Bhagavad-gītā, o caminho para a autorrealização
- Vana Madhuryam Brasil
- 15 de jan.
- 23 min de leitura

Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja
18 de julho de 2024, Jaraguá do Sul, Brasil
Neste mundo material, nós temos muito tempo para gastar e de diversas maneiras, mas, quando o assunto é espiritualidade, o tempo parece sempre curto. Ainda assim, precisamos ouvir hari-kathā, as narrativas sobre o Senhor, pois é assim que o nosso coração se purifica. Estamos reunidos neste belo local, especialmente preparado para a recitação do Bhagavata-gītāmṛtam, e este ambiente é muito auspicioso e favorável para ouvir as palavras da Bhagavad-gītā. No mundo material, as pessoas em geral se envolvem em inúmeras atividades materialistas, porém, ao ouvir as palavras da Bhagavad-gītā, elas ficam protegidas da ilusão deste mundo, māyā.
O significado da palavra “gītā”
O que significa gītā? A palavra “gī” vêm de “gṛhīte gīyate trayate iti gītā”. Gṛhīte significa que, ao glorificar o Senhor, a pessoa é protegida da ilusão. Na Gītā está dito: “śrī kṛṣṇa uvāca”, significando que o próprio Senhor instruiu Arjuna diretamente. Kṛṣṇa Se manifestou na forma de śabda-brahman, a vibração transcendental, que é muito poderosa.
Existem dois tipos de som (śabda): o material e o transcendental. Neste mundo, o que falamos uns aos outros é o som material, chamado de śabda-sāmāna, e essa vibração atinge apenas o corpo e a mente. Por exemplo, se eu glorificar vocês, ficarão felizes, mas se eu usar palavras duras, ficarão chateados. Porém, essa vibração material diz respeito somente ao corpo e à mente, ou seja, ela atinge o corpo denso, que é físico, e o corpo sutil, que é mental. A Śrīmad Bhagavad-gītā explica que o corpo é formado por cinco elementos e, dentro dele, há o corpo sutil, constituído de mente, inteligência, ego e citta (coração/consciência). O som material vibra apenas em nosso corpo material, tanto denso quanto sutil. Quando um cantor muito talentoso se apresenta em sua cidade, as pessoas podem ou não entender o que ele canta, mas quando o ritmo sai de sua boca, todos se levantam e começam a dançar e cantar, não é verdade? Talvez vocês compreendam a letra, talvez não, mas a vibração gera um efeito em seus corpos e em suas mentes. Assim, milhares de pessoas se reúnem para cantar e dançar.
Há ainda o śabda-brahman, a vibração transcendental, que atinge o corpo físico, a mente e a alma (ātmā). Enquanto o som material, śabda-sāmāna, não toca a alma, o som espiritual, śabda-brahman, a alcança. Portanto, gītā significa: “gṛhīte gīyate trayate iti gītā — ao glorificar o Senhor, vocês ficarão protegido de māyā.” Neste mundo material, māyā, a potência ilusória do Senhor, é muito poderosa. Ilusão é aquilo que não é verdade, mas que as pessoas passam a pensar que é. Às vezes, quando estamos dirigindo ao meio-dia, no sol escaldante, olhamos para a estrada e, pelo reflexo da luz solar, parece que existem ondas de água do mar no asfalto. No entanto, isso é apenas uma ilusão. Da mesma maneira, māyā cria a ilusão e faz o que não é verdade parecer real. Por esse motivo, Kṛṣṇa disse: “Arjuna, ouça com atenção.”
daivī hy eṣā guṇa-mayī
mama māyā duratyayā
mām eva ye prapadyante
māyām etāṁ taranti te
Bhagavad-gītā (7.14)
[“Esta Minha energia divina, que consiste dos três modos da natureza material, é difícil de ser suplantada. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente transpô-la.”]
Vocês precisam aprender esse śloka, caso contrário, māyā os influenciará. Esse verso é muitíssimo importante em nossa vida espiritual. Nele, Kṛṣṇa diz: “Ó Arjuna, Minha daivī māyā é muito poderosa e ninguém pode conquistá-la. Somente aquele que se rende completa e absolutamente aos Meus pés de lótus poderá vencê-la.”
Voltando ao significado da palavra gītā, “tā” significa “trayate” — protegido de māyā. Para proteger-se de māyā, é necessário render-se completa e absolutamente aos pés de lótus do Senhor — isso é muito importante. Se vocês recitarem os versos da Bhagavad-gītā diariamente, ficarão protegidos de māyā, pois essa escritura sagrada é uma manifestação direta da boca de lótus do Senhor, śabda-brahman.
Bhakti-yoga, o yoga da devoção
O Senhor Supremo, Bhagavān, apresentou todas essas conclusões filosóficas, tattva, a Arjuna na Bhagavad-gītā. Nos dezoito capítulos da Gītā, Ele nomeou os dezoito nomes do yoga, sendo três deles proeminentes: karma-yoga, bhakti-yoga e jñāna-yoga. Karma-yoga é descrito do primeiro ao sexto capítulo, bhakti-yoga do sétimo ao décimo segundo, correspondendo aos capítulos centrais, e jñāna-yoga do décimo terceiro ao décimo oitavo. Bhakti ocupa os capítulos centrais porque karma e jñāna não são ramificações de bhakti; eles não podem, de forma independente, produzir qualquer fruto sem estar sob o abrigo de bhakti.
kevala jñāna ‘mukti’ dite nāre bhakti vine
kṛṣṇonmukhe sei mukti haya vinā jñāne
Śrī Caitanya-caritāmṛta (Madhya-līlā 22.21)
[“O conhecimento especulativo por si só, sem o serviço devocional, não é capaz de conceder a libertação. Por outro lado, mesmo sem conhecimento, uma pessoa pode alcançar a libertação se estiver dedicada em serviço devocional ao Senhor.”]
