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Bhagavad-gītā, o caminho para a autorrealização

  • Foto do escritor: Vana Madhuryam Brasil
    Vana Madhuryam Brasil
  • 15 de jan.
  • 23 min de leitura
Pintura "Bhagavad-gita", de Syamarani Didi

Śrīla Bhaktivedānta Vana Gosvāmī Mahārāja 

18 de julho de 2024, JaraguĆ” do Sul, Brasil


Neste mundo material, nós temos muito tempo para gastar e de diversas maneiras, mas, quando o assunto Ć© espiritualidade, o tempo parece sempre curto. Ainda assim, precisamos ouvir hari-kathā, as narrativas sobre o Senhor, pois Ć© assim que o nosso coração se purifica. Estamos reunidos neste belo local, especialmente preparado para a recitação doĀ Bhagavata-gÄ«tāmį¹›tam, e este ambiente Ć© muito auspicioso e favorĆ”vel para ouvir as palavras da Bhagavad-gÄ«tā. No mundo material, as pessoas em geral se envolvem em inĆŗmeras atividades materialistas, porĆ©m, ao ouvir as palavras da Bhagavad-gÄ«tā, elas ficam protegidas da ilusĆ£o deste mundo, māyā.Ā 


O significado da palavra ā€œgÄ«tÄā€


O que significa gÄ«tā? A palavra ā€œgÄ«ā€ vĆŖm de ā€œgį¹›hÄ«te gÄ«yate trayate iti gÄ«tÄā€. Gį¹›hÄ«te significa que, ao glorificar o Senhor, a pessoa Ć© protegida da ilusĆ£o. Na GÄ«tā estĆ” dito: ā€œÅ›rÄ« kṛṣṇa uvācaā€, significando que o próprio Senhor instruiu Arjuna diretamente. Kṛṣṇa Se manifestou na forma de śabda-brahman, a vibração transcendental, que Ć© muito poderosa.Ā 


Existem dois tipos de som (śabda): o material e o transcendental. Neste mundo, o que falamos uns aos outros Ć© o som material, chamado de śabda-sāmāna, e essa vibração atinge apenas o corpo e a mente. Por exemplo, se eu glorificar vocĆŖs, ficarĆ£o felizes, mas se eu usar palavras duras, ficarĆ£o chateados. PorĆ©m, essa vibração material diz respeito somente ao corpo e Ć  mente, ou seja, ela atinge o corpo denso, que Ć© fĆ­sico, e o corpo sutil, que Ć© mental. A ŚrÄ«mad Bhagavad-gÄ«tā explica que o corpo Ć© formado por cinco elementos e, dentro dele, hĆ” o corpo sutil, constituĆ­do de mente, inteligĆŖncia, ego e citta (coração/consciĆŖncia). O som material vibra apenas em nosso corpo material, tanto denso quanto sutil. Quando um cantor muito talentoso se apresenta em sua cidade, as pessoas podem ou nĆ£o entender o que ele canta, mas quando o ritmo sai de sua boca, todos se levantam e comeƧam a danƧar e cantar, nĆ£o Ć© verdade? Talvez vocĆŖs compreendam a letra, talvez nĆ£o, mas a vibração gera um efeito em seus corpos e em suas mentes. Assim, milhares de pessoas se reĆŗnem para cantar e danƧar.


HĆ” ainda o śabda-brahman, a vibração transcendental, que atinge o corpo fĆ­sico, a mente e a alma (ātmā). Enquanto o som material, śabda-sāmāna, nĆ£o toca a alma, o som espiritual, śabda-brahman, a alcanƧa. Portanto, gÄ«tā significa: ā€œgį¹›hÄ«te gÄ«yate trayate iti gÄ«tā — ao glorificar o Senhor, vocĆŖs ficarĆ£o protegido de māyā.ā€ Neste mundo material, māyā, a potĆŖncia ilusória do Senhor, Ć© muito poderosa. IlusĆ£o Ć© aquilo que nĆ£o Ć© verdade, mas que as pessoas passam a pensar que Ć©. ƀs vezes, quando estamos dirigindo ao meio-dia, no sol escaldante, olhamos para a estrada e, pelo reflexo da luz solar, parece que existem ondas de Ć”gua do mar no asfalto. No entanto, isso Ć© apenas uma ilusĆ£o. Da mesma maneira, māyā cria a ilusĆ£o e faz o que nĆ£o Ć© verdade parecer real. Por esse motivo, Kṛṣṇa disse: ā€œArjuna, ouƧa com atenção.ā€


daivÄ« hy eṣā guṇa-mayÄ«

mama māyā duratyayā

mām eva ye prapadyante

māyām etāṁ taranti te


Bhagavad-gītā (7.14)


[ā€œEsta Minha energia divina, que consiste dos trĆŖs modos da natureza material, Ć© difĆ­cil de ser suplantada. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente transpĆ“-la.ā€]


VocĆŖs precisam aprender esse śloka, caso contrĆ”rio, māyā os influenciarĆ”. Esse verso Ć© muitĆ­ssimo importante em nossa vida espiritual. Nele, Kṛṣṇa diz: ā€œĆ“ Arjuna, Minha daivÄ« māyā Ć© muito poderosa e ninguĆ©m pode conquistĆ”-la. Somente aquele que se rende completa e absolutamente aos Meus pĆ©s de lótus poderĆ” vencĆŖ-la.ā€Ā 


Voltando ao significado da palavra gÄ«tā, ā€œtÄā€ significa ā€œtrayateā€Ā ā€” protegido de māyā. Para proteger-se de māyā, Ć© necessĆ”rio render-se completa e absolutamente aos pĆ©s de lótus do Senhor — isso Ć© muito importante. Se vocĆŖs recitarem os versos da Bhagavad-gÄ«tā diariamente, ficarĆ£o protegidos de māyā, pois essa escritura sagrada Ć© uma manifestação direta da boca de lótus do Senhor, śabda-brahman.


Bhakti-yoga, o yoga da devoção


O Senhor Supremo, Bhagavān, apresentou todas essas conclusões filosóficas, tattva, a Arjuna na Bhagavad-gītā. Nos dezoito capítulos da Gītā, Ele nomeou os dezoito nomes do yoga, sendo três deles proeminentes: karma-yoga, bhakti-yoga e jñāna-yoga. Karma-yoga é descrito do primeiro ao sexto capítulo, bhakti-yoga do sétimo ao décimo segundo, correspondendo aos capítulos centrais, e jñāna-yoga do décimo terceiro ao décimo oitavo. Bhakti ocupa os capítulos centrais porque karma e jñāna não são ramificações de bhakti; eles não podem, de forma independente, produzir qualquer fruto sem estar sob o abrigo de bhakti.


kevala jƱāna ā€˜mukti’ dite nāre bhakti vine

kṛṣṇonmukhe sei mukti haya vinā jƱāne


ŚrÄ« Caitanya-caritāmį¹›taĀ (Madhya-lÄ«lā 22.21)


