o Senhor Kṛṣṇa estará muito distante.”]


Neste verso, Prabodhānanda Sarasvatīpāda glorifica magnificamente Navadvīpa-dhāma. “Ārādhitam nava-vanam” significa que aquele que adora Navadvīpa-dhāma alcançará Vṛndāvana-dhāma com grande facilidade. “Nārādhitam nava-vanam” indica que aquele que não adora Navadvīpa-dhāma está muito distante de Vṛndāvana-dhāma e não pode alcançá-la por nenhum outro método. E “ārādhito dvija-suto” afirma que aquele que adora Śacīnandana Gaurahari alcançará com facilidade Kṛṣṇa, o amado das gopīs.


Navadvīpa-dhāma é repleta de misericórdia


Primeiramente, é necessário buscar abrigo em Navadvīpa-dhāma e em Navadvīpa-candra, Śacīnandana Gaurahari. Isso é especialmente importante nesta Kali-yuga, a quarta era da cronologia védica. Brahmā cometeu uma ofensa durante as līlās de Kṛṣṇa em Vṛndāvana e, para se purificar dessa ofensa, foi a Navadvīpa-dhāma, onde realizou bhajana e sādhana. Gaura-dhāma e gaura-nāma são extremamente sagrados e auspiciosos. Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī explica:


‘kṛṣṇa-nāma’ kare aparādhera vicāra 

kṛṣṇa balile aparādhīra nā haya vikāra


Śrī Caitanya-caritāmṛta (Ādi-līlā 8.24)


[“Há ofensas a se evitar enquanto se canta o mantra Hare Kṛṣṇa. Portanto, não se fica em êxtase simplesmente por se cantar Hare Kṛṣṇa.”]


caitanya-nityānande nāhi e-saba vicāra

nāma laite prema dena, vahe aśrudhāra


Śrī Caitanya-caritāmṛta (Ādi-līlā 8.31)


[“Todavia, se alguém apenas canta, com um pouco de fé, os santos nomes do Senhor Caitanya e Nityānanda, livra-se muito rapidamente de todas as ofensas. Assim, quando canta o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa, sente o êxtase do amor a Deus.”]


Ao cantar kṛṣṇa-nāma — “Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare, Hare Rāma Hare Rāma, Rāma Rāma Hare Hare” — deve-se considerar as dez ofensas contra os santos nomes, conhecidas como daśa-vidha nāma-aparādha. Dentre elas, as três primeiras são especialmente proeminentes: (1) satāṁ nindā, considerar que os semideuses, ou mesmo Śiva, são iguais a Kṛṣṇa; (2) acreditar que os nomes de Kṛṣṇa são iguais aos nomes de Śiva; e (3) guror avajñā, ignorar ou desobedecer o guru


Kṛṣṇa e kṛṣṇa-nāma são únicos e insondáveis. Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī explicou no verso anterior: “caitanya-nityānande nāhi e-saba vicāra.” Sem essa compreensão, é impossível alcançar os pés de lótus de Nityānanda Prabhu e Śrī Caitanya Mahāprabhu. Se uma pessoa cantar gaura-nāma de forma simples, kṛṣṇa-prema, o amor puro por Kṛṣṇa, se manifestará em seu coração. Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura expressou esse ensinamento em uma bela canção, na qual diz: 


‘dayāl nitāi caitanya’ bô’le nāc re āmār man

nāc re āmār man, nāc re āmār man


Canção ‘Dayāl Nitāi Caitanya’ Bô’le (1), de Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura


[“Cante os santos nomes do misericordioso Nitāi e de Caitanya e dance, minha querida mente, dance. Ó mente, simplesmente dance.”]


Śrīla Jīva Gosvāmī segue em direção a Vṛndāvana


Enquanto Jīva Gosvāmī realizava o Navadvīpa-dhāma parikrama, Nityānanda Prabhu lhe disse: “Ó Jīva, você deve ir a Vṛndāvana e permanecer com seus tios, Rūpa e Sanātana.” Obedecendo à instrução de Nityānanda, Jīva Gosvāmīpāda decidiu partir para Vṛndāvana. Durante o trajeto, ele decidiu permanecer em Kāśī (Vārāṇasī) por alguns dias, movido pelo desejo de ouvir um erudito chamado Madhusūdana Vācaspati, especialista em todo o Vedānta. Esse erudito também estava familiarizado com as discussões entre o Senhor Caitanya Mahāprabhu e Sārvabhauma Bhaṭṭācārya acerca do advaita-siddhānta, os ensinamentos do não dualismo, e conhecia as conclusões finais do Senhor Caitanya ao refutar a filosofia do impersonalismo. Entretanto, o tempo passou rapidamente e, em vez de alguns dias, Jīva Gosvāmīpāda permaneceu ali por alguns meses, ouvindo hari-kathā.