Agora, irei discorrer sobre o significado de bhakti. “Bhajate savate iti bhakti” — a palavra em sânscrito bhajate significa servir, ou refere-se ao humor de serviço. Quando vocês servem alguém, essa pessoa automaticamente te abençoa; essa é a natureza das coisas. No Mahābhārata, observamos que dois grupos estavam presentes no campo de batalha de Kurukṣetra: os filhos de Pāṇḍu, chamados Pāṇḍavas, e os filhos de Dhṛtarāṣṭra, chamados Kauravas. Esses dois grupos opostos chegaram ao campo de batalha para estabelecer a Verdade Absoluta, o dharma, a religiosidade — que é perfeito e precisava ser restabelecido. Kṛṣṇa disse a Arjuna: “Seu objetivo principal não é jaya, vitória, nem parājaya, derrota.” Quando uma partida de futebol, como a Copa do Mundo, está acontecendo, por exemplo, vocês não sabem quem sairá vencedor. A seleção brasileira pode ser a mais poderosa e jogar contra a Argentina ou a Alemanha, mas a vitória ou a derrota não está em suas mãos. Similarmente, Kṛṣṇa disse a Arjuna: “A derrota e a vitória não estão em suas mãos. Você tem o direito de praticar as suas ações e cumprir seus deveres (karma), mas sou Eu quem concede o fruto.”
karmaṇy evādhikāras te
mā phaleṣu kadācana
mā karma-phala-hetur bhūr
mā te saṅgo ’stv akarmaṇi
Bhagavad-gītā (2.47)
[“Você tem o direito de executar seu dever prescrito, mas não tem o direito aos frutos da ação. Jamais se considere a causa dos resultados de suas atividades, e jamais se apegue ao não-cumprimento do seu dever.”]
sukha-duḥkhe same kṛtvā
lābhālābhau jayājayau
tato yuddhāya yujyasva
naivaṁ pāpam avāpsyasi
Bhagavad-gītā (2.38)
[“Lute pelo simples fato de lutar, sem levar em consideração felicidade ou aflição, perda ou ganho, vitória ou derrota — e, adotando este procedimento, você nunca incorrerá em pecado.”]
O agricultor, por exemplo, cultiva o campo e planta trigo, arroz e diversas outras sementes, deixando-o completamente verde. No Brasil há muitos campos de arroz, assim como na Bengala, onde nasci. Como agricultores, vocês podem plantar diversos alimentos, como cana-de-açúcar, soja, feijão, trigo, arroz ou milho, mas o quanto colherão não depende de vocês. Em um determinado momento, o plantio pode estar perfeito e pronto para a colheita, mas, um dia antes, uma tempestade pode destruir tudo. Assim, como será possível colher os frutos da plantação? Muitas pessoas que vivem na cidade talvez não tenham ideia disso, mas quem já cultivou campos conhece bem essa experiência.
Kṛṣṇa disse: “Ó Arjuna, escute atentamente. Você não veio ao campo de batalha de Kurukṣetra para se vingar dos Kauravas, como Duryodhana e Duḥśāsana. Você veio estabelecer o dharma perfeito.” Não é nada fácil vencer os Kauravas, como Duryodhana, Duḥśāsana, Karṇa, Bhīṣma Pitāmahā e Droṇācārya — eles são muito poderosos. Bhīṣma Pitāmahā, em especial, recebeu uma benção chamada icchāmṛtyu, que lhe permite escolher o momento exato de sua própria morte; dessa forma, ninguém poderia matá-lo. O guru Droṇācārya também estava presente no campo de batalha, e como seria possível para Arjuna derrotar o seu próprio mestre? Karṇa era extremamente poderoso, possuindo uma kavaca, um escudo para proteger seu peito, e um kuṇḍala, um brinco especial; enquanto tivesse esses objetos, ninguém poderia matá-lo. Aśvatthāma, o filho de Droṇācārya, recebeu a benção de viver nas quatro yugas — Satya, Tretā, Dvāpara e Kali-yuga —, o que o tornou invencível. Portanto, quem poderia derrotar os Kauravas?
Arjuna lamenta no campo de batalha
Senayoḥ ubhayoḥ madhye — Arjuna disse a Kṛṣṇa: “Quero ver os dois exércitos. Por favor, coloque minha quadriga no meio do campo de batalha para que eu possa ver os dois lados.” Assim como no início de uma partida de futebol, quando são apresentados os onze jogadores brasileiros e os onze argentinos para que todos identifiquem quem entrará em campo, Arjuna desejava ver quem estava ali. Então, ele observou todos os seus parentes e se sentiu decepcionado: “Todos os meus parentes irão morrer!” Arjuna tinha um certo ego: “Eu tenho este arco Gāṇḍīva, e com ele, posso matar qualquer um. Mas como posso matar meu avô Bhīṣma Pitāmaha? Quando eu era criança, me deitava em seu colo e ele me alimentava com arroz e leite. Como posso matar meu guru Droṇācārya, que me ensinou tudo sobre arquearia? Como posso matar todo o meu guru-varga (sucessão discipular) que está do lado oposto? Se eu atacar todos eles, e eles realmente morrerem, que benefício terei? É verdade que assim eu conquistaria essa terra, mas ela estaria completamente manchada com o sangue deles. Muitas mulheres se tornariam viúvas, muitas pessoas morreriam e todos sofreriam; haveria cremações se dando em todas as direções.”