[ā€œO conhecimento especulativo por si só, sem o serviƧo devocional, nĆ£o Ć© capaz de conceder a libertação. Por outro lado, mesmo sem conhecimento, uma pessoa pode alcanƧar a libertação se estiver dedicada em serviƧo devocional ao Senhor.ā€]


Agora, irei discorrer sobre o significado de bhakti. ā€œBhajate savate iti bhaktiā€ — a palavra em sĆ¢nscrito bhajate significa servir, ou refere-se ao humor de serviƧo. Quando vocĆŖs servem alguĆ©m, essa pessoa automaticamente te abenƧoa; essa Ć© a natureza das coisas. No Mahābhārata, observamos que dois grupos estavam presentes no campo de batalha de Kurukį¹£etra: os filhos de PÄį¹‡įøu, chamados PÄį¹‡įøavas, e os filhos de Dhį¹›tarāṣṭra, chamados Kauravas. Esses dois grupos opostos chegaram ao campo de batalha para estabelecer a Verdade Absoluta, o dharma, a religiosidade — que Ć© perfeito e precisava ser restabelecido. Kṛṣṇa disse a Arjuna: ā€œSeu objetivo principal nĆ£o Ć© jaya, vitória, nem parājaya, derrota.ā€ Quando uma partida de futebol, como a Copa do Mundo, estĆ” acontecendo, por exemplo, vocĆŖs nĆ£o sabem quem sairĆ” vencedor. A seleção brasileira pode ser a mais poderosa e jogar contra a Argentina ou a Alemanha, mas a vitória ou a derrota nĆ£o estĆ” em suas mĆ£os. Similarmente, Kṛṣṇa disse a Arjuna: ā€œA derrota e a vitória nĆ£o estĆ£o em suas mĆ£os. VocĆŖ tem o direito de praticar as suas aƧƵes e cumprir seus deveres (karma), mas sou Eu quem concede o fruto.ā€


karmaṇy evādhikāras te

mā phaleṣu kadācana

mā karma-phala-hetur bhūr

mā te saį¹…go ’stv akarmaṇi


Bhagavad-gītā (2.47)


[ā€œVocĆŖ tem o direito de executar seu dever prescrito, mas nĆ£o tem o direito aos frutos da ação. Jamais se considere a causa dos resultados de suas atividades, e jamais se apegue ao nĆ£o-cumprimento do seu dever.ā€]


sukha-duįø„khe same kį¹›tvā

lābhālābhau jayājayau

tato yuddhāya yujyasva

naivaṁ pāpam avāpsyasi


Bhagavad-gītā (2.38)


[ā€œLute pelo simples fato de lutar, sem levar em consideração felicidade ou aflição, perda ou ganho, vitória ou derrota — e, adotando este procedimento, vocĆŖ nunca incorrerĆ” em pecado.ā€]


O agricultor, por exemplo, cultiva o campo e planta trigo, arroz e diversas outras sementes, deixando-o completamente verde. No Brasil hÔ muitos campos de arroz, assim como na Bengala, onde nasci. Como agricultores, vocês podem plantar diversos alimentos, como cana-de-açúcar, soja, feijão, trigo, arroz ou milho, mas o quanto colherão não depende de vocês. Em um determinado momento, o plantio pode estar perfeito e pronto para a colheita, mas, um dia antes, uma tempestade pode destruir tudo. Assim, como serÔ possível colher os frutos da plantação? Muitas pessoas que vivem na cidade talvez não tenham ideia disso, mas quem jÔ cultivou campos conhece bem essa experiência.


Kṛṣṇa disse: ā€œĆ“ Arjuna, escute atentamente. VocĆŖ nĆ£o veio ao campo de batalha de Kurukį¹£etra para se vingar dos Kauravas, como Duryodhana e DuḄśāsana. VocĆŖ veio estabelecer o dharma perfeito.ā€ NĆ£o Ć© nada fĆ”cil vencer os Kauravas, como Duryodhana, DuḄśāsana, Karṇa, Bhīṣma Pitāmahā e Droṇācārya — eles sĆ£o muito poderosos. Bhīṣma Pitāmahā, em especial, recebeu uma benção chamada icchāmį¹›tyu, que lhe permite escolher o momento exato de sua própria morte; dessa forma, ninguĆ©m poderia matĆ”-lo. O guru Droṇācārya tambĆ©m estava presente no campo de batalha, e como seria possĆ­vel para Arjuna derrotar o seu próprio mestre? Karṇa era extremamente poderoso, possuindo uma kavaca, um escudo para proteger seu peito, e um kuį¹‡įøala, um brinco especial; enquanto tivesse esses objetos, ninguĆ©m poderia matĆ”-lo. Aśvatthāma, o filho de Droṇācārya, recebeu a benção de viver nas quatro yugas — Satya, Tretā, Dvāpara e Kali-yuga —, o que o tornou invencĆ­vel. Portanto, quem poderia derrotar os Kauravas?


Arjuna lamenta no campo de batalha


Senayoįø„ ubhayoįø„ madhye — Arjuna disse a Kṛṣṇa: ā€œQuero ver os dois exĆ©rcitos. Por favor, coloque minha quadriga no meio do campo de batalha para que eu possa ver os dois lados.ā€ Assim como no inĆ­cio de uma partida de futebol, quando sĆ£o apresentados os onze jogadores brasileiros e os onze argentinos para que todos identifiquem quem entrarĆ” em campo, Arjuna desejava ver quem estava ali. EntĆ£o, ele observou todos os seus parentes e se sentiu decepcionado: ā€œTodos os meus parentes irĆ£o morrer!ā€ Arjuna tinha um certo ego: ā€œEu tenho este arco GÄį¹‡įøÄ«va, e com ele, posso matar qualquer um. Mas como posso matar meu avĆ“ Bhīṣma Pitāmaha? Quando eu era crianƧa, me deitava em seu colo e ele me alimentava com arroz e leite. Como posso matar meu guru Droṇācārya, que me ensinou tudo sobre arquearia? Como posso matar todo o meu guru-vargaĀ (sucessĆ£o discipular) que estĆ” do lado oposto? Se eu atacar todos eles, e eles realmente morrerem, que benefĆ­cio terei? Ɖ verdade que assim eu conquistaria essa terra, mas ela estaria completamente manchada com o sangue deles. Muitas mulheres se tornariam viĆŗvas, muitas pessoas morreriam e todos sofreriam; haveria cremaƧƵes se dando em todas as direƧƵes.ā€