Depois de algum tempo, Śrīla Jīva Gosvāmī chegou a Vṛndāvana e reuniu-se com Rūpa e Sanātana Gosvāmī, recebendo dīkṣā de Rūpa Gosvāmī. Mas, afinal, qual é o verdadeiro significado de dīkṣā?


divyaṁ jñānaṁ yato dadyāt

kuryāt pāpasya saṅkṣayam

tasmād dīkṣeti sā proktā

deśikais tattva-kovidaiḥ


Hari-bhakti-vilāsa (2.9)


[“Dīkṣā é o processo pelo qual alguém pode despertar seu conhecimento transcendental e aniquilar todas as reações causadas por atividades pecaminosas. Uma pessoa versada no estudo das escrituras reveladas conhece esse processo como dīkṣā.”]


Dīkṣā significa divya-jñāna, conhecimento transcendental. Por meio de dīkṣā, desenvolve-se esse conhecimento acerca da forma de Kṛṣṇa e do relacionamento específico com Ele, conhecido como sambandha-jñāna. Gradualmente, sambandha-jñāna erradica pāpa, as atividades pecaminosas do coração, e de acordo com esse relacionamento eterno, a pessoa pode servir sua iṣṭa-deva em um estado de possessividade. No entanto, dīkṣā não se completa no primeiro dia; ela é um processo gradual, no qual, passo a passo, progride-se pelos estágios de śraddhā (fé), sādhu-saṅga (associação com os devotos puros), bhajana-kriyā (execução do serviço devocional), anartha-nivṛtti (remoção dos apegos indesejados), niṣṭhā (firmeza), ruci (gosto), āsakti (apego) e, por fim, bhāva (emoções espirituais). Quando esses estágios amadurecem plenamente, a dīkṣā pode ser considerada completa.


Os dois tipos de dīkṣā


Há dois tipos de dīkṣā: ānuṣṭhānika-dīkṣā, uma iniciação formal, e pāramārthika-dīkṣā, a dīkṣā absoluta. Ānuṣṭhānika significa aproximar-se formalmente do guru, oferecer reverências, flores, frutos e dakṣiṇā (uma doação) e, então, receber dele os dīkṣā-mantras — isso é chamado de ānuṣṭhānika-dīkṣā


Já a pāramārthika-dīkṣā é uma iniciação espiritual gradual, que ocorre em etapas individuais por meio de processos como: o serviço aos pés de lótus do guru; o abrigo nos pés de lótus do guru (ādau guru-pādāśraya); o recebimento da iniciação (dīkṣā); o recebimento de instruções (śikṣā); e o serviço baseado em um profundo senso de identidade e confiança no guru (viśrambheṇa guroḥ sevā). Eventualmente, mamatā, o sentimento de possessividade em relação a Guru e Kṛṣṇa, se manifestará no coração do praticante. Assim sendo, Jīva Gosvāmī recebeu seus dīkṣā-mantras de Śrīla Rūpa Gosvāmīpāda e o serviu gentilmente com mamatā.


Uma lição sobre humildade e guru-niṣṭhā


Certa vez, Rūpa Gosvāmī estava compilando um grantha, uma escritura sagrada. Nesse meio tempo, Śrī Vallabhācārya, um estudioso altamente erudito, o visitou. Durante sua estadia, Vallabhācārya perguntou humildemente: “Rūpa, que grantha você está escrevendo?” Rūpa Gosvāmī respondeu: “Estou escrevendo o Bhakti-rasāmṛta-sindhu (O Néctar da Devoção).” Vallabhācārya então perguntou: “E qual śloka (verso) você está escrevendo?” Śrī Rūpa Gosvāmīpāda respondeu:


bhukti-mukti-spṛhā yāvat

piśācī hṛdi vartate

tāvad bhakti-sukhasyātra

katham abhyudayo bhavet


Śrī Caitanya-caritāmṛta (Madhya-līlā 19.176)


[“O desejo mundano de desfrutar o mundo material e de se libertar da escravidão à matéria são considerados duas bruxas que assombram a pessoa como fantasmas. Enquanto essas bruxas permanecerem no coração, como se pode sentir a bem-aventurança transcendental? Desse modo, não há possibilidade de desfrutar da bem-aventurança transcendental do serviço devocional.”]