Desse modo, Arjuna ficou viṣāda, infeliz. Contudo, Kṛṣṇa o inspirou: “Ó Arjuna! Você está pensando que irá matar Bhīṣma Pitāmaha, Droṇācārya, Karṇa e Aśvatthāmā, mas tente entender que não é tão fácil vencê-los.” O primeiro capítulo da Bhagavad-gītā chama-se Viṣāda-yoga e ele apresenta um panorama muito claro sobre tudo o que está acontecendo. Kṛṣṇa disse: “Arjuna, ouça com atenção. Você tem o direito de executar a ação, porém, a vitória ou a derrota não está em suas mãos. Acorde! Pare com essa lamentação! Não pense que você veio até aqui para se vingar! De fato, os Kauravas atearam fogo na casa dos Pāṇḍavas, deram veneno para Bhīma e tentaram despir Draupadī diante de todos, mas não pense que, ao derrotá-los, se vingará. Vocês vieram até aqui para estabelecer a Verdade Absoluta, o dharma.”
“Duryodhana e Duḥśāsana são a personificação do pecado, pāpa-mūrti, e estão protegidos por uma parede imensa e muito poderosa — Bhīṣma Pitāmaha, Droṇācārya, Karṇa e Aśvatthāmā, que não são pessoas comuns. Primeiro é preciso quebrar essa parede, pois se você não os matar primeiro, como irá derrotar Duryodhana e Duḥśāsana?” Então, Arjuna compreendeu a verdade: “Eu não posso derrotar o meu guru-varga — isso é impossível! Agora, o que devo fazer e o que devo evitar? Não sei mais…” Diante disso, Kṛṣṇa disse: “Simplesmente renda-se a Mim.” Esta é uma instrução poderosa da Bhagavad-gītā.
sarva-dharmān parityajya
mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja
ahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo
mokṣayiṣyāmi mā śucaḥ
Bhagavad-gītā (18.66)
[“Abandone todas as variedades de religião e simplesmente renda-se a Mim. Eu o libertarei de todas as reações pecaminosas. Não tema.”]
Kṛṣṇa diz: “Abandone todos os seus deveres e renda-se completamente a Mim.” Vocês podem pensar: “Se eu abandonar todos os meus deveres sociais, posso ir para o inferno.” Mas Kṛṣṇa afirma: “Eu sou Bhagavān, a Suprema Personalidade de Deus. Renda-se a Mim e Eu o libertarei de todas as consequências das suas atividades pecaminosas.” No entanto, é importante lembrar que muitas pessoas não sabem realmente o que é dharma, a verdade, e o que é adharma, a inverdade.
O significado de dharma
Satyam vada satyam eva jayate — todas as glórias à verdade. Falem sempre a verdade, pois mentir é adharma. Satyam é a Verdade Absoluta, mas o que significa essa Verdade, e o que são dharma e adharma?
tatraiva śrī-bhagavad-vākyaṁ
maṇ-ṇiṃittaṃ kṛtaṃ pāpaṁ
api dharmāya kalpate
mām anādṛtya dharmo 'pi
pāpaṃ syān mat-prabhāvataḥ
Padma-Purāṇa; Hari-bhakti-vilāsa (110), de Śrīla Sanātana Gosvāmīpāda
[“No Padma Purāṇa, a Suprema Personalidade de Deus disse: ‘Se alguém peca por Minha causa, seus pecados se tornam atos piedosos. Mas se alguém se recusa a Me adorar, então, pelo Meu poder, seus atos piedosos se tornam pecados.”’]
No Mahābhārata, Kṛṣṇa explica que quem se rende completa e absolutamente a Ele, mesmo que cometa alguma pequena ação pecaminosa, ainda assim está agindo de acordo com o dharma. Por outro lado, alguém que realiza muitas atividades piedosas, mas não se rende a Kṛṣṇa, está, na verdade, praticando adharma.
Proteger a vida de alguém é bom ou não é? Um açougueiro mata animais, principalmente vacas. Isso é correto? Imaginem que uma vaca conseguiu fugir de um açougueiro, e ele está correndo atrás dela. Vocês, sendo pessoas piedosas e veganas, veem a cena. Após a vaca passar correndo, o açougueiro, que vinha alguns metros atrás, pergunta: “Você viu minha vaca passar por aqui?” O que vocês responderiam? Se ela correu para a direita, vocês diriam que foi para a esquerda. Salvar uma vida está alinhado com o dharma, mas mentir é adharma. E agora? Quando vocês contam uma mentira para proteger uma vida, isso está de acordo com o dharma. Kṛṣṇa diz: “maṇ-ṇiṃittaṃ kṛtaṃ pāpaṁ api dharmāya kalpate — se você praticar uma atividade aparentemente pecaminosa por Minha causa, isso se torna dharma.” Assim, a definição de dharma é:
dharma-mūlaṁ hi bhagavān
sarva-vedamayo hariḥ
smṛtaṁ ca tad-vidāṁ rājan
yena cātmā prasīdati
Śrīmad-Bhāgavatam (7.11.7)
[“O Ser Supremo, a Personalidade de Deus, é a essência de todo o conhecimento védico, a raiz de todos os princípios religiosos e a memória das grandes autoridades. Ó rei Yudhiṣṭhira, este princípio da religião se manifesta como uma evidência. Com base nesse princípio religioso, tudo se satisfaz, inclusive a mente, a alma e até mesmo o corpo.”]
Kṛṣṇa é a fonte original de todo tipo de dharma. Ele diz: “A pessoa que não se entrega a Mim, mas faz muitas atividades piedosas, está realizando adharma.” No campo de batalha de Kurukṣetra, Kṛṣṇa observou como Yudhiṣṭhira Mahārāja nunca mente. Ele instruiu Yudhiṣṭhira: “Diga que Aśvatthāmā morreu no campo de batalha!” No entanto, Yudhiṣṭhira respondeu: “Kṛṣṇa, mas estou vendo que Aśvatthāmā, o filho de Droṇācārya, está vivo. Como direi que ele abandonou seu corpo?” Kṛṣṇa insistiu: “Estou pedindo que diga isso!” Mas Yudhiṣṭhira Mahārāja não o fez.