Desse modo, Arjuna ficou viṣāda, infeliz. Contudo, Kṛṣṇa o inspirou: ā€œĆ“ Arjuna! VocĆŖ estĆ” pensando que irĆ” matar Bhīṣma Pitāmaha, Droṇācārya, Karṇa e Aśvatthāmā, mas tente entender que nĆ£o Ć© tĆ£o fĆ”cil vencĆŖ-los.ā€ O primeiro capĆ­tulo da Bhagavad-gÄ«tā chama-se Viṣāda-yogaĀ e ele apresenta um panorama muito claro sobre tudo o que estĆ” acontecendo. Kṛṣṇa disse: ā€œArjuna, ouƧa com atenção. VocĆŖ tem o direito de executar a ação, porĆ©m, a vitória ou a derrota nĆ£o estĆ” em suas mĆ£os. Acorde! Pare com essa lamentação! NĆ£o pense que vocĆŖ veio atĆ© aqui para se vingar! De fato, os Kauravas atearam fogo na casa dos PÄį¹‡įøavas, deram veneno para BhÄ«ma e tentaram despir DraupadÄ« diante de todos, mas nĆ£o pense que, ao derrotĆ”-los, se vingarĆ”. VocĆŖs vieram atĆ© aqui para estabelecer a Verdade Absoluta, o dharma.ā€Ā 


ā€œDuryodhana e DuḄśāsana sĆ£o a personificação do pecado, pāpa-mÅ«rti, e estĆ£o protegidos por uma parede imensa e muito poderosa — Bhīṣma Pitāmaha, Droṇācārya, Karṇa e Aśvatthāmā, que nĆ£o sĆ£o pessoas comuns. Primeiro Ć© preciso quebrar essa parede, pois se vocĆŖ nĆ£o os matar primeiro, como irĆ” derrotar Duryodhana e DuḄśāsana?ā€ EntĆ£o, Arjuna compreendeu a verdade: ā€œEu nĆ£o posso derrotar o meu guru-varga — isso Ć© impossĆ­vel! Agora, o que devo fazer e o que devo evitar? NĆ£o sei maisā€¦ā€ Diante disso, Kṛṣṇa disse: ā€œSimplesmente renda-se a Mim.ā€ Esta Ć© uma instrução poderosa da Bhagavad-gÄ«tā.


sarva-dharmān parityajya

mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja

ahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo

mokį¹£ayiį¹£yāmi mā śucaįø„


Bhagavad-gītā (18.66)


[ā€œAbandone todas as variedades de religiĆ£o e simplesmente renda-se a Mim. Eu o libertarei de todas as reaƧƵes pecaminosas. NĆ£o tema.ā€]


Kṛṣṇa diz: ā€œAbandone todos os seus deveres e renda-se completamente a Mim.ā€ VocĆŖs podem pensar: ā€œSe eu abandonar todos os meus deveres sociais, posso ir para o inferno.ā€ Mas Kṛṣṇa afirma: ā€œEu sou Bhagavān, a Suprema Personalidade de Deus. Renda-se a Mim e Eu o libertarei de todas as consequĆŖncias das suas atividades pecaminosas.ā€ No entanto, Ć© importante lembrar que muitas pessoas nĆ£o sabem realmente o que Ć© dharma, a verdade, e o que Ć© adharma, a inverdade.


O significado de dharma


Satyam vada satyam eva jayate — todas as glórias Ć  verdade. Falem sempre a verdade, pois mentir Ć© adharma. Satyam Ć© a Verdade Absoluta, mas o que significa essa Verdade, e o que sĆ£o dharma e adharma?


tatraiva śrÄ«-bhagavad-vākyaṁ

maṇ-ṇiṃittaṃ kį¹›taṃ pāpaṁ

api dharmāya kalpate

mām anādį¹›tya dharmo 'pi

pāpaṃ syān mat-prabhāvataḄ


Padma-Purāṇa; Hari-bhakti-vilāsaĀ (110), de ŚrÄ«la Sanātana GosvāmÄ«pāda


[ā€œNo Padma Purāṇa, a Suprema Personalidade de Deus disse: ā€˜Se alguĆ©m peca por Minha causa, seus pecados se tornam atos piedosos. Mas se alguĆ©m se recusa a Me adorar, entĆ£o, pelo Meu poder, seus atos piedosos se tornam pecados.ā€ā€™]


No Mahābhārata, Kṛṣṇa explica que quem se rende completa e absolutamente a Ele, mesmo que cometa alguma pequena ação pecaminosa, ainda assim estĆ” agindo de acordo com o dharma. Por outro lado, alguĆ©m que realiza muitas atividades piedosas, mas nĆ£o se rende a Kṛṣṇa, estĆ”, na verdade, praticando adharma.


Proteger a vida de alguĆ©m Ć© bom ou nĆ£o Ć©? Um aƧougueiro mata animais, principalmente vacas. Isso Ć© correto? Imaginem que uma vaca conseguiu fugir de um aƧougueiro, e ele estĆ” correndo atrĆ”s dela. VocĆŖs, sendo pessoas piedosas e veganas, veem a cena. Após a vaca passar correndo, o aƧougueiro, que vinha alguns metros atrĆ”s, pergunta: ā€œVocĆŖ viu minha vaca passar por aqui?ā€ O que vocĆŖs responderiam? Se ela correu para a direita, vocĆŖs diriam que foi para a esquerda. Salvar uma vida estĆ” alinhado com o dharma, mas mentir Ć© adharma. E agora? Quando vocĆŖs contam uma mentira para proteger uma vida, isso estĆ” de acordo com o dharma. Kṛṣṇa diz: ā€œmaṇ-ṇiṃittaṃ kį¹›taṃ pāpaṁ api dharmāya kalpate — se vocĆŖ praticar uma atividade aparentemente pecaminosa por Minha causa, isso se torna dharma.ā€ Assim, a definição de dharma Ć©:


dharma-mūlaṁ hi bhagavān

sarva-vedamayo hariįø„

smį¹›taṁ ca tad-vidāṁ rājan

yena cātmā prasīdati


Śrīmad-Bhāgavatam (7.11.7)


[ā€œO Ser Supremo, a Personalidade de Deus, Ć© a essĆŖncia de todo o conhecimento vĆ©dico, a raiz de todos os princĆ­pios religiosos e a memória das grandes autoridades. Ɠ rei Yudhiṣṭhira, este princĆ­pio da religiĆ£o se manifesta como uma evidĆŖncia. Com base nesse princĆ­pio religioso, tudo se satisfaz, inclusive a mente, a alma e atĆ© mesmo o corpo.ā€]


Kṛṣṇa Ć© a fonte original de todo tipo de dharma. Ele diz: ā€œA pessoa que nĆ£o se entrega a Mim, mas faz muitas atividades piedosas, estĆ” realizando adharma.ā€ No campo de batalha de Kurukį¹£etra, Kṛṣṇa observou como Yudhiṣṭhira Mahārāja nunca mente. Ele instruiu Yudhiṣṭhira: ā€œDiga que Aśvatthāmā morreu no campo de batalha!ā€ No entanto, Yudhiṣṭhira respondeu: ā€œKṛṣṇa, mas estou vendo que Aśvatthāmā, o filho de Droṇācārya, estĆ” vivo. Como direi que ele abandonou seu corpo?ā€ Kṛṣṇa insistiu: ā€œEstou pedindo que diga isso!ā€ Mas Yudhiṣṭhira Mahārāja nĆ£o o fez.