Em nosso coração existem diversos desejos de saborear os prazeres sensoriais. No verso já citado, a palavra bhukti refere-se à propensão da pessoa para desfrutar da gratificação dos sentidos, enquanto mukti indica a libertação do mundo material. Enquanto esses desejos estiverem presentes, eles atuam como um piśācī — literalmente, “como um fantasma” — que impede o desenvolvimento do corpo espiritual. Quando alguém está possuído por esse fantasma, tudo o que é ingerido nutre apenas ele, e não o corpo espiritual. Assim, como é possível que śuddha-bhakti, a devoção pura ao Senhor, se manifeste e cresça no coração de alguém? A definição de śuddha-bhakti é:


anyābhilāṣitā-śūnyaṁ

jñāna-karmādy-anāvṛtam

ānukūlyena kṛṣṇānu-śīlanaṁ

bhaktir uttamā


Bhakti-rasāmṛta-sindhu (1.1.11), de Śrīla Rūpa Gosvāmī


[“Uttamā-bhakti, ou serviço devocional puro, é o cultivo de atividades realizadas exclusivamente para o prazer e benefício de Śrī Kṛṣṇa. É o fluxo ininterrupto de serviço a Ele, executado por meio de todos os esforços do corpo, mente e fala, assim como pela expressão de diversos sentimentos espirituais (bhāvas). Não está coberto por jñāna (conhecimento especulativo voltado à libertação impessoal), karma (atividade em busca de recompensas), yoga místico ou austeridades; e é completamente livre de todos os desejos que não sejam a aspiração de trazer felicidade a Śrī Kṛṣṇa.”]


Após ouvir o verso, Vallabhācārya perguntou: "Rūpa, por que você comparou a libertação a uma bruxa ou fantasma? Afinal, mukti não é tão fácil de alcançar." Śrīla Rūpa Gosvāmī recebeu a pergunta com grande humildade, pois essa é a qualidade de um Vaiṣṇava. Se vocês aspiram a se tornar Vaiṣṇavas, devem aprender o seguinte śloka:


tṛṇād api su-nīcena

taror iva sahiṣṇunā

amāninā māna-dena

kīrtanīyaḥ sadā hariḥ


Śrī Śikṣāṣṭakam (3)


[“Aquele que se considera inferior a uma folha de grama, que é tolerante como uma árvore e que não espera honra pessoal, mas está sempre disposto a respeitar os outros, pode facilmente cantar sempre o santo nome do Senhor.”]


Rūpa Gosvāmī respondeu docilmente: “Você é um erudito muito culto. Portanto, pode editar este livro como desejar e alterar qualquer śloka da maneira que achar melhor.” Vallabhācārya respondeu: “Agora é meio-dia. Preciso me banhar no rio Yamunā. Talvez eu volte amanhã para revisar e editar seu livro.” Naquela época, Jīva Gosvāmī ainda era apenas um menino. No entanto, ao ouvir a conversa entre Śrīla Rūpa Gosvāmī e Vallabhācārya, ele ficou bastante irritado com os comentários de Vallabhācārya. Mesmo assim, Jīva Gosvāmī, com todo respeito, não pronunciou uma palavra diante de seu guru, e pensou consigo mesmo: "Tudo o que meu Gurudeva escreveu é perfeito! Como seria possível editar os livros dele?"


Śrīla Sanātana Gosvāmī era um ācārya — um preceptor espiritual — extremamente proeminente, profundamente conhecedor de todo o tattva-siddhānta, ou seja, das verdades ontológicas reveladas nos Vedas. Certa vez, ele tentou editar um verso escrito por Śrīla Rūpa Gosvāmī, mas rapidamente percebeu que tudo o que Rūpa Gosvāmī escreve é perfeito.