Kṛṣṇa então instruiu Bhīma. Havia um elefante vindo em sua direção, e Kṛṣṇa falou para Bhīma: “Mate aquele elefante, cujo nome é Aśvatthāmā.” Bhīma obedeceu e matou o elefante. Então, Kṛṣṇa disse: “Yudhiṣṭhira, agora você pode dizer que Aśvatthāmā foi morto no campo de batalha.” Assim sendo, Yudhiṣṭhira Mahārāja anunciou: “aśvatthāmā hataḥ hataḥ naro vā kuñjaraḥ!” No entanto, quando Yudhiṣṭhira pronunciou a palavra “nara” informando que o elefante Aśvatthāmā estava morto, Kṛṣṇa soprou Sua concha e não foi possível ouvir a palavra “elefante”. Ao ouvir isso, Droṇācārya, que era o pai de Aśvatthāmā, disse: “Como é possível que meu filho esteja morto? Mas se Yudhiṣṭhira Mahārāja disse isso, essa é a Verdade Absoluta…” Naquele momento, Droṇācārya largou suas armas, e o irmão de Draupadī, Dhṛṣṭadyumna, cortou sua cabeça. O Mahābhārata estabelece que tudo que o Senhor Supremo diz é a Verdade Absoluta. Por isso, na Bhagavad-gītā, Kṛṣṇa diz: “Quem foi morto? A ātmā (alma) é eterna e transcendental. Ela não morre.” Esse é o primeiro tipo de conhecimento da Bhagavad-gītā.
Os conhecimentos presentes na Bhagavad-gītā
Se vocês pesquisarem toda a Bhagavad-gītā, observarão que ela contém 745 ślokas (versos), porém apenas cinco tipos de conhecimento estão presentes nela. O primeiro é o conhecimento geral, sādhāraṇa-jñāna; o segundo é o conhecimento especializado, viśeṣa-jñāna; o terceiro é o conhecimento sobre o brahman, brahma-jñāna; e o quarto é o conhecimento sobre a alma, ātma-jñāna.
sarva-guhyatamaṁ bhūyaḥ
śṛṇu me paramaṁ vacaḥ
iṣṭo ’si me dṛḍham iti
tato vakṣyāmi te hitam
Bhagavad-gītā (18.64)
[“Ouça mais uma vez o Meu ensinamento supremo, a mais secreta de todas as categorias de conhecimento. Como você Me é queridíssimo, Eu, pensando em seu benefício, torno a falar-lhe disso.”]
Por fim, o quinto é o conhecimento mais elevado, o qual Kṛṣṇa explica para Arjuna. Vocês podem estudar a Bhagavad-gītā por completo, não tem problema algum, mas se aprenderem vinte e cinco versos específicos da Gītā, isso será o suficiente, pois todo o tattva-siddhānta (conclusões filosóficas) está presente neles.
Se vocês têm muito conhecimento e o seu cérebro é aguçado, então poderão aprender esses versos sem dificuldades, assim como meu Gurudeva, Śrīla Bhaktivedānta Vāmana Gosvāmī Mahārāja. Ele tinha um vasto conhecimento de todos os Vedas, Purāṇas e Upaniṣads, e sabia todos os versos de qualquer escritura. Por isso, todos os devotos, os Gauḍīya Vaiṣṇavas mais elevados, deram a ele o título de “dicionário Gauḍīya”. Se vocês não encontrassem um verso ou evidência específica das escrituras, era só perguntar para ele, pois ele indicava o local exato do verso na escritura correspondente. No quarto dele havia muitas escrituras sagradas. As pessoas lhe perguntavam se ele havia lido todos aqueles livros, e ele dizia que sim. Se você abrisse qualquer página e perguntasse o conteúdo que havia nela, ele saberia.
Certa vez, perguntei para ele: “Gurudeva, quantos versos você sabe?” Ele respondeu: "Se eu falar sem parar por sete dias e sete noites, sem dormir, ainda assim não conseguirei dizer tudo o que sei." Seu poder de memória, smaraṇa-śakti, era maravilhoso. Ele dizia: “Esse śloka veio deste livro, desta edição e foi publicado por essa editora.” Quando perguntamos, por exemplo, de qual capítulo da Bhagavad-gītā é determinado verso, pode ser muito difícil se lembrar. Mas meu Gurudeva tinha acesso ao conhecimento completo dos Vedas, Purāṇas e Upaniṣads. Os versos dançavam na língua dele.
Portanto, se vocês tiverem um cérebro igual ao do meu Gurudeva, aproveitem e aprendam. Vocês abrirão uma página e tudo virá para os seus corações. O cérebro de algumas pessoas é muito aguçado. No entanto, se vocês não conseguem aprender todos os ślokas, vinte e cinco versos da Bhagavad-gītā serão o suficiente. Conforme falei anteriormente, existem cinco tipos de conhecimento na Bhagavad-gītā, e cada um desses temas possui cinco versos essenciais, totalizando vinte e cinco versos. Quando aprendê-los, vocês poderão responder qualquer tipo de pergunta.
Na Bhagavad-gītā, é possível encontrar todos os tipos de doutrinas. Qualquer pergunta que surgir em sua mente, vocês poderão saná-la acessando os versos da Gītā. Quantos versos vocês têm que aprender? Vinte e cinco versos, nem mais nem menos. Isso é o suficiente — 100% garantido.