Kṛṣṇa entĆ£o instruiu BhÄ«ma. Havia um elefante vindo em sua direção, e Kṛṣṇa falou para BhÄ«ma: ā€œMate aquele elefante, cujo nome Ć© Aśvatthāmā.ā€ BhÄ«ma obedeceu e matou o elefante. EntĆ£o, Kṛṣṇa disse: ā€œYudhiṣṭhira, agora vocĆŖ pode dizer que Aśvatthāmā foi morto no campo de batalha.ā€ Assim sendo, Yudhiṣṭhira Mahārāja anunciou: ā€œaśvatthāmā hataįø„ hataįø„ naro vā kuƱjaraįø„!ā€ No entanto, quando Yudhiṣṭhira pronunciou a palavra ā€œnaraā€ informando que o elefante Aśvatthāmā estava morto, Kṛṣṇa soprou Sua concha e nĆ£o foi possĆ­vel ouvir a palavra ā€œelefanteā€. Ao ouvir isso, Droṇācārya, que era o pai de Aśvatthāmā, disse: ā€œComo Ć© possĆ­vel que meu filho esteja morto? Mas se Yudhiṣṭhira Mahārāja disse isso, essa Ć© a Verdade Absolutaā€¦ā€ Naquele momento, Droṇācārya largou suas armas, e o irmĆ£o de DraupadÄ«, Dhṛṣṭadyumna, cortou sua cabeƧa. O Mahābhārata estabelece que tudo que o Senhor Supremo diz Ć© a Verdade Absoluta. Por isso, na Bhagavad-gÄ«tā, Kṛṣṇa diz: ā€œQuem foi morto? A ātmā (alma) Ć© eterna e transcendental. Ela nĆ£o morre.ā€ Esse Ć© o primeiro tipo de conhecimento da Bhagavad-gÄ«tā.Ā 


Os conhecimentos presentes na Bhagavad-gītā


Se vocĆŖs pesquisarem toda a Bhagavad-gÄ«tā, observarĆ£o que ela contĆ©m 745 ślokas (versos), porĆ©m apenas cinco tipos de conhecimento estĆ£o presentes nela. O primeiro Ć© o conhecimento geral, sādhāraṇa-jƱāna; o segundo Ć© o conhecimento especializado, viśeį¹£a-jƱāna; o terceiro Ć© o conhecimento sobre o brahman, brahma-jƱāna; e o quarto Ć© o conhecimento sobre a alma, ātma-jƱāna.


sarva-guhyatamaṁ bhūyaḄ

śṛṇu me paramaṁ vacaįø„

iṣṭo ’si me dį¹›įøham iti

tato vakṣyāmi te hitam


Bhagavad-gītā (18.64)


[ā€œOuƧa mais uma vez o Meu ensinamento supremo, a mais secreta de todas as categorias de conhecimento. Como vocĆŖ Me Ć© queridĆ­ssimo, Eu, pensando em seu benefĆ­cio, torno a falar-lhe disso.ā€]


Por fim, o quinto Ć© o conhecimento mais elevado, o qual Kṛṣṇa explica para Arjuna. VocĆŖs podem estudar a Bhagavad-gÄ«tā por completo, nĆ£o tem problema algum, mas se aprenderem vinte e cinco versos especĆ­ficos da GÄ«tā, isso serĆ” o suficiente, pois todo o tattva-siddhānta (conclusƵes filosóficas) estĆ” presente neles.


Se vocĆŖs tĆŖm muito conhecimento e o seu cĆ©rebro Ć© aguƧado, entĆ£o poderĆ£o aprender esses versos sem dificuldades, assim como meu Gurudeva, ŚrÄ«la Bhaktivedānta Vāmana GosvāmÄ« Mahārāja. Ele tinha um vasto conhecimento de todos os Vedas, PurāṇasĀ e Upaniį¹£ads, e sabia todos os versos de qualquer escritura. Por isso, todos os devotos, os GauįøÄ«ya Vaiṣṇavas mais elevados, deram a ele o tĆ­tulo de ā€œdicionĆ”rio GauįøÄ«yaā€. Se vocĆŖs nĆ£o encontrassem um verso ou evidĆŖncia especĆ­fica das escrituras, era só perguntar para ele, pois ele indicava o local exato do verso na escritura correspondente. No quarto dele havia muitas escrituras sagradas. As pessoas lhe perguntavam se ele havia lido todos aqueles livros, e ele dizia que sim. Se vocĆŖ abrisse qualquer pĆ”gina e perguntasse o conteĆŗdo que havia nela, ele saberia.Ā 


Certa vez, perguntei para ele: ā€œGurudeva, quantos versos vocĆŖ sabe?ā€ Ele respondeu: "Se eu falar sem parar por sete dias e sete noites, sem dormir, ainda assim nĆ£o conseguirei dizer tudo o que sei." Seu poder de memória, smaraṇa-śakti, era maravilhoso. Ele dizia: ā€œEsse śloka veio deste livro, desta edição e foi publicado por essa editora.ā€ Quando perguntamos, por exemplo, de qual capĆ­tulo da Bhagavad-gÄ«tā é determinado verso, pode ser muito difĆ­cil se lembrar. Mas meu Gurudeva tinha acesso ao conhecimento completo dos Vedas, Purāṇas e Upaniį¹£ads. Os versos danƧavam na lĆ­ngua dele.Ā 


Portanto, se vocĆŖs tiverem um cĆ©rebro igual ao do meu Gurudeva, aproveitem e aprendam. VocĆŖs abrirĆ£o uma pĆ”gina e tudo virĆ” para os seus coraƧƵes. O cĆ©rebro de algumas pessoas Ć© muito aguƧado. No entanto, se vocĆŖs nĆ£o conseguem aprender todos os ślokas, vinte e cinco versos da Bhagavad-gÄ«tā serĆ£o o suficiente. Conforme falei anteriormente, existem cinco tipos de conhecimento na Bhagavad-gÄ«tā, e cada um desses temas possui cinco versos essenciais, totalizando vinte e cinco versos. Quando aprendĆŖ-los, vocĆŖs poderĆ£o responder qualquer tipo de pergunta.