Certa vez, Sanātana Gosvāmī encontrou-se com seu irmão mais novo, Rūpa, e perguntou qual śloka ele estava escrevendo naquele momento. Śrīla Rūpa Gosvāmī respondeu que estava compondo um śloka sobre Śrīmatī Rādhikā, especificamente sobre a beleza e o encanto de Sua trança. Nesse verso, ele havia comparado a trança de Śrīmatī Rādhikā a uma serpente negra e venenosa. De maneira respeitosa, Sanātana Gosvāmī questionou por que ele havia feito tal comparação. Com grande humildade, Rūpa respondeu que Sanātana poderia editar o texto como desejasse, substituindo quaisquer palavras ou versos. Então, Sanātana Gosvāmī disse que retornaria no dia seguinte para revisar o verso.


Sanātana Gosvāmī saiu para realizar seu bhajana e sādhana e, no caminho para sua kuṭīra (cabana), viu um grupo de jovens vaqueiras de Vraja reunidas ao redor de um balanço. Elas balançavam uma jovem extremamente bela e graciosa. Ao se aproximar, Sanātana Gosvāmī percebeu algo surpreendente: havia uma serpente negra pendurada sobre a cabeça da jovem sentada no balanço. Alarmado, ele exclamou: “Ó lali! Há uma serpente venenosa sobre sua cabeça!” Contudo, ao chegar mais perto, notou que as vaqueirinhas apenas riam e, para seu espanto, todas desapareceram repentinamente. Naquele instante, ele compreendeu que não se tratava de vaqueiras comuns, mas da própria Śrīmatī Rādhikā acompanhada de Suas sakhīs, Lalitā e Viśākhā. Assim, Sanātana Gosvāmī entendeu plenamente que o verso de Rūpa Gosvāmī era de fato perfeito e que a comparação da trança de Śrīmatī Rādhikā com uma serpente negra e venenosa era profundamente precisa.


Depois disso, Sanātana Gosvāmī decidiu retornar imediatamente ao āśrama (eremitério) de Rūpa Gosvāmī para informá-lo de que não poderia e jamais editaria nenhum de seus ślokas. Ao recordar todo esse episódio, Jīva Gosvāmīpāda pensou: “Nem mesmo Sanātana Gosvāmī foi capaz de editar o grantha de meu Gurudeva, pois tudo o que ele escreve é perfeito; portanto, Vallabhācārya também não pode fazer isso.” Assim, Jīva Gosvāmī ficou profundamente incomodado com os comentários de Vallabhācārya.


Como pretexto, Jīva Gosvāmī pediu permissão a Śrīla Rūpa Gosvāmī para ir buscar água no rio. Assim, ele foi diretamente ao rio Yamunā, onde Vallabhācārya estava tomando banho, e passou a desafiá-lo. Ele disse: “Tudo o que meu Gurudeva manifesta é perfeito. Por que você deseja editar esse verso em particular?” Vallabhācārya respondeu: “Porque seu Gurudeva afirmou que mukti é como uma piśācī, uma bruxa.” Jīva Gosvāmīpāda imediatamente retrucou: “Não, não. Meu Gurudeva escreveu que o desejo por libertação é que é comparado a uma bruxa.” Dessa forma, Jīva Gosvāmī derrotou claramente Vallabhācārya, deixando-o confuso. 


Após concluir seu banho, Vallabhācārya retornou ao āśrama de Śrīla Rūpa Gosvāmī. Ao chegar, perguntou: "Rūpa, quem é esse garoto? Ele é muito inteligente." Śrīla Rūpa Gosvāmī, com muita humildade, respondeu: "Ele está relacionado a mim de duas maneiras distintas: é meu sobrinho e também meu discípulo." "Ah! Bem, nunca editarei seu livro, pois ele acabou de me derrotar", admitiu Vallabhācārya.


O castigo de Rūpa Gosvāmī


Depois que Vallabhācārya foi embora, Rūpa Gosvāmī, aparentemente muito zangado com Jīva, disse: "Jīva, ouça! Qual é o ensinamento do Senhor Caitanya Mahāprabhu?"


tṛṇād api su-nīcena

taror iva sahiṣṇunā

amāninā māna-dena

kīrtanīyaḥ sadā hariḥ


Śrī Śikṣāṣṭakam (3)


[“Aquele que se considera inferior a uma folha de grama, que é tolerante como uma árvore e que não espera honra pessoal, mas está sempre disposto a respeitar os outros, pode facilmente cantar sempre o santo nome do Senhor.”]