Na Gītā, as seguintes categorias de conhecimento estão presentes: ātma-jñāna, conhecimento sobre a alma; sādhāraṇa-jñāna, conhecimento geral; viśeṣa-jñāna, conhecimento especial; brahma-jñāna e guhya-jñāna, conhecimento confidencial; guhyatama-jñāna, o conhecimento mais confidencial e sarva-guhyatamaṁ bhūyaḥ śṛṇu me paramaṁ vacaḥ, o conhecimento secretíssimo. Muita gente diz que Kṛṣṇa é o maior dos políticos, mas isso não é verdade. Na Śrīmad Bhagavad-gītā, não é papel de Kṛṣṇa desempenhar um papel político, mas sim estabelecer a Verdade Absoluta Suprema. Por isso, Ele diz:
yada yada hi dharmasya
glanir bhavati bharata
abhyuttanam adharmasya
tadatmanan srjamy aham
Bhagavad-gītā (4.7)
[“Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e uma ascensão predominante de irreligião — aí então Eu próprio descendo.”]
paritrāṇāya sādhūnāṁ
vināśāya ca duṣkṛtām
dharma-saṁsthāpanārthāya
sambhavāmi yuge yuge
Bhagavad-gītā (4.8)
[“Para libertar os piedosos e aniquilar os descrentes, bem como para restabelecer os princípios da religião, Eu mesmo venho, milênio após milênio.”]
Isso é muito importante e não tem nada a ver com diplomacia e política. Ele veio estabelecer a Verdade Absoluta e Suprema, satyaṁ eva. Por que estou dizendo tudo isso? Porque Kṛṣṇa falou para Arjuna: “Você veio até aqui para estabelecer a Verdade Absoluta.”
Yudhiṣṭhira Mahārāja se considerava o protetor do dharma, mas Kṛṣṇa disse: “Eu sou o protetor do dharma.” Yudhiṣṭhira Mahārāja, no entanto, não seguiu a instrução de Kṛṣṇa, e por essa razão, ele sofreu um pouco. Da mesma forma, se vocês não seguirem a instrução do Senhor, que é a personificação do dharma, sofrerão.
yatra gītā-vicāraś ca paṭhanaṁ pāṭhanaṁ tathā
modate tatra śrī-kṛṣṇo bhagavān rādhayā saha
Śrī Vaiṣṇavīya-tantra-sāra (43)
[“Com supremo êxtase, o Senhor Supremo Śrī Kṛṣṇa e Sua divina consorte, Śrī Rādhikā, estão graciosamente presentes onde quer que a concepção da escritura da Gītā seja discutida, estudada e ensinada.”]
gītā me hṛdayaṁ pārtha gītā me sāram uttamam
gītā me jñānam atyugraṁ gītā me jñānam avyayam
Śrī Vaiṣṇavīya-tantra-sāra (44)
[“O Senhor Supremo disse: ‘Ó Pārtha, a Gītā é o Meu coração, a Gītā é a Minha essência suprema, e a Gītā é o conhecimento mais poderoso e imperecível sobre Mim.”’]
Vejam quão poderosa é a Bhagavad-gītā. Se vocês glorificarem, ouvirem e lerem a Gītā, o próprio Kṛṣṇa, com Sua potência interna Śrīmatī Rādhikā, aparecerá diante de vocês. A Gītā não é um livro comum, ela é uma vibração transcendental. Se vocês lerem um pouquinho da Gītā todos os dias, alcançarão a autorrealização. Nela, especialmente bhakti-yoga foi estabelecida por Kṛṣṇa.
man-manā bhava mad-bhakto
mad-yājī māṁ namaskuru
mām evaiṣyasi yuktvaivam
ātmānaṁ mat-parāyaṇaḥ
Bhagavad-gītā (9.34)
[“Ocupe sua mente em pensar sempre em Mim, torne-se Meu devoto, ofereça-Me reverências e Me adore. Estando absorto por completo em Mim, com certeza você virá a Mim.”]
Esse verso é muito importante. A Śrīmad Bhagavad-gītā é essencial na nossa vida espiritual. A Bhagavad-gītā não é uma obra mitológica, mas sim um conhecimento prático que proporciona a autorrealização, transcendendo castas, raças e quaisquer outras designações. Todos podem ler a Bhagavad-gītā. Não pensem que a Bhagavad-gītā é apenas um livro religioso dos hindus, porque isso não é verdade. O próprio Kṛṣṇa estabeleceu a Gītā — este é um grantha (escritura) poderosíssimo! Portanto, todos devem lê-lo.
Não irei tomar mais do tempo de vocês. Agradeço a gentileza por me darem a chance de falar esse hari-kathā. Aqui há muitos devotos, e vocês devem ficar inspirados em sua vida espiritual. Todos os dias, leiam a Bhagavad-gītā e preguem-na para todos. Este é o ensinamento de Śrī Caitanya Mahāprabhu. O Senhor Caitanya afirmou que, nesta era de Kali-yuga, não há outro caminho para alcançar o Senhor além do cantar dos santos nomes.
harer nāma harer nāma
harer nāmaiva kevalam
kalau nāsty eva nāsty eva
nāsty eva gatir anyathā
Śrī Caitanya-caritāmṛta (Madhya-līlā 6.242)
[“Nesta era de brigas e hipocrisia, o único meio de libertação é o canto dos santos nomes do Senhor. Não há outro caminho. Não há outro caminho. Não há outro caminho.”]
Nesta era de Kali, não existe nenhum outro método para se alcançar a morada do Senhor além do cantar dos santos nomes. O Senhor investiu toda a Sua potência nos Seus santos nomes, e o santo nome dEle é mais elevado do que Ele mesmo.