Na Bhagavad-gÄ«tā, Ć© possĆ­vel encontrar todos os tipos de doutrinas. Qualquer pergunta que surgir em sua mente, vocĆŖs poderĆ£o sanĆ”-la acessando os versos da GÄ«tā. Quantos versos vocĆŖs tĆŖm que aprender? Vinte e cinco versos, nem mais nem menos. Isso Ć© o suficiente — 100% garantido.Ā 


NaĀ GÄ«tā, as seguintes categorias de conhecimento estĆ£o presentes: ātma-jƱāna, conhecimento sobre a alma; sādhāraṇa-jƱāna, conhecimento geral; viśeį¹£a-jƱāna, conhecimento especial; brahma-jƱānaĀ e guhya-jƱāna, conhecimento confidencial; guhyatama-jƱāna, o conhecimento mais confidencial e sarva-guhyatamaṁ bhÅ«yaįø„ śṛṇu me paramaṁ vacaįø„, o conhecimento secretĆ­ssimo. Muita gente diz que Kṛṣṇa Ć© o maior dos polĆ­ticos, mas isso nĆ£o Ć© verdade. Na ŚrÄ«madĀ Bhagavad-gÄ«tā, nĆ£o Ć© papel de Kṛṣṇa desempenhar um papel polĆ­tico, mas sim estabelecer a Verdade Absoluta Suprema. Por isso, Ele diz:


yada yada hi dharmasya

glanir bhavati bharata

abhyuttanam adharmasyaĀ 

tadatmanan srjamy aham


Bhagavad-gītā (4.7)


[ā€œSempre e onde quer que haja um declĆ­nio na prĆ”tica religiosa, ó descendente de Bharata, e uma ascensĆ£o predominante de irreligiĆ£o — aĆ­ entĆ£o Eu próprio descendo.ā€]


paritrāṇāya sādhÅ«nāṁ

vināśāya ca duį¹£kį¹›tām

dharma-saṁsthāpanārthāya

sambhavāmi yuge yuge


Bhagavad-gītā (4.8)


[ā€œPara libertar os piedosos e aniquilar os descrentes, bem como para restabelecer os princĆ­pios da religiĆ£o, Eu mesmo venho, milĆŖnio após milĆŖnio.ā€]


Isso Ć© muito importante e nĆ£o tem nada a ver com diplomacia e polĆ­tica. Ele veio estabelecer a Verdade Absoluta e Suprema, satyaṁ eva. Por que estou dizendo tudo isso? Porque Kṛṣṇa falou para Arjuna: ā€œVocĆŖ veio atĆ© aqui para estabelecer a Verdade Absoluta.ā€


Yudhiṣṭhira Mahārāja se considerava o protetor do dharma, mas Kṛṣṇa disse: ā€œEu sou o protetor do dharma.ā€ Yudhiṣṭhira Mahārāja, no entanto, nĆ£o seguiu a instrução de Kṛṣṇa, e por essa razĆ£o, ele sofreu um pouco. Da mesma forma, se vocĆŖs nĆ£o seguirem a instrução do Senhor, que Ć© a personificação do dharma, sofrerĆ£o.


yatra gÄ«tā-vicāraś ca paį¹­hanaṁ pāṭhanaṁ tathā

modate tatra śrÄ«-kṛṣṇo bhagavān rādhayā saha


ŚrÄ« VaiṣṇavÄ«ya-tantra-sāraĀ (43)


[ā€œCom supremo ĆŖxtase, o Senhor Supremo ŚrÄ« Kṛṣṇa e Sua divina consorte, ŚrÄ« Rādhikā, estĆ£o graciosamente presentes onde quer que a concepção da escritura da GÄ«tā seja discutida, estudada e ensinada.ā€]


gÄ«tā me hį¹›dayaṁ pārtha gÄ«tā me sāram uttamam

gītā me jñānam atyugraṁ gītā me jñānam avyayam


ŚrÄ« VaiṣṇavÄ«ya-tantra-sāraĀ (44)


[ā€œO Senhor Supremo disse: ā€˜Ć“ Pārtha, a GÄ«tā é o Meu coração, a GÄ«tā Ć© a Minha essĆŖncia suprema, e a GÄ«tā Ć© o conhecimento mais poderoso e imperecĆ­vel sobre Mim.ā€ā€™]


Vejam quĆ£o poderosa Ć© a Bhagavad-gÄ«tā. Se vocĆŖs glorificarem, ouvirem e lerem a GÄ«tā, o próprio Kṛṣṇa, com Sua potĆŖncia interna ŚrÄ«matÄ« Rādhikā, aparecerĆ” diante de vocĆŖs. A GÄ«tā nĆ£o Ć© um livro comum, ela Ć© uma vibração transcendental. Se vocĆŖs lerem um pouquinho da GÄ«tā todos os dias, alcanƧarĆ£o a autorrealização. Nela, especialmente bhakti-yoga foi estabelecida por Kṛṣṇa.


man-manā bhava mad-bhakto

mad-yājī māṁ namaskuru

mām evaiṣyasi yuktvaivam

ātmānaṁ mat-parāyaṇaįø„


Bhagavad-gītā (9.34)


[ā€œOcupe sua mente em pensar sempre em Mim, torne-se Meu devoto, ofereƧa-Me reverĆŖncias e Me adore. Estando absorto por completo em Mim, com certeza vocĆŖ virĆ” a Mim.ā€]


Esse verso Ć© muito importante. A ŚrÄ«mad Bhagavad-gÄ«tā é essencial na nossa vida espiritual. A Bhagavad-gÄ«tā nĆ£o Ć© uma obra mitológica, mas sim um conhecimento prĆ”tico que proporciona a autorrealização, transcendendo castas, raƧas e quaisquer outras designaƧƵes. Todos podem ler a Bhagavad-gÄ«tā. NĆ£o pensem que a Bhagavad-gÄ«tā é apenas um livro religioso dos hindus, porque isso nĆ£o Ć© verdade. O próprio Kṛṣṇa estabeleceu a GÄ«tā — este Ć© um granthaĀ (escritura) poderosĆ­ssimo! Portanto, todos devem lĆŖ-lo.


Não irei tomar mais do tempo de vocês. Agradeço a gentileza por me darem a chance de falar esse hari-kathā. Aqui hÔ muitos devotos, e vocês devem ficar inspirados em sua vida espiritual. Todos os dias, leiam a Bhagavad-gītā e preguem-na para todos. Este é o ensinamento de Śrī Caitanya Mahāprabhu. O Senhor Caitanya afirmou que, nesta era de Kali-yuga, não hÔ outro caminho para alcançar o Senhor além do cantar dos santos nomes.


harer nāma harer nāma

harer nāmaiva kevalam

kalau nāsty eva nāsty eva

nāsty eva gatir anyathā


ŚrÄ« Caitanya-caritāmį¹›taĀ (Madhya-lÄ«lā 6.242)


[ā€œNesta era de brigas e hipocrisia, o Ćŗnico meio de libertação Ć© o canto dos santos nomes do Senhor. NĆ£o hĆ” outro caminho. NĆ£o hĆ” outro caminho. NĆ£o hĆ” outro caminho.ā€]


Nesta era de Kali, não existe nenhum outro método para se alcançar a morada do Senhor além do cantar dos santos nomes. O Senhor investiu toda a Sua potência nos Seus santos nomes, e o santo nome dEle é mais elevado do que Ele mesmo.


Hari se baįøÄ hari kā nāma — o santo nome Ć© mais elevado que o próprio ŚrÄ« Hari. NĆ£o existe nenhuma regra para cantĆ”-lo; pode ser ao meio-dia, Ć  meia-noite, a qualquer momento! Se vocĆŖs o cantarem, seus coraƧƵes ficarĆ£o muito contentes. Portanto, cantem os santos nomes e sejam felizes!