Śrīla Rūpa Gosvāmī continuou: "Vallabhācārya é um erudito, que veio até mim por causa de seu nome, fama e reputação. Por que você não lhe ofereceu o devido respeito? Você não está mais qualificado para permanecer comigo nem para realizar bhajana e sādhana. Vá, saia!" Seguindo as instruções de seu Gurudeva, Śrīla Jīva Gosvāmī partiu e encontrou abrigo em um local baixo, infestados de crocodilos, lamentando: "O que farei agora?" 


Durante três dias, Jīva Gosvāmī não tomou prasāda (alimento santificado), e todos os Vrajavāsīs o procuravam; até mesmo Śrīla Sanātana Gosvāmī se juntou à busca. Por fim, espalhou-se o boato de que ele estava vivendo em um buraco habitado também por crocodilos. Rapidamente, Śrīla Sanātana Gosvāmī dirigiu-se ao local e, ao encontrar Śrīla Jīva Gosvāmī, persuadiu-o a retornar com ele ao āśrama de Śrīla Rūpa Gosvāmī.


Pouco depois, ao chegarem à residência de Śrīla Rūpa Gosvāmī, Śrīla Sanātana Gosvāmī repreendeu Rūpa afetuosamente: "Ó Rūpa! Qual é o ensinamento do Senhor Caitanya Mahāprabhu?" "Dar misericórdia a todos os seres vivos (jīvas)", respondeu Rūpa Gosvāmī com simplicidade. Então, Sanātana Gosvāmī acrescentou: "Seu discípulo Jīva também é uma jīva."


jīve-dayā parama-dharma


[“Ser misericordioso com todos os seres vivos é a forma mais elevada de religiosidade.”]


Após ouvir as belas instruções de seu irmão, Rūpa Gosvāmī mais uma vez concedeu abrigo a Jīva Gosvāmī, abraçando seu discípulo e permitindo que ele retomasse o serviço a seus pés de lótus. Quais são os ensinamentos aqui? Em um aspecto, há uma lição a ser aprendida com Śrīla Rūpa Gosvāmī e, no outro, podemos igualmente aprender com o comportamento exemplar de Śrīla Jīva Gosvāmī. O ensinamento de Śrīla Rūpa Gosvāmī é que devemos permanecer sempre humildes e oferecer o devido respeito aos outros, enquanto Śrīla Jīva Gosvāmīpāda nos mostra a importância de cultivar guru-niṣṭhā. As escrituras afirmam que aquele que critica o guru jamais alcançará a verdadeira fé; portanto, é essencial ter extrema cautela para nunca incorrer nesse erro.


Guru é Vaiṣṇava, e Vaiṣṇava é Guru


Jamais critiquem o Guru ou os Vaiṣṇavas, e não se associem a quem os critica, pois, caso contrário, vocês não serão capazes de prestar o devido respeito a ambos. Śrīla Bhakti Prajñāna Keśava Gosvāmī Mahārāja dizia: o Vaiṣṇava é Guru, e o Guru é Vaiṣṇava. Lembrem-se sempre disso. Vocês recebem dīkṣā de um Guru, enquanto outros recebem dīkṣā de outro Guru — portanto, qual seria a diferença? Quando seu Gurudeva está diante de mim, por exemplo, para mim ele é um Vaiṣṇava; quando está diante de vocês, também é um Vaiṣṇava para vocês. Não há distinção entre eles. “Guru-nindā” significa criticar o Guru, e nossos śāstras instruem: “Nem sequer olhe para o rosto de quem critica o Guru ou os Vaiṣṇavas.” Tenham cuidado com esse assunto e pratiquem sempre seu bhajana e sādhana sem criticar ninguém, especialmente esses dois.


Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa 

Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare

Hare Rāma Hare Rāma 

Rāma Rāma Hare Hare


A frase “mad guru jagad guru” significa “meu guru é o guru do universo”. Contudo, isso não indica que se deva respeitar apenas o próprio guru e desonrar os outros Vaiṣṇavas. Agir assim constitui vaiṣṇava-aparādha, uma ofensa aos Vaiṣṇavas, e ao mesmo tempo guru-aparādha, uma ofensa ao guru. O guru jamais ficará satisfeito se alguém desrespeitar os Vaiṣṇavas; ele se agrada apenas quando o devido respeito é oferecido a eles. Portanto, procurem sempre honrar todos os Vaiṣṇavas. Temos duas mãos, por exemplo, a esquerda e a direita, e não é possível dizer qual delas é mais forte, pois ambas são igualmente importantes. Nessa analogia, uma mão representa o guru e a outra representa o Vaiṣṇava.