Hari se baḍā hari kā nāma — o santo nome é mais elevado que o próprio Śrī Hari. Não existe nenhuma regra para cantá-lo; pode ser ao meio-dia, à meia-noite, a qualquer momento! Se vocês o cantarem, seus corações ficarão muito contentes. Portanto, cantem os santos nomes e sejam felizes!
O significado do mahā-mantra Hare Kṛṣṇa
“Hare” significa Śrīmatī Rādhikā, pois, em sânscrito, o nome original d’Ela é Harā. No entanto, no vocativo, quando você chama Śrīmatī Rādhikā, o nome Harā se transforma em Hare — e por essa razão, cantamos “Hare”.
Kṛṣṇasya mano haratīti harā rādhā, tasyāḥ saṁbodhane he hare — “Śrīmatī Rādhikā, que rouba a mente de Śrī Kṛṣṇa, é chamada de Harā. Ela é invocada como: ‘He Hare!’” Śrīmatī Rādhikā rouba o coração de Kṛṣṇa com Sua belíssima forma e atividades. Já Kṛṣṇa vem de “kṛṣ-dhātu”, a raiz verbal “atrair”, pois Ele atrai todos os seres vivos aos Seus pés de lótus. Por isso, nós cantamos:
Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa
Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare
Hare Rāma Hare Rāma
Rāma Rāma Hare Hare
O nome “Rāma” vem de “ramayati iti rāma”, que significa “Kṛṣṇa está sempre brincando com Śrīmatī Rādhikā” — daí de Seu nome ser Rāma. Por essa razão, cantamos: “mero rādhā-ramaṇa giridhārī, giridhārī syāma vana bari”. O nome de Kṛṣṇa é Ramaṇa Bihārī, pois Ele sempre está brincando com Śrīmatī Rādhikā. Assim, lembre-se sempre destes 16 nomes ou 32 sílabas. Nesta Kali-yuga, o único meio de alcançar o Senhor é pelo cantar do mahā-mantra.
Quando estes santos nomes se manifestarem em sua língua, todos os seus pecados serão destruídos. Mas para isso, sigam os quatro princípios. Nessa Kali-yuga, nós não conseguimos realizar sacrifícios e austeridades. Todavia, siga os quatro princípios, que são: 1) não comer carne, peixe e ovos; 2) não se intoxicar; 2) não fazer sexo fora do casamento; e 4) não jogar jogos de azar.
Também tenham compaixão e amor por todos os seres vivos. Não matem nenhum ser vivo. Não matem nenhum animal. Dêem amor e carinho a todos os seres. Não comam carne, peixe, ovos, alho e cebola, e sejam compassivos com os animais. Isso é muito importante, pois o Senhor nos deu esse cérebro para diferenciar o certo do errado. Portanto, cantem os santos nomes, sigam os quatro princípios, dêem afeto a todos os seres vivos, e assim, suas vidas serão bem-sucedidas.
Tentem se tornar vegetarianos, mas façam tudo passo a passo, com calma. Se o bambu é muito comprido, por exemplo, em um único dia vocês não conseguem dobrá-lo. Quando o bambu ainda está verde, é fácil dobrá-lo. No entanto, quando esse mesmo bambu está muito seco e velho, ele acaba quebrando com facilidade. Contudo, se vocês torcerem o bambu aos poucos todos os dias, ele acabará dobrando. Similarmente, devagar, passo a passo, tentem se tornar vegetarianos, mas não adianta forçar. Comecem aos poucos. Não é bom assim?
É necessário dar amor, carinho e compaixão aos outros; sem isso, a vida é inútil. Assim, pouco a pouco, cantem harināma e façam bhajana e sādhana, porque esse corpo humano é muito raro. Não há garantia de que, no próximo nascimento, vocês terão um corpo humano, mas se seguirem esses quatro princípios e cantarem os santos nomes, terão isso 100% garantido.
Nityānanda Prabhu fez uma promessa de mãos erguidas: “Yatheṣṭaṁ re bhrātaḥ! kuru hari-hari-dhvānam aniśaṁ — Ó meus irmãos e irmãs, estou prometendo a vocês e fazendo um voto de que, se cantarem os doces santos nomes ‘Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare, Hare Rāma Hare Rāma, Rāma Rāma Hare Hare’, na próxima vida alcançarão a morada eterna do Senhor Supremo.” No entanto, vocês devem prestar muita atenção para não cometer as dez ofensas ao santo nome, nāma-aparadha.
A primeira nāma-aparādha é: nunca critique o sādhu (santo). Se vocês criticarem a pessoa santa, perderão tudo. Gurudeva disse: “Quem critica o sādhu não é nem mesmo considerado um ser humano.” Jamais critique a pessoa santa, pois isto é sātāṁ-nindā.
A segunda nāma-aparādha é: nunca pense que o nome de Śiva é igual ao nome de Kṛṣṇa. Śrī Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, e Śivajī é Seu sevaka (servo). O Senhor Śiva é o melhor dos devotos do Senhor, vaiṣṇavānāṁ yathā śambhuḥ. Assim, nós devemos respeitá-lo como o maior dos Vaiṣṇavas.
A terceira nāma-aparādha é: nunca desonre o guru, guror avajñā. Cante os santos nomes e sua vida será bem-sucedida. Tamaso mā jyotir gamaya — não vá para māyā. Por favor, não vá em direção a māyā, e pare de conversas paralelas. Venham para a luz. Quando alguém está falando hari-kathā e vocês ficam conversando paralelamente, isso é desonra. Vocês estão desonrando o Senhor que está presente na forma do hari-kathā. Essa palestra é o próprio Śrī Hari. Assim, por favor, cantem os santos nomes e sejam felizes.