O significado do mahā-mantra Hare Kṛṣṇa


ā€œHareā€ significa ŚrÄ«matÄ« Rādhikā, pois, em sĆ¢nscrito, o nome original d’Ela Ć© Harā. No entanto, no vocativo, quando vocĆŖ chama ŚrÄ«matÄ« Rādhikā, o nome Harā se transforma em Hare — e por essa razĆ£o, cantamos ā€œHareā€.


Kṛṣṇasya mano haratÄ«ti harā rādhā, tasyāḄ saṁbodhane he hare — ā€œÅšrÄ«matÄ« Rādhikā, que rouba a mente de ŚrÄ« Kṛṣṇa, Ć© chamada de Harā. Ela Ć© invocada como: ā€˜He Hare!ā€™ā€ ŚrÄ«matÄ« Rādhikā rouba o coração de Kṛṣṇa com Sua belĆ­ssima forma e atividades. JĆ” Kṛṣṇa vem de ā€œkṛṣ-dhātuā€, a raiz verbal ā€œatrairā€, pois Ele atrai todos os seres vivos aos Seus pĆ©s de lótus. Por isso, nós cantamos:


Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa

Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare

Hare Rāma Hare Rāma

Rāma Rāma Hare Hare


O nome ā€œRāmaā€ vem de ā€œramayati iti rāmaā€,Ā que significa ā€œKṛṣṇa estĆ” sempre brincando com ŚrÄ«matÄ« RādhikÄā€ — daĆ­ de Seu nome ser Rāma. Por essa razĆ£o, cantamos: ā€œmero rādhā-ramaṇa giridhārÄ«, giridhārÄ« syāma vana bariā€. O nome de Kṛṣṇa Ć© Ramaṇa BihārÄ«, pois Ele sempre estĆ” brincando com ŚrÄ«matÄ« Rādhikā. Assim, lembre-se sempre destes 16 nomes ou 32 sĆ­labas. Nesta Kali-yuga, o Ćŗnico meio de alcanƧar o Senhor Ć© pelo cantar do mahā-mantra.


Quando estes santos nomes se manifestarem em sua língua, todos os seus pecados serão destruídos. Mas para isso, sigam os quatro princípios. Nessa Kali-yuga, nós não conseguimos realizar sacrifícios e austeridades. Todavia, siga os quatro princípios, que são: 1) não comer carne, peixe e ovos; 2) não se intoxicar; 2) não fazer sexo fora do casamento; e 4) não jogar jogos de azar.


Também tenham compaixão e amor por todos os seres vivos. Não matem nenhum ser vivo. Não matem nenhum animal. Dêem amor e carinho a todos os seres. Não comam carne, peixe, ovos, alho e cebola, e sejam compassivos com os animais. Isso é muito importante, pois o Senhor nos deu esse cérebro para diferenciar o certo do errado. Portanto, cantem os santos nomes, sigam os quatro princípios, dêem afeto a todos os seres vivos, e assim, suas vidas serão bem-sucedidas.


Tentem se tornar vegetarianos, mas façam tudo passo a passo, com calma. Se o bambu é muito comprido, por exemplo, em um único dia vocês não conseguem dobrÔ-lo. Quando o bambu ainda estÔ verde, é fÔcil dobrÔ-lo. No entanto, quando esse mesmo bambu estÔ muito seco e velho, ele acaba quebrando com facilidade. Contudo, se vocês torcerem o bambu aos poucos todos os dias, ele acabarÔ dobrando. Similarmente, devagar, passo a passo, tentem se tornar vegetarianos, mas não adianta forçar. Comecem aos poucos. Não é bom assim? 


Ɖ necessĆ”rio dar amor, carinho e compaixĆ£o aos outros; sem isso, a vida Ć© inĆŗtil. Assim, pouco a pouco, cantem harināmaĀ e faƧam bhajana e sādhana, porque esse corpo humano Ć© muito raro. NĆ£o hĆ” garantia de que, no próximo nascimento, vocĆŖs terĆ£o um corpo humano, mas se seguirem esses quatro princĆ­pios e cantarem os santos nomes, terĆ£o isso 100% garantido.


Nityānanda Prabhu fez uma promessa de mĆ£os erguidas: ā€œYatheṣṭaṁ re bhrātaįø„! kuru hari-hari-dhvānam aniśaṁ — Ɠ meus irmĆ£os e irmĆ£s, estou prometendo a vocĆŖs e fazendo um voto de que, se cantarem os doces santos nomes ā€˜Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare, Hare Rāma Hare Rāma, Rāma Rāma Hare Hare’, na próxima vida alcanƧarĆ£o a morada eterna do Senhor Supremo.ā€ No entanto, vocĆŖs devem prestar muita atenção para nĆ£o cometer as dez ofensas ao santo nome, nāma-aparadha.Ā 


A primeira nāma-aparādhaĀ Ć©: nunca critique o sādhuĀ (santo). Se vocĆŖs criticarem a pessoa santa, perderĆ£o tudo. Gurudeva disse: ā€œQuem critica o sādhuĀ nĆ£o Ć© nem mesmo considerado um ser humano.ā€ Jamais critique a pessoa santa, pois isto Ć© sātāṁ-nindā.


A segunda nāma-aparādhaĀ Ć©: nunca pense que o nome de Śiva Ć© igual ao nome de Kṛṣṇa. ŚrÄ« Kṛṣṇa Ć© a Suprema Personalidade de Deus, e ŚivajÄ« Ć© Seu sevaka (servo). O Senhor Śiva Ć© o melhor dos devotos do Senhor, vaiṣṇavānāṁ yathā śambhuįø„. Assim, nós devemos respeitĆ”-lo como o maior dos Vaiṣṇavas.


A terceira nāma-aparādhaĀ Ć©: nunca desonre o guru, guror avajƱā. Cante os santos nomes e sua vida serĆ” bem-sucedida. TamasoĀ mā jyotir gamaya — nĆ£o vĆ” para māyā. Por favor, nĆ£o vĆ” em direção a māyā, e pare de conversas paralelas. Venham para a luz. Quando alguĆ©m estĆ” falando hari-kathā e vocĆŖs ficam conversando paralelamente, isso Ć© desonra. VocĆŖs estĆ£o desonrando o Senhor que estĆ” presente na forma do hari-kathā. Essa palestra Ć© o próprio ŚrÄ« Hari. Assim, por favor, cantem os santos nomes e sejam felizes.


Vejam, este belíssimo Śrī Caitanya Mahāprabhu veio até aqui! [Śrīla Gurudeva aponta para a Deidade de Mahāprabhu]. Ele é a personificação da munificência e da magnanimidade, e estÔ dando bênçãos para todos com a Sua mão erguida. 


Bolo Śacīnandana Gaurahari kī jaya! 

Jaya jaya Śrī Rādhe!


Agora, tomem mahā-prasāda e voltem para suas casas. Amanhã, haverÔ mais hari-kathā.