Vocês devem respeitar Gurudeva e os Vaiṣṇavas da mesma forma que respeitam o Senhor Śrī Hari. Aqueles que respeitam o guru, mas desrespeitam ou desonram os Vaiṣṇavas, jamais conseguirão agradar seu guru. Alguns pensam: “Prefiro estar diante de meu guru, e não de certos Vaiṣṇavas.” Isso, porém, é uma grande ofensa; quem pensa ou diz isso jamais satisfará o guru. Ouçam com atenção: é necessário respeitar igualmente o Guru e os Vaiṣṇavas. Quando falo de guru, refiro-me tanto ao dīkṣā-guru quanto ao śikṣā-guru. Nesse contexto, o śikṣā-guru é o Vaiṣṇava, e o dīkṣā-guru é o mestre espiritual; ainda assim, ambos pertencem ao mesmo princípio, o guru-tattva.


Śrīla Jīva Gosvāmī explicou: “Preciso repreender aqueles que criticam meu guru. Tudo o que meu Gurudeva escreveu é cem por cento perfeito.” Ainda assim, devido a mal-entendidos a respeito dos tattvas de guru e de Vaiṣṇava, às vezes respeitamos o guru, mas desrespeitamos os Vaiṣṇavas. No entanto, as escrituras afirmam claramente que devemos sempre oferecer o devido respeito tanto ao Guru quanto ao Vaiṣṇava.


Lembro-me de um episódio dos meus primeiros tempos após receber iniciação, quando Gurudeva visitou a casa de um devoto. Esse devoto havia colocado no altar apenas a imagem de Gurudeva, Śrīla Nārāyaṇa Gosvāmī Mahārāja. Ao perceber isso, Gurudeva ficou muito insatisfeito e o repreendeu com firmeza: “Por que você não colocou também a imagem de Śrīla Vāmana Gosvāmī Mahārāja?” O devoto respondeu: “Porque você é meu guru.” Então, Gurudeva disse: “Que tolice! Sem Śrīla Vāmana Gosvāmī Mahārāja, não coloque minha foto no altar. Se você colocar minha imagem, também deve colocar a de Śrīla Vāmana Gosvāmī Mahārāja e a de Śrīla Trivikrama Gosvāmī Mahārāja. Caso contrário, como você poderá alcançar a libertação?”


Esse é um exemplo de como o guru nos ensina a respeitar os Vaiṣṇavas e a compreender que não há diferença entre eles. Portanto, jamais desrespeitem qualquer Vaiṣṇava; deem muita atenção a isso. Aqueles que pensam ou dizem: “Depois do meu Gurudeva, não há guru-paramparā (sucessão discipular autêntica)”, na verdade são discípulos de Kali. Gurudeva sempre afirmava que nosso guru-paramparā jamais se encerra: ela flui continuamente, como o Ganges, que nunca deixa de correr.


Pensar que, após a partida de seu Gurudeva, não haverá mais guru-paramparā é apenas outra forma de impersonalismo, pois o guru-paramparā está sempre em continuidade. Portanto, tenham muito cuidado com essa concepção. Certa vez, Gurudeva proferiu uma forte palestra na qual afirmou: “Esse tipo de pensamento é típico da filosofia ṛtvik. Em vez disso, observem como tal pessoa atua como guru, recebam iniciação dela e tornem-se seus discípulos.” O nosso guru-paramparā é sustentado pela guru-śakti, a potência do guru, e pela bhagavat-śakti, a potência do Senhor; ambas são eternas, continuam perpetuamente e jamais cessam.


Jaya Srila Gurudeva kī jaya!

[Jaya Śrīla Jīva Gosvāmīpāda kī jaya!]




Tradução: Induprabhā devī dāsī (SP)

Edição e revisão: Taruṇī-gopī dāsī (SP)

Colaboração: Premānanda dāsa (Espanha)


Logo Vana Madhuryam Brasil com a imagem de Radha e Krishna.

Vana Madhuryam
Brasil

  • Facebook
  • Instagram
  • Youtube
  • TikTok
Receba nossas atualizações e novidades!

Sua inscrição foi realizada com sucesso!

©2026 Vana Madhuryam Brasil

bottom of page