Vejam, este belíssimo Śrī Caitanya Mahāprabhu veio até aqui! [Śrīla Gurudeva aponta para a Deidade de Mahāprabhu]. Ele é a personificação da munificência e da magnanimidade, e está dando bênçãos para todos com a Sua mão erguida.
Bolo Śacīnandana Gaurahari kī jaya!
Jaya jaya Śrī Rādhe!
Agora, tomem mahā-prasāda e voltem para suas casas. Amanhã, haverá mais hari-kathā.
Perguntas e respostas
[Um convidado se aproxima de Śrīla Gurudeva para agradecer a oportunidade de estar presente naquela aula e faz as seguintes perguntas:]
Convidado: Os vinte e cinco versos da Bhagavad-gītā para decorar são específicos ou são versos que tocam meu coração?
Śrīla Gurudeva: São vinte e cinco versos específicos, e todo o tattva-siddhānta (conclusões filosóficas) está presente neles. Mas primeiro, tente ler todos os ślokas da Bhagavad-gītā. Você precisa aprender especificamente esses vinte e cinco versos, mas não é para ignorar os outros e aprender somente estes. Contudo, nos vinte e cinco versos, você encontrará respostas específicas. Toda a filosofia está presente na Gītā.
Darei um exemplo. Há quem fale: “Tudo vem da natureza; mas quem plantou as árvores da floresta? Quem plantou no alto da montanha? Por acaso isso é automático?” As pessoas dizem isso, não dizem? Mas existem vários tipos de insetos que surgem da terra. Quando o esterco da vaca está velho, fica cheio de bichinhos. De onde vieram esses bichinhos? As pessoas dizem: “Isso vem da natureza, prakṛti. A natureza é quem faz tudo, e isso é prakṛti-bhata.” No entanto, a Śrīmad Bhagavad-gītā diz que prakṛti, a natureza, não pode fazer nada por conta própria.
mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ
sūyate sa-carācaram
hetunānena kaunteya
jagad viparivartate
Bhagavad-gītā (9.10)
[“Ó filho de Kuntī, orientada por Mim, Minha māyā-śakti (potência externa) dá à luz a manifestação cósmica com seus seres vivos móveis e imóveis. Por essa razão, o mundo material passa por ciclos repetidos de criação.”]
Kṛṣṇa disse: “De acordo com a Minha orientação, a natureza cria todas as coisas.” Eu não quero falar muito, mas as pessoas frequentemente utilizam a palavra “automático”. No entanto, no universo não existe nada automático. Você está deitado na sua cama, por exemplo, e a sua TV está ligada. Seu filho lhe pergunta: “Pai, como essa TV funciona?” Na sua mão está o controle remoto, mas a criança não viu que era o controle quem fazia a televisão funcionar. Então, você responde a ela: “A TV é automática”, mas não, ela não é automática.
Nós falamos “porta automática”, mas ela não é automática coisa nenhuma. Por que a porta abre automaticamente? Porque tem um sensor, um aparelho eletrônico, que é instalado na porta para sentir a presença e abrir. No entanto, se você retirar esse dispositivo eletrônico, a porta deixa de ser automática. A ciência está muito avançada, e por isso, tudo parece ser automático. Contudo, há sempre alguém por trás controlando tudo.
Como uma empresa funciona? Há sempre um diretor, funcionários e equipes, mas o direcionamento vem do CEO da empresa. Ele ordena e todos executam. Assim, Kṛṣṇa falou exatamente isso na Bhagavad-gītā: “mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ, sūyate sa-carācaram — Eu Sou o Controlador Supremo. Eu controlo todas as coisas que acontecem, às vezes de forma direta, às vezes de forma indireta.” Leia toda a Bhagavad-gītā, pois tudo está lá — tanto a ciência material quanto a ciência espiritual. Por essa razão, leia-a.
Convidado: Estou lendo a Bhagavad-gītā há quase um ano. Gostaria de saber quais são os vinte e cinco versos que nós devemos decorar.
Śrīla Gurudeva: Fale comigo pelo Skype e eu lhe direi. Não direi esses versos para qualquer pessoa; direi apenas para quem quer aprendê-los. Senão, as pessoas dirão: “Não lerei o restante da Gītā, lerei somente estes versos e já é o suficiente.” Mas não é bem assim. Todas as filosofias e conclusões filosóficas, tattva-siddhānta, estão presentes na Bhagavad-gītā.
Com os versos da Gītā, você pode, por exemplo, derrotar a filosofia impersonalista, que é a filosofia das pessoas que dizem: “Eu sou Brahman, eu sou Deus.” Você não é Deus, você pertence a Deus. A Gītā afirma que aqueles que dizem que são Deus irão sofrer. A Bíblia também afirma isso. Jesus nunca disse: “Eu sou Deus.” Ele disse: “Eu sou filho de Deus — Ele é meu Pai, e eu sou Seu filho.”
Deus é amor, e amor é Deus. Deus é a Personificação do Amor Divino. A Bíblia e a Bhagavad-gītā dizem exatamente a mesma coisa — somente a maneira de dizer é diferente, mas o conteúdo é igual. Se você ler a Gītā, a Bíblia e o Śrīmad-Bhāgavatam, verá como são iguais. É como diz um ditado popular: “Estes são o mesmo vinho, mas em garrafas diferentes.”
As escrituras védicas dizem “ahiṁsā paramo dharmaḥ — a não violência é a maior virtude.” E a Bíblia diz: “Não matarás. Dê amor e carinho a todos os seres vivos. A compaixão é a maior virtude. Seja compassivo com todos.” A mensagem da Bíblia é a mesma que “ahiṁsā paramo dharmaḥ”, porém dita de maneira diferente. No entanto, as pessoas materialistas interpretam esses ensinamentos visando a sua própria satisfação. Quem você ama?
Convidado: Deus.
Śrīla Gurudeva: Deus ainda está muito distante. Quem você ama na sua casa?
Convidado: Minha esposa.
Śrīla Gurudeva: Você tem cachorro?
Convidado: Sim.
Śrīla Gurudeva: Você mataria seu cachorro?
Convidado: Não, porque eu o amo.
Śrīla Gurudeva: Se você ama alguém, você não a mata, simples assim. Por isso, amor é Deus e Deus é amor. Deus mora no coração de todo ser vivo. O mesmo Deus que mora no seu coração, no coração de sua esposa e dos seus filhos e filhas, também mora no coração do cachorrinho. Desse modo, como você irá matá-lo?
Dê amor para todos. Primeiro, ame a Deus, e depois ame a todos. Isso é simples. Deus é amor e amor é Deus. O Senhor é a Personificação do Amor Divino — prema-mayī bhagavān. Isso está descrito nas escrituras védicas, nos Vedas, Purāṇas e Upaniṣads.
Esse assunto é muito interessante. A Gītā e a Bíblia dizem a mesma coisa. Kṛṣṇa diz que quem afirma que Ele não possui forma é um ofensor, aparādhī. Kṛṣṇa diz: "Como alguém pode dizer que Eu não tenho forma? Eu falo, portanto, como não tenho forma?" Uma pessoa fala porque tem uma boca, não é mesmo? Você caminha; isso significa que você possui pernas. Apāṇi-pādo javano grahītā (Śvetāśvatara Upaniṣad 3.19) — quando é dito que Deus anda, mas não possui pernas, significa que Ele não possui pernas materiais, mas sim transcendentais. A Gītā explica tudo isso. Esse tipo de conhecimento chama-se conhecimento geral.
Primeiramente, é necessária uma aula de etiqueta, a qual ensina como respeitar a todos, como se sentar, falar e andar apropriadamente, etc. Você precisa aprender tudo isso. Os animais não aprendem a comer e a dormir apropriadamente — no mesmo lugar em que defecam, eles se deitam e dormem. Contudo, nós, que somos seres humanos, seguimos determinadas regras de etiqueta. Todos os dias, tomamos três banhos por dia, ou dois se estiver muito frio. Eu abro uma exceção para vocês. Às vezes, eu mesmo tomo banho duas vezes por dia. Mas quantas vezes os animais tomam banho? Nunca. Ocasionalmente, se você os colocar na água, eles tomarão banho, mas não será por vontade própria. Nós, no entanto, sendo seres humanos, temos o poder de discernir — o poder de saber o que é bom e o que é ruim.
tasmāc chāstraṁ pramāṇaṁ te
kāryākārya-vyavasthitau
jñātvā śāstra-vidhānoktaṁ
karma kartum ihārhasi
Bhagavad-gītā (16.24)
[“Portanto, em se tratando do que se deve e do que não se deve fazer, o śāstra é a única autoridade. Sendo assim, mantendo-se consciente daquilo que o śāstra lhe ensina a respeito de seus próprios deveres, aja simplesmente como instrumento.”]
Na Gītā, Kṛṣṇa diz para Arjuna: “O que você deve ou não fazer, consta prescrito nas escrituras.” O primeiro passo, portanto, é a etiqueta Vaiṣṇava. Esse é o primeiro tipo de conhecimento a se adquirir, chamado de conhecimento geral, sādhāraṇa-jñāna. Depois disso, você vai acessar o conhecimento especial, viśeṣa-jñāna, que afirma que nós não somos esse corpo, mas sim a alma. Esse corpo só funciona porque a alma está dentro dele.
Hoje, em Itajaí, nós estávamos caminhando na praia, e avistamos dois peixes grandes, mortos na areia, sem se mover. Anteriormente, eles estavam se movendo e nadando na água; mas se o corpo ainda existe, por que eles não estão mais se movendo? Porque a alma, ātmā, não está mais ali. Kṛṣṇa disse para Arjuna: “Todos aqueles que nascem, morrem.”
jātasya hi dhruvo mṛtyur
dhruvaṁ janma mṛtasya ca
tasmād aparihārye ’rthe
na tvaṁ śocitum arhasi
Bhagavad-gītā (2.27)
[“Para aquele que nasce, a morte é certa, e após a morte, ele voltará a nascer. Portanto, no inevitável cumprimento de seu dever, você não deve se lamentar.”]
Kṛṣṇa disse: “Todos que nascem, um dia irão morrer.” Posteriormente, nós podemos falar mais sobre isso, pois agora já são quase onze horas. Entre em contato comigo pelo Skype ou venha comigo para Matinhos. Mas não estou dizendo para você renunciar e abandonar a sua esposa. Não é isso que eu estou dizendo. Isso deixaria a sua esposa brava. Entre em contato comigo pelo Skype e leia a Bhagavad-gītā. Você precisa seguir os quatro princípios e cantar os santos nomes, pois dessa forma, alcançará a autorrealização.
Os assuntos espirituais não são somente teorias — eles precisam ser práticos. A ciência possui dois significados: o teórico e o prático. E é por meio da prática que a autorrealização é alcançada.
Gaura Premānande!
Hari Haribol!
Transcrição: Caitanya-sundarī devī dāsī (MS)
Edição: Kṛṣṇa-jīvanī devī dāsī (GO), Taruṇī-gopī dāsī (SP) e Gaurahari dāsa (SP)
Revisão: Acyuta-priyā devī dāsī (SP)
Diacríticos: Gaura-gopāla dāsa (SP)
Colaboração: Madana-gopāla dāsa (SC) e Premānanda dāsa (Espanha)
Ilustração: Śrīmatī Śyāmarāṇī dīdī