Perguntas e respostas


[Um convidado se aproxima de Śrīla Gurudeva para agradecer a oportunidade de estar presente naquela aula e faz as seguintes perguntas:]


Convidado: Os vinte e cinco versos da Bhagavad-gītā para decorar são específicos ou são versos que tocam meu coração?


ŚrÄ«la Gurudeva:Ā SĆ£o vinte e cinco versos especĆ­ficos, e todo o tattva-siddhāntaĀ (conclusƵes filosóficas) estĆ” presente neles. Mas primeiro, tente ler todos os ślokasĀ da Bhagavad-gÄ«tā. VocĆŖ precisa aprender especificamente esses vinte e cinco versos, mas nĆ£o Ć© para ignorar os outros e aprender somente estes. Contudo, nos vinte e cinco versos, vocĆŖ encontrarĆ” respostas especĆ­ficas. Toda a filosofia estĆ” presente na GÄ«tā.


Darei um exemplo. HĆ” quem fale: ā€œTudo vem da natureza; mas quem plantou as Ć”rvores da floresta? Quem plantou no alto da montanha? Por acaso isso Ć© automĆ”tico?ā€ As pessoas dizem isso, nĆ£o dizem? Mas existem vĆ”rios tipos de insetos que surgem da terra. Quando o esterco da vaca estĆ” velho, fica cheio de bichinhos. De onde vieram esses bichinhos? As pessoas dizem: ā€œIsso vem da natureza, prakį¹›ti. A natureza Ć© quem faz tudo, e isso Ć© prakį¹›ti-bhata.ā€ No entanto, a ŚrÄ«mad Bhagavad-gÄ«tā diz que prakį¹›ti, a natureza, nĆ£o pode fazer nada por conta própria.


mayādhyakį¹£eṇa prakį¹›tiįø„

sūyate sa-carācaram

hetunānena kaunteya

jagad viparivartate


Bhagavad-gītā (9.10)


[ā€œĆ“ filho de KuntÄ«, orientada por Mim, Minha māyā-śakti (potĆŖncia externa) dĆ” Ć  luz a manifestação cósmica com seus seres vivos móveis e imóveis. Por essa razĆ£o, o mundo material passa por ciclos repetidos de criação.ā€]


Kṛṣṇa disse: ā€œDe acordo com a Minha orientação, a natureza cria todas as coisas.ā€ Eu nĆ£o quero falar muito, mas as pessoas frequentemente utilizam a palavra ā€œautomĆ”ticoā€. No entanto, no universo nĆ£o existe nada automĆ”tico. VocĆŖ estĆ” deitado na sua cama, por exemplo, e a sua TV estĆ” ligada. Seu filho lhe pergunta: ā€œPai, como essa TV funciona?ā€ Na sua mĆ£o estĆ” o controle remoto, mas a crianƧa nĆ£o viu que era o controle quem fazia a televisĆ£o funcionar. EntĆ£o, vocĆŖ responde a ela: ā€œA TV Ć© automĆ”ticaā€, mas nĆ£o, ela nĆ£o Ć© automĆ”tica.Ā 


Nós falamos ā€œporta automĆ”ticaā€, mas ela nĆ£o Ć© automĆ”tica coisa nenhuma. Por que a porta abre automaticamente? Porque tem um sensor, um aparelho eletrĆ“nico, que Ć© instalado na porta para sentir a presenƧa e abrir. No entanto, se vocĆŖ retirar esse dispositivo eletrĆ“nico, a porta deixa de ser automĆ”tica. A ciĆŖncia estĆ” muito avanƧada, e por isso, tudo parece ser automĆ”tico. Contudo, hĆ” sempre alguĆ©m por trĆ”s controlando tudo.Ā 


Como uma empresa funciona? HĆ” sempre um diretor, funcionĆ”rios e equipes, mas o direcionamento vem do CEO da empresa. Ele ordena e todos executam. Assim, Kṛṣṇa falou exatamente isso na Bhagavad-gÄ«tā: ā€œmayādhyakį¹£eṇa prakį¹›tiįø„, sÅ«yate sa-carācaram — Eu Sou o Controlador Supremo. Eu controlo todas as coisas que acontecem, Ć s vezes de forma direta, Ć s vezes de forma indireta.ā€Ā Leia toda a Bhagavad-gÄ«tā, pois tudo estĆ” lĆ” — tanto a ciĆŖncia material quanto a ciĆŖncia espiritual. Por essa razĆ£o, leia-a.


Convidado: Estou lendo a Bhagavad-gītā hÔ quase um ano. Gostaria de saber quais são os vinte e cinco versos que nós devemos decorar.


ŚrÄ«la Gurudeva: Fale comigo pelo Skype e eu lhe direi. NĆ£o direi esses versos para qualquer pessoa; direi apenas para quem quer aprendĆŖ-los. SenĆ£o, as pessoas dirĆ£o: ā€œNĆ£o lerei o restante da GÄ«tā, lerei somente estes versos e jĆ” Ć© o suficiente.ā€ Mas nĆ£o Ć© bem assim. Todas as filosofias e conclusƵes filosóficas, tattva-siddhānta, estĆ£o presentes na Bhagavad-gÄ«tā.


Com os versos da GÄ«tā, vocĆŖ pode, por exemplo, derrotar a filosofia impersonalista, que Ć© a filosofia das pessoas que dizem: ā€œEu sou Brahman, eu sou Deus.ā€ VocĆŖ nĆ£o Ć© Deus, vocĆŖ pertence a Deus. A GÄ«tā afirma que aqueles que dizem que sĆ£o Deus irĆ£o sofrer. A BĆ­blia tambĆ©m afirma isso. Jesus nunca disse: ā€œEu sou Deus.ā€ Ele disse: ā€œEu sou filho de Deus — Ele Ć© meu Pai, e eu sou Seu filho.ā€Ā 


Deus Ć© amor, e amor Ć© Deus. Deus Ć© a Personificação do Amor Divino. A BĆ­blia e a Bhagavad-gÄ«tā dizem exatamente a mesma coisa — somente a maneira de dizer Ć© diferente, mas o conteĆŗdo Ć© igual. Se vocĆŖ ler a GÄ«tā, a BĆ­blia e o ŚrÄ«mad-Bhāgavatam, verĆ” como sĆ£o iguais. Ɖ como diz um ditado popular: ā€œEstes sĆ£o o mesmo vinho, mas em garrafas diferentes.ā€


As escrituras vĆ©dicas dizem ā€œahiṁsā paramo dharmaḄ — a nĆ£o violĆŖncia Ć© a maior virtude.ā€ E a BĆ­blia diz: ā€œNĆ£o matarĆ”s. DĆŖ amor e carinho a todos os seres vivos. A compaixĆ£o Ć© a maior virtude. Seja compassivo com todos.ā€ A mensagem da BĆ­blia Ć© a mesma que ā€œahiṁsā paramo dharmaįø„ā€, porĆ©m dita de maneira diferente. No entanto, as pessoas materialistas interpretam esses ensinamentos visando a sua própria satisfação. Quem vocĆŖ ama?


Convidado:Ā Deus.


Śrīla Gurudeva: Deus ainda estÔ muito distante. Quem você ama na sua casa?

Ā 

Convidado: Minha esposa.


Śrīla Gurudeva: Você tem cachorro?


Convidado:Ā Sim.


Śrīla Gurudeva: Você mataria seu cachorro? 


Convidado: NĆ£o, porque eu o amo.


Śrīla Gurudeva: Se você ama alguém, você não a mata, simples assim. Por isso, amor é Deus e Deus é amor. Deus mora no coração de todo ser vivo. O mesmo Deus que mora no seu coração, no coração de sua esposa e dos seus filhos e filhas, também mora no coração do cachorrinho. Desse modo, como você irÔ matÔ-lo?


DĆŖ amor para todos. Primeiro, ame a Deus, e depois ame a todos. Isso Ć© simples. Deus Ć© amor e amor Ć© Deus. O Senhor Ć© a Personificação do Amor Divino — prema-mayÄ« bhagavān. Isso estĆ” descrito nas escrituras vĆ©dicas, nos Vedas, PurāṇasĀ e Upaniį¹£ads.


Esse assunto Ć© muito interessante. A GÄ«tā e a BĆ­blia dizem a mesma coisa. Kṛṣṇa diz que quem afirma que Ele nĆ£o possui forma Ć© um ofensor, aparādhÄ«. Kṛṣṇa diz: "Como alguĆ©m pode dizer que Eu nĆ£o tenho forma? Eu falo, portanto, como nĆ£o tenho forma?" Uma pessoa fala porque tem uma boca, nĆ£o Ć© mesmo? VocĆŖ caminha; isso significa que vocĆŖ possui pernas. Apāṇi-pādo javano grahÄ«tā (Śvetāśvatara Upaniį¹£adĀ 3.19) — quando Ć© dito que Deus anda, mas nĆ£o possui pernas, significa que Ele nĆ£o possui pernas materiais, mas sim transcendentais. A GÄ«tā explica tudo isso. Esse tipo de conhecimento chama-se conhecimento geral.Ā 


Primeiramente, Ć© necessĆ”ria uma aula de etiqueta, a qual ensina como respeitar a todos, como se sentar, falar e andar apropriadamente, etc. VocĆŖ precisa aprender tudo isso. Os animais nĆ£o aprendem a comer e a dormir apropriadamente — no mesmo lugar em que defecam, eles se deitam e dormem. Contudo, nós, que somos seres humanos, seguimos determinadas regras de etiqueta. Todos os dias, tomamos trĆŖs banhos por dia, ou dois se estiver muito frio. Eu abro uma exceção para vocĆŖs. ƀs vezes, eu mesmo tomo banho duas vezes por dia. Mas quantas vezes os animais tomam banho? Nunca. Ocasionalmente, se vocĆŖ os colocar na Ć”gua, eles tomarĆ£o banho, mas nĆ£o serĆ” por vontade própria. Nós, no entanto, sendo seres humanos, temos o poder de discernir — o poder de saber o que Ć© bom e o que Ć© ruim.


tasmāc chāstraṁ pramāṇaṁ te

kāryākārya-vyavasthitau

jƱātvā śāstra-vidhānoktaṁ

karma kartum ihārhasi


Bhagavad-gītā (16.24)


[ā€œPortanto, em se tratando do que se deve e do que nĆ£o se deve fazer, o śāstraĀ Ć© a Ćŗnica autoridade. Sendo assim, mantendo-se consciente daquilo que o śāstra lhe ensina a respeito de seus próprios deveres, aja simplesmente como instrumento.ā€]


Na GÄ«tā, Kṛṣṇa diz para Arjuna: ā€œO que vocĆŖ deve ou nĆ£o fazer, consta prescrito nas escrituras.ā€ O primeiro passo, portanto, Ć© a etiqueta Vaiṣṇava. Esse Ć© o primeiro tipo de conhecimento a se adquirir, chamado de conhecimento geral, sādhāraṇa-jƱāna. Depois disso, vocĆŖ vai acessar o conhecimento especial, viśeį¹£a-jƱāna, que afirma que nós nĆ£o somos esse corpo, mas sim a alma. Esse corpo só funciona porque a alma estĆ” dentro dele.


Hoje, em ItajaĆ­, nós estĆ”vamos caminhando na praia, e avistamos dois peixes grandes, mortos na areia, sem se mover. Anteriormente, eles estavam se movendo e nadando na Ć”gua; mas se o corpo ainda existe, por que eles nĆ£o estĆ£o mais se movendo? Porque a alma, ātmā, nĆ£o estĆ” mais ali. Kṛṣṇa disse para Arjuna: ā€œTodos aqueles que nascem, morrem.ā€


jātasya hi dhruvo mį¹›tyur

dhruvaṁ janma mį¹›tasya ca

tasmād aparihārye ’rthe

na tvaṁ śocitum arhasi


Bhagavad-gītā (2.27)


[ā€œPara aquele que nasce, a morte Ć© certa, e após a morte, ele voltarĆ” a nascer. Portanto, no inevitĆ”vel cumprimento de seu dever, vocĆŖ nĆ£o deve se lamentar.ā€]


Kṛṣṇa disse: ā€œTodos que nascem, um dia irĆ£o morrer.ā€ Posteriormente, nós podemos falar mais sobre isso, pois agora jĆ” sĆ£o quase onze horas. Entre em contato comigo pelo Skype ou venha comigo para Matinhos. Mas nĆ£o estou dizendo para vocĆŖ renunciar e abandonar a sua esposa. NĆ£o Ć© isso que eu estou dizendo. Isso deixaria a sua esposa brava. Entre em contato comigo pelo Skype e leia aĀ Bhagavad-gÄ«tā. VocĆŖ precisa seguir os quatro princĆ­pios e cantar os santos nomes, pois dessa forma, alcanƧarĆ” a autorrealização.


Os assuntos espirituais nĆ£o sĆ£o somente teorias — eles precisam ser prĆ”ticos. A ciĆŖncia possui dois significados: o teórico e o prĆ”tico. E Ć© por meio da prĆ”tica que a autorrealização Ć© alcanƧada.


Gaura Premānande!

Hari Haribol!




Transcrição: Caitanya-sundarī devī dāsī (MS)

Edição:Ā Kṛṣṇa-jÄ«vanÄ« devÄ« dāsÄ« (GO), Taruṇī-gopÄ« dāsÄ« (SP) e Gaurahari dāsa (SP)

Revisão: Acyuta-priyā devī dāsī (SP)

Diacrƭticos: Gaura-gopāla dāsa (SP)

Colaboração: Madana-gopāla dāsa (SC) e Premānanda dāsa (Espanha)

Ilustração: ŚrÄ«matÄ« Śyāmarāṇī dÄ«dÄ«


